FG News: Arqueólogo diz ter achado gruta onde São João batizava seus seguidores

Postado em: 23-06-2008 Achados arqueológicos descritos num livro que acaba de chegar ao Brasil, bem como uma série de pesquisas históricas cuidadosas, podem ajudar a traçar um quadro mais claro sobre a vida de São João Batista, o profeta venerado pelos cristãos como o responsável por preparar a vinda de Jesus. (Foto: pintura João Batista batiza Jesus, do italiano Pierro della Francesca)

O arque√≥logo brit√Ęnico Shimon Gibson encontrou, nos montes perto de Jerusal√©m, uma gruta com desenhos que retratariam o Batista e que teria sido usada, no s√©culo 1 da Era Crist√£, para rituais de purifica√ß√£o id√™nticos ao batismo conferido pelo santo.

Ao mesmo tempo, Gibson e outros especialistas nas origens do cristianismo est√£o questionando a id√©ia de que o Batista teria reconhecido imediatamente a superioridade de Cristo. √Č poss√≠vel que Jesus tenha come√ßado como disc√≠pulo de Jo√£o e s√≥ depois iniciado sua pr√≥pria miss√£o, mantendo, no entanto, um profundo respeito pelo antigo mentor e incorporando aspectos da prega√ß√£o de Jo√£o em seu minist√©rio.

Embora essa possibilidade ainda esteja em debate, ningu√©m coloca em discuss√£o a exist√™ncia hist√≥rica de Jo√£o Batista e o fato de ele ter batizado Jesus no rio Jord√£o, pouco antes do ano 30 de nossa era. ‚ÄúO batismo de Jesus certamente √© um fato hist√≥rico, especialmente se levarmos em conta o chamado crit√©rio do constrangimento‚ÄĚ, diz Luiz Felipe Ribeiro, professor da p√≥s-gradua√ß√£o em hist√≥ria do cristianismo antigo da Universidade de Bras√≠lia (UnB) que est√° concluindo seu doutorado na Universidade de Toronto (Canad√°).

O critério do constrangimento é uma das principais ferramentas usadas pelos historiadores para decidir se um fato narrado nos Evangelhos realmente aconteceu com Jesus. A idéia é que os evangelistas não teriam motivos para criar uma narrativa que pudesse causar problemas para sua pregação por ser potencialmente constrangedora. Ao mesmo tempo, sentiriam a necessidade de relatar a situação embaraçosa nos casos em que ela era de conhecimento geral e, portanto, não poderia ser simplesmente omitida.

O batismo de Jesus por Jo√£o √© um desses casos, afirma Emilio Voigt, doutor em Novo Testamento e coordenador de ensino √† dist√Ęncia da Escola Superior de Teologia de S√£o Leopoldo (RS). ‚ÄúSe o batismo de Jo√£o √© para o arrependimento [dos pecados], porque Jesus precisaria ser batizado? Como Jesus, o Messias, poderia ser batizado por algu√©m teoricamente inferior a ele?‚ÄĚ, diz o pesquisador. Segundo Voigt, a tradi√ß√£o crist√£ resolve isso por meio do ‚Äútestemunho‚ÄĚ de Jo√£o ‚Äď afirma√ß√Ķes do profeta de que ele teria vindo apenas para proclamar a chegada de Jesus e de que, na verdade, ele n√£o seria digno de batiz√°-lo.

A caverna

E como seria o batismo de Jo√£o? O mais prov√°vel √© que a cerim√īnia tenha se inspirado nas cerim√īnias judaicas de banhos purificadores, as quais envolviam a imers√£o total do corpo em √°gua. (N√£o √© √† toa que o apelido de ‚ÄúBatista‚ÄĚ vem do verbo grego que designa o ato de ‚Äúmergulhar‚ÄĚ, ‚Äúsubmergir‚ÄĚ.) A diferen√ßa, no entanto, √© que os banhos judaicos eram realizados sempre que a pessoa precisava remover certas formas de impureza ritual, enquanto o batismo de Jo√£o, at√© onde sabemos, era uma cerim√īnia √ļnica, que acontecia de uma vez por todas.

Shimon Gibson, que hoje trabalha na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte (EUA), usa justamente esses dados em seu livro ‚ÄúA gruta de S√£o Jo√£o Batista‚ÄĚ (Editora Record). A caverna que ele e seus colegas escavaram fica perto de Ein Karim, lugar onde o santo teria nascido, segundo a tradi√ß√£o crist√£. Ao estudar o interior da gruta, eles encontraram sinais de ac√ļmulos de lama e estruturas de pedra que serviriam para formar ‚Äúpiscinas‚ÄĚ, canalizando e acumulando a √°gua da chuva dentro da rocha.

Al√©m disso, h√° ind√≠cios de uso intermitente do lugar durante todo o s√©culo 1, como restos de cer√Ęmica, mas nenhum sinal de que a ocupa√ß√£o tivesse sido dom√©stica (n√£o h√° utens√≠lios de cozinha ou fogo, por exemplo). Finalmente, as paredes s√£o adornadas com desenhos misteriosos, atribu√≠dos pelos arque√≥logos √† √©poca bizantina (em torno do s√©culo 6). H√° cruzes e outras formas de iconografia crist√£ e, o mais importante, um homem com roupa de peles, cajado nas m√£os e um aparente cordeiro a seu lado. Para Gibson, seria uma representa√ß√£o tosca de Jo√£o Batista ao lado do ‚ÄúCordeiro de Deus‚ÄĚ, ou seja, Jesus.

Com base nesses ind√≠cios, Gibson e seus colegas, como James Tabor, tamb√©m da Universidade da Carolina do Norte, prop√Ķem que os crist√£os bizantinos haviam herdado uma tradi√ß√£o segundo a qual Jo√£o havia iniciado suas atividades como Batista naquela gruta antes de ir para o rio Jord√£o ‚Äď- tradi√ß√£o que as estruturas de banhos rituais poderiam confirmar.

Origens separadas?

Outros pesquisadores ainda encaram com ceticismo as propostas de Gibson e Tabor, mas um ponto em comum com os escavadores da gruta é a relação complexa entre João e Jesus (e os discípulos de ambos) que as diferenças entre os Evangelhos deixam entrever.

No Evangelho de Marcos, por exemplo, João simplesmente batiza Jesus, sem uma conversa entre os dois que deixe clara a posição de submissão do profeta a Cristo. O Evangelho de Mateus traz a afirmação explícita, por parte de João, de que Jesus é que deveria batizá-lo, e não o contrário. Já o Evangelho de Lucas primeiro menciona a prisão do Batista para só depois falar do batismo de Jesus -- sem dizer quem foi o batizador. Finalmente, o Evangelho de João, o mais radical nesse sentido, não menciona em nenhum momento o batismo de Cristo e, aliás, nem se refere a João como "o Batista".

"√Č interessante como, conforme a compreens√£o dos primeiros crist√£os sobre Jesus vai evoluindo e ele passa a ser encarado cada vez mais como divino, a necessidade de tornar clara a superioridade de Jo√£o em rela√ß√£o a Jesus aumenta. Em Marcos, que √© o Evangelho mais antigo, isso ainda n√£o √© um problema t√£o grande", diz Luiz Felipe Ribeiro.

Os crist√£os est√£o acostumados a ver Cristo e seu Precursor como parentes por parte de m√£e, gra√ßas √† hist√≥ria sobre a gravidez da idosa Isabel, aparentada a Maria, que aparece no Evangelho de Lucas. No entanto, o consenso entre os historiadores √© que as tradi√ß√Ķes sobre essa rela√ß√£o pr√≥xima desde o nascimento apareceram mais tarde entre as comunidades crist√£s e provavelmente n√£o refletem a hist√≥ria familiar de Jesus e Jo√£o.

"As narrativas da inf√Ęncia representam o √ļltimo estrato da tradi√ß√£o dos Evangelhos. As lendas sobre os nascimentos miraculosos de Jo√£o Batista e de Jesus buscam interpretar a rela√ß√£o entre ambos a partir da messianidade de Jesus e a partir do fato de que ambos entraram em contato historicamente", diz Paulo Augusto Nogueira, da Universidade Metodista de S√£o Paulo.

Impacto decisivo

"A exata rela√ß√£o hist√≥rica entre Jo√£o Batista e Jesus √© dif√≠cil de precisar, porque os textos dos Evangelhos, todos eles, s√£o uma combina√ß√£o de elementos hist√≥ricos e interpreta√ß√Ķes feitas posteriormente no √Ęmbito das comunidades crist√£s", lembra o padre L√©o Zeno Konzen, coordenador do curso de teologia da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Miss√Ķes (RS). No entanto, o que se pode dizer com toda a certeza, pondera o pesquisador, √© que Jesus apoiou o movimento de Jo√£o e, ao decidir ir at√© o Jord√£o para ser batizado por ele, deu um passo decisivo para deixar Nazar√© para tr√°s e tornar-se algu√©m com uma miss√£o religiosa.

"Se aceitarmos que Jesus viveu em tudo a condição humana, a hipótese de que João Batista tenha influenciado Jesus para mudar seu modo de inserir-se na realidade parece válida e até muito provável. Os evangelistas todos mostram que o encontro de Jesus com o movimento de João Batista constitui um divisor de águas na vida do Mestre dos cristãos", diz o teólogo. Para Konzen, é possível que um evento seguinte -- a prisão de João Batista a mando de Herodes Antipas, tetrarca (governador) da Galiléia -- tenha sido o "gatilho" final que iniciou a pregação de Jesus.

O que aconteceu entre o batismo e a pris√£o do Batista √© motivo de muito debate entre os historiadores. Uma das teses mais bem articuladas √© a do padre americano John P. Meier, autor da monumental obra "Um Judeu Marginal" (publicada em volumes e ainda n√£o conclu√≠da) sobre o Jesus hist√≥rico. Para Meier, Jesus teria passado algum tempo entre os disc√≠pulos de Jo√£o, at√© adquirir uma nova consci√™ncia sobre seu papel messi√Ęnico e tornar-se um profeta independente. Segundo o pesquisador americano, Jesus concordava com Jo√£o sobre a proximidade de um julgamento definitivo do povo de Israel por Deus, mas dava √™nfase √† miseric√≥rdia divina que estava sendo estendida at√© aos judeus mais pecadores diante desse "Ju√≠zo Final".

"Essa pode ser considerada uma hipótese plausível, mas não temos evidências concretas a respeito. Em todo caso, é interessante que todos os comentários de Jesus a respeito de João [nos Evangelhos] são positivos", afirma Emilio Voigt.

Jesus, o Batista?

Outra pista interessante que une o minist√©rio dos dois vem do Evangelho de Jo√£o (atribu√≠do ao ap√≥stolo Jo√£o, que n√£o tem rela√ß√£o nenhuma com Jo√£o Batista). O evangelista diz que v√°rios dos disc√≠pulos de Cristo seriam originalmente seguidores de Jo√£o, e que Jesus e seus ap√≥stolos tamb√©m teriam batizado pessoas durante a vida de Cristo. Para Meier, isso sugere que o batismo crist√£o seria um ritual transmitido diretamente de Jo√£o a Jesus, e de Jesus a seus ap√≥stolos e √†s futuras gera√ß√Ķes crist√£s.

O Evangelho de João também relata que os discípulos do Batista teriam reclamado com seu mestre, dizendo que estavam perdendo seguidores para Jesus. "Essa narrativa é constrangedora, portanto merece algum crédito", afirma Paulo Nogueira. "Parece que, por um curto espaço de tempo, o discípulo começou a fazer mais sucesso que seu mestre", diz ele. Voigt, no entanto, lembra que o Evangelho de João, escrito muito tarde (provavelmente por volta do ano 100), é visto com desconfiança por quem tenta estudar Jesus e João como personagens históricos.

Outra possibilidade, lembra Luiz Felipe Ribeiro, √© que o suposto ci√ļme entre os dois grupos reflita rivalidades entre crist√£os e seguidores de Jo√£o ap√≥s a morte de seus respectivos mestres. Ali√°s, diz o pesquisador, h√° ind√≠cios de que uma seita de veneradores do Batista continuava a existir mais de um s√©culo ap√≥s a morte de seu mestre.

Decapitado

Controv√©rsias √† parte, uma outra certeza em rela√ß√£o a Jo√£o Batista √© que sua prega√ß√£o, tal como a de Jesus, n√£o agradou nem um pouco aos poderosos de seu tempo. Os dois relatos que existem sobre o fim do profeta -- nos Evangelhos e na obra do escritor judeu Fl√°vio Josefo -- atribuem sua morte, por decapita√ß√£o, ao poderoso Herodes Antipas, que teria mandado aprisionar e depois executar Jo√£o na fortaleza de Maqueronte. A motiva√ß√£o, no entando, difere nas duas vers√Ķes.

Para o Novo Testamento, Herodes teria sido criticado publicamente por João por ter se casado com a ex-mulher de seu irmão. A nova esposa do tetrarca, ofendida, teria conseguido a cabeça do profeta como reparação. Já Josefo afirma que Herodes Antipas, temendo que a pregação do Batista levasse o povo à revolta, teria decidido eliminá-lo antes que seus medos virassem realidade.

"Josefo provavelmente √© mais confi√°vel", avalia Luiz Felipe Ribeiro. "Jo√£o Batista, por suas a√ß√Ķes, fazia parte de um grupo de profetas que tentavam reencenar momentos-chave na hist√≥ria de Israel. Ao ir para o deserto e para as margens do rio Jord√£o, era como se ele trouxesse de volta a chegada dos israelitas √† Terra Prometida" -- e isso implicava uma conota√ß√£o de independ√™ncia para os judeus que Antipas, como fantoche dos romanos, n√£o poderia permitir.

Legado

No fim das contas, a morte de João, tal como a de Jesus, definiu seu legado. "Na minha opinião, ele pregava a vinda do 'mais forte', que poderia ser Deus ou outro mediador escatológico [do fim dos tempos], o qual batizaria com fogo, ou seja, o juízo", diz Paulo Nogueira. "Após a morte dele, os seguidores de Jesus reinterpretaram a pregação de João Batista, considerando que o 'mais forte' era Jesus e que o fogo era o símbolo do Espírito Santo. Para nós pode parecer distorção ou falsificação, mas creio que era uma forma de cultivar a memória e a veneração pelo mestre de Jesus."

Para o padre Léo Konzen, apesar das incertezas sobre a relação histórica entre Jesus e João, não há motivo para achar que a fé cristã sai prejudicada por hipóteses como a da influência do Batista sobre Cristo. "Creio que o processo de formação das pessoas de fé cristã deve ajudar a perceber a riqueza que se encontra justamente nesse processo de interpretar os acontecimentos. Não podemos ler a Bíblia ao pé da letra. Como pessoas de fé, nossos antepassados vivenciaram processos muito criativos de leitura dos acontecimentos, atribuindo-lhes significados que, à primeira vista, não eram perceptíveis nem imagináveis. A Bíblia toda foi construída assim", pondera.

Fonte: G1