A morte induzida de Piergorgio Welby, 60, na noite de quarta-feira em Roma, levantou uma enorme polêmica na Itália sobre a eutanásia. Sofrendo de distrofia muscular há 42 anos e imóvel em uma cama desde 1997, Welby liderou nos últimos meses uma campanha pelo seu direito a morrer.

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Em setembro, ele havia enviado um vídeo ao presidente italiano, Giorgio Napolitano, em que falava de suas condições (um computador sintetizou sua voz) e pedia o direito a morrer.

“Se eu fosse suíço, holandês ou belga, poderia aforrar este sofrimento. Mas sou italiano e aqui não existe piedade”, dizia no vídeo, transmitido pela tevê.

Na noite de quarta-feira, depois de ter seu pedido negado por várias instâncias judiciais, o anestesista Mario Riccio desligou o respirador artificial que mantinha o paciente vivo, após ter ministrado um coquetel de sedativos “para que ele não sofresse com a falta de ar”.

Para tentar driblar a lei -o responsável pela eutanásia está sujeito a até 15 anos de prisão na Itália -, Ricco disse que “apenas suspendeu o tratamento, como quis o paciente”.

A confirmação da morte, meia hora depois de desligado o aparelho, foi dada por Marco Panella, presidente do pequeno Partido Radical, de esquerda, que defende a eutanásia.

Welby e o ex-presidente desse partido, Luca Coscioni, criaram uma associação “para a liberdade de investigação científica”. Coscioni morreu em fevereiro, aos 38 anos, de esclerose, sem conseguir exercer sua vontade de morte induzida.

Políticos da oposição conservadora na Itália pediram que o médico seja preso imediatamente e acusaram os radicais italianos de usarem politicamente a morte do paciente.

“Esse médico cometeu um homicídio, não pode ficar impune”, disse o deputado democrata-cristão Luca Volonté.

Intitulando-se um “defensor da vida”, o premiê socialista Romano Prodi afirmou que “o país e o governo têm que debater e levar em conta este caso”.

Debate no mundo

A eutanásia é tema de debate crescente nos países desenvolvidos. Desde 1984, a eutanásia não é penalizada na Holanda – e foi legalizada em 2001.

No ano seguinte, a Bélgica aprovou lei parecida com a holandesa. Na Suíça, apesar de ilegal, uma brecha da lei permite “suicídios assistidos” desde 1942 – desde que o próprio paciente ministre a droga letal.

Desde 1994, o Estado de Oregon, nos EUA, permite o suicídio assistido. Outros países permitem a interrupção do tratamento por vontade do paciente, mesmo com risco de morte, como o Reino Unido.

A americana Terri Schiavo esteve no meio de uma polêmica nos EUA quando seu marido pediu na Justiça que seu tubo de alimentação fosse desligado. Ela ficou em estado vegetativo por 15 anos. A Justiça americana permitiu o desligamento.

Na Espanha, o premiê socialista José Luis Rodríguez Zapatero também quer aprovar a eutanásia. O marinheiro Ramón Sampedro tornou-se uma celebridade no país ao lutar pelo direito de morrer. Ele ficou 29 anos imóvel em uma cama, depois de um acidente, e sua história foi adaptada para o cinema pelo cineasta espanhol Alejandro Amenábar no filme “Mar Adentro”.

Como Sampedro, Welby se tornou muito conhecido na Itália, depois de aparecer em reportagens de televisão, escrever poemas e um diário no seu blog, além de lançar o livro “Deixem-me morrer”.

Nele, ele escreveu que “morrer deveria ser como dormir depois do amor, cansados, tranqüilos e com essa sensação de estupor que invade tudo”. Mas o desejo de Welby de provocar a discussão da eutanásia em seu país, à primeira vista, surtiu efeito.

Fonte: Folha de São Paulo

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