FG News: Crise do movimento evangélico está ligada ao liberalismo

Postado em: 11-09-2008 Para o professor Augustus Nicodemus Lopes, a crise do movimento evang√©lico brasileiro est√° ligada ao liberalismo e √† flexibiliza√ß√£o dos conte√ļdos das Escrituras. ‚ÄúPassam uma imagem ao p√ļblico de que todos os evang√©licos e seus pastores s√£o mercen√°rios‚ÄĚ, diz Nicodemus.

'N√£o me acho xiita', vai logo dizendo o professor, pastor e pesquisador presbiteriano Augustus Nicodemus Lopes em seu mais novo livro, O que est√£o fazendo com a Igreja (Mundo Crist√£o). 'Mas muitos me chamam de fundamentalista', acrescenta. 'N√£o fico envergonhado quando me rotulam dessa forma, embora prefira o termo calvinista ou reformado', explica.

A quantidade de adjetivos expressa bem o universo desse intelectual protestante, nascido na Para√≠ba e que fez carreira no segmento acad√™mico religioso. Graduado em teologia, mestre em Novo Testamento e doutor em Interpreta√ß√£o B√≠blica ‚Äď este √ļltimo t√≠tulo, pelo Instituto Teol√≥gico de Westminster (EUA) ‚Äď, Nicodemus j√° dirigiu diversos semin√°rios ligados √† sua denomina√ß√£o e hoje exerce o cargo de chanceler da respeitada Universidade Presbiteriana Mackenzie, em S√£o Paulo. Na mesma cidade, pastoreia a Igreja Presbiteriana de Santo Amaro.

O conjunto de sua obra j√° d√° uma id√©ia de suas posi√ß√Ķes teol√≥gicas. T√≠tulos como O que voc√™ precisa saber sobre batalha espiritual, F√© crist√£ e misticismo e Ordena√ß√£o de mulheres: O que diz o Novo Testamento, todos publicados pela Cultura Crist√£, entre diversos outros livros, s√£o baseados na mesma teologia conservadora que ele n√£o apenas abra√ßa, como defende com unhas e dentes. O que n√£o impede, √© claro, que esteja aberto a outros pensamentos. 'Desde que sejam comprometidos com as Escrituras', ressalva.

Nesta conversa, Augustus Nicodemus fala do livro recém-lançado na Bienal do Livro de São Paulo e avalia a situação da Igreja Evangélica hoje. 'Infelizmente, estão fazendo muita coisa ruim com ela', aponta.

√Č inevit√°vel come√ßar esta entrevista com a pergunta que d√° t√≠tulo ao seu livro: o que est√£o fazendo com a Igreja?

Infelizmente, muita coisa ruim ‚Äď desde desfigur√°-la, passando uma imagem ao p√ļblico de que todos os evang√©licos e seus pastores s√£o mercen√°rios que vivem para fazer barganhas com Deus em troca de b√™n√ß√£os, at√© destru√≠-la internamente, trocando o Evangelho de Cristo por um outro evangelho. Um evangelho despido de poder, realidade hist√≥rica e efic√°cia salvadora, que √© ensinado pelos liberais. Aqui entram tamb√©m os hiper-conservadores, √†s vezes chamados de neo-puritanos, com sua vis√£o radical de culto.

Quais os efeitos da pós-modernidade sobre a Igreja?

A pós-modernidade facilitou e aumentou a influência do liberalismo, do relativismo e do pragmatismo na Igreja brasileira, ainda que esses movimentos e tendências sejam tão antigos quanto a própria Igreja. A presente época, marcada pela pós-modernidade, facilita a penetração desses elementos na vida, liturgia e missão das igrejas evangélicas, como de fato temos presenciado. E por outro lado, existem líderes evangélicos que conscientemente constroem ministérios, igrejas e movimentos que se apóiam em métodos e ideologias liberais, relativistas e pragmáticas. O que essas coisas têm em comum é que sempre representam uma tentação para corromper o Evangelho bíblico, quer pelo apelo à soberba humana, quer por um tipo de Cristianismo descompromissado, ou ainda pela oferta enganosa de resultados extraordinários em curto espaço de tempo.

A crise de ortodoxia do Evangelho contempor√Ęneo, bem como o p√≥s-denominacionalismo, √© resultado direto deste processo?

Sem d√ļvida. O relativismo representa uma amea√ßa concreta √† Igreja, pois a mesma se firma sobre verdades universais e imut√°veis, como a exist√™ncia do Deus Trino; a humanidade e divindade de Jesus Cristo; sua morte vic√°ria e sua ressurrei√ß√£o real e f√≠sica de entre os mortos; a salva√ß√£o pela f√© sem as obras da lei; e a segunda vinda de Cristo. A Igreja defende tamb√©m uma √©tica centralizada no amor que, segundo Jesus e seus ap√≥stolos, consiste em obedecer a Deus e aos seus mandamentos. Todavia, o relativismo rejeita o conceito de verdades absolutas e internaliza a verdade no indiv√≠duo.

E qual o efeito pr√°tico disso?

O questionamento √† autoridade da B√≠blia, ao car√°ter √ļnico do Cristianismo e ao comportamento √©tico pregado historicamente pelos crist√£os. Mas, num certo sentido, o relativismo pode representar uma oportunidade para o Cristianismo em ambientes p√≥s-crist√£os, onde a f√© crist√£ j√° foi exclu√≠da a priori. Por exemplo, no ambiente das universidades, o discurso √© geralmente anticrist√£o, relativista, pluralista e inclusivista. Os crist√£os podem, em nome da variedade e da pluralidade, pedir licen√ßa para falar, j√° que, de acordo com a p√≥s-modernidade, todos os discursos s√£o iguais e v√°lidos ‚Äď e nenhum √© melhor do que o outro.

O movimento evangélico brasileiro, tão numeroso e multifacetado, está perto de seu fim?

N√£o creio que o movimento evang√©lico brasileiro chegue a um fim, mas temo que esse processo de desfiguramento e de enfraquecimento teol√≥gico e doutrin√°rio, levado a cabo por liberais, neopentecostais, libertinos e neo-puritanos, acabe transformando a Igreja brasileira em algo distinto da Igreja b√≠blica. Por outro lado, como sempre existiram os sete mil que nunca dobraram os joelhos a Baal, √© prov√°vel que, paralelamente, aconte√ßa o fortalecimento de denomina√ß√Ķes, minist√©rios e grupos evang√©licos que prezam a B√≠blia ‚Äď gente que valoriza as pr√°ticas devocionais como ora√ß√£o, medita√ß√£o e santidade b√≠blica e que tem vis√£o evangel√≠stica e mission√°ria. J√° no momento atual √© poss√≠vel identificar esse crescimento, embora em dimens√Ķes menores do que gostar√≠amos. Quanto ao perfil dessa nova Igreja, fica dif√≠cil prever.

Uma das críticas que o senhor faz é à ênfase na formação teológica liberal, que seria uma espécie de 'coqueluche' dos teólogos de hoje, interessados numa graduação reconhecida sob o ponto de vista acadêmico. Neste sentido, o reconhecimento oficial aos cursos de teologia, uma antiga bandeira do segmento evangélico, veio para melhorar ou piorar as coisas?

Em si, o reconhecimento oficial de um diploma de teologia n√£o representa qualquer perigo para a Igreja. Mas o problema n√£o √© o isso, e sim, o conte√ļdo que ser√° ministrado aos alunos que buscam uma forma√ß√£o reconhecida pelo Minist√©rio da Educa√ß√£o. Da minha parte, creio ser poss√≠vel termos um curso de teologia reconhecido oficialmente e que apresente uma teologia b√≠blica e saud√°vel. Todavia, nem sempre tem sido esse o caso.

Como assim?

Esse reconhecimento tem sido oferecido, freq√ľentemente, atrav√©s de cursos de teologia de faculdades e universidades p√ļblicas e privadas que n√£o t√™m compromisso com a confessionalidade crist√£ hist√≥rica. √© verdade que o reconhecimento oficial dos cursos de teologia √© uma antiga bandeira do segmento evang√©lico. S√≥ que, quando os evang√©licos queriam isso, os cursos de teologia reconhecidos eram oferecidos por institui√ß√Ķes de ensino superior que tinham tradi√ß√£o crist√£. Al√©m disso, eram dirigidas por crist√£os comprometidos com a teologia hist√≥rica da Igreja, como Princeton nos Estados Unidos e a Universidade Livre na Holanda, por exemplo. Atualmente, grande parte dos professores de alguns desses cursos obt√™m seus diplomas e graus de mestre e doutor em escolas liberais ‚Äď e nem sempre na √°rea de teologia, mas em ci√™ncias da religi√£o, sociologia, psicologia, antropologia, letras etc.

O problema, então, é o que professores com este tipo de formação vão ensinar?

Não é tanto o que eles ensinam, mas o que deixam de ensinar, exatamente porque não tiveram uma sólida formação teológica debaixo de orientação bíblica. Quem mais tem sentido o impacto do liberalismo teológico em sua mão de obra são as igrejas pentecostais, que por não terem tradição em preparar seus obreiros, acabam recorrendo a esses cursos e expondo seus pastores, evangelistas e obreiros à teologia liberal.

Em sua obra, o senhor fala na exist√™ncia de uma esquerda teol√≥gica que valoriza o liberalismo, n√£o apenas nas quest√Ķes religiosas, mas sobretudo comportamentais. Num panorama em que a esquerda pol√≠tica, atualmente no poder, parece confusa e adota posturas flagrantemente neoliberais, esta confus√£o ideol√≥gica tamb√©m contamina o segmento evang√©lico?

Acho que sim. N√£o √© coincid√™ncia que um grande segmento evang√©lico esteja defendendo bandeiras liberais, como o aborto, o reconhecimento das uni√Ķes homoafetivas, o sexo antes do casamento... Essa atitude de toler√Ęncia e relativismo √© a mesma que sempre marcou o esquerdismo no Brasil. N√£o estou dizendo que todo evang√©lico esquerdista √© liberal e defende essa agenda; mas que existe uma coincid√™ncia de valores √©ticos e de agenda.

O movimento evang√©lico brasileiro √© t√£o diversificado quanto as milhares de denomina√ß√Ķes que o comp√Ķem. No atual panorama, identificado no seu livro, esta diversidade traz mais vantagens ou desvantagens?

Acredito que a diversidade √© sadia e b√≠blica. Entendo, por√©m, que existe uma unidade essencial e b√°sica entre os verdadeiros crist√£os, que pode ser resumida nos fundamentos da f√© b√≠blica. Os verdadeiros evang√©licos confessam estes fundamentos, e vamos encontr√°-los em todas as denomina√ß√Ķes que comp√Ķem a Igreja Evang√©lica brasileira. Mas vamos encontrar tamb√©m quem n√£o cr√™ em nenhuma dessas coisas, ou que nutrem reservas quanto a elas. Eu n√£o tenho problemas com a diversidade, pois acho-a enriquecedora. Tenho diverg√™ncias inclusive com irm√£os e colegas que s√£o reformados calvinistas como eu. Todavia, existe uma unidade essencial mais forte e superior √†s diverg√™ncias. Teologia tem um poder tremendo para unir as pessoas ou para separ√°-las, pois tem a ver com convic√ß√Ķes e experi√™ncias pessoais.

A partir dos anos 1980, o advento da teologia da prosperidade e da confissão positiva mudou a maneira de se pensar a fé evangélica no país. Qual a verdadeira influência destas correntes na crise do movimento evangélico nacional?

A confiss√£o positiva acabou exercendo uma grande influ√™ncia sobre os evang√©licos brasileiros. Na minha opini√£o, todavia, ela n√£o √© a maior influ√™ncia negativa. Considero a teologia da prosperidade, a busca de experi√™ncias m√≠sticas, as crendices e supersti√ß√Ķes que infestam os arraiais neopentecostais como sendo de maior periculosidade para a Igreja. Quanto ao segmento reformado, por sua pr√≥pria natureza, ele √© mais resistente √† essas infec√ß√Ķes e pouca influ√™ncia recebeu ‚Äď mas tem, entretanto, sofrido mais com outros tipos de problemas, especialmente com sua incapacidade, at√© o momento, de crescer de forma significativa sem perder o compromisso com a f√© hist√≥rica da Igreja.

Se muitos dos postulados neopentecostais v√£o de encontro √† tradi√ß√£o protestante, em qu√™ o segmento hist√≥rico falhou, ou pelo menos hesitou, para que, a partir dos anos 1970, o neopentecostalismo crescesse em propor√ß√Ķes geom√©tricas no cen√°rio evang√©lico nacional?

Boa pergunta. √© interessante que, na d√©cada de 1950, a Igreja Presbiteriana era uma das maiores denomina√ß√Ķes evang√©licas do pa√≠s. Por algum motivo, perdemos o bonde. N√£o sei avaliar direito o que aconteceu. Pode ser que tenhamos exagerado na rea√ß√£o aos abusos do movimento carism√°tico na d√©cada de 70 e nos fechamos na defensiva. Ficou dif√≠cil, naquela √©poca, falar do Esp√≠rito Santo e de reavivamento espiritual sem sermos confundidos com carism√°ticos e pentecostais. Pode ser tamb√©m que reagimos da mesma forma diante do crescente movimento lit√ļrgico e do movimento de crescimento de igrejas, com toda sua parafern√°lia metodol√≥gica centrada no homem ‚Äď movimentos estes que dominaram o cen√°rio dos anos 70 a 80. E depois, a mesma coisa diante dos neopentecostais. N√£o conseguimos ainda sair da defensiva e ser mais proativos, oferecendo alternativas, solu√ß√Ķes ‚Äď e o que √© melhor, oferecer nosso pr√≥prio exemplo de como uma igreja pode crescer de maneira sadia, sem comprometer a teologia e a √©tica b√≠blica.

Então, o liberalismo teológico também afetou as igrejas tradicionais?

Sim, afetou tremendamente as igrejas hist√≥ricas nos anos 60, especialmente os seus semin√°rios. Isso causou graves problemas e disputas internas, que obrigaram essas igrejas a relegar o crescimento a um plano secund√°rio e a se concentrarem na pr√≥pria sobreviv√™ncia. As igrejas hist√≥ricas que n√£o conseguiram sobreviver ilesas hoje s√£o as menores entre os evang√©licos, mais voltadas para o social e ainda em lutas internas com os liberais que sobreviveram dentro de suas organiza√ß√Ķes e estruturas. J√° as que conseguiram sair inteiras, embora chamuscadas, come√ßam lentamente a progredir e retomar seu crescimento, como creio ser o caso da Igreja Presbiteriana do Brasil.

Por que lideranças autocráticas e monolíticas, cada vez mais comuns nas igrejas, são aceitas pelos fiéis?

Em minha opini√£o, √© o que chamo em meu livro de 'a alma cat√≥lica dos evang√©licos brasileiros'. Os brasileiros est√£o acostumados com o catolicismo romano e sua hierarquia eclesi√°stica totalit√°ria. Por s√©culos, o romanismo impregnou a alma brasileira com a id√©ia de que a religi√£o deve ser conduzida por l√≠deres acima do povo, que vivem numa esfera superior; enfim, intoc√°veis. No romanismo, os l√≠deres n√£o s√£o eleitos pelo povo, como acontece na maioria das igrejas hist√≥ricas, cujo sistema de governo √© democr√°tico ‚Äď eles s√£o impostos, determinados, designados. Al√©m disso, s√£o considerados como especiais e distintos; √© o clero separado dos leigos. As ordens eclesi√°sticas s√£o um dos sacramentos da Igreja Cat√≥lica. E os brasileiros viveram sua vida toda debaixo da influ√™ncia de uma religi√£o regida por bispos e por um papa, o qual, segundo um dogma cat√≥lico, √© infal√≠vel. Nada mais natural, portanto, que ao se tornarem evang√©licos, suspirem e desejem o mesmo esquema de lideran√ßa, como os israelitas que disseram a Samuel que constitu√≠sse um rei sobre eles, para que os governasse, como o tinham as outras na√ß√Ķes √† sua volta, conforme I Samuel 8.5. Essa mentalidade romana favorece o surgimento, entre os evang√©licos, de l√≠deres autocr√°ticos e auto-designados, que se arrogam o t√≠tulo e o status de bispos ou ap√≥stolos.

Fonte: Cristianismo Hoje