Apesar de todo avanço que o movimento feminista alcançou em 200 anos de história, desde a Revolução Francesa, a instituição sociocultural do patriarcado ainda é marcante na civilização ocidental, também no mundo religioso e nas estruturas eclesiais.

Em seu processo de construção social, a religião é influenciada, nitidamente, pelo masculino. “Um dos exemplos mais marcantes que observamos está no cristianismo, que encontra em seu processo de evolução histórico-social um sistema patriarcal, em que a mulher desaparece no relato dos evangelhos como parte do movimento de Jesus”, apontou a teóloga e professora Fernanda Lemos.

O “mito de criação cristão, prossegue Lemos, informa que a mulher é responsável por toda a desgraça humana, pois ouviu a voz da serpente. “Graças a esse episódio, ela é obrigada a ser submissa ao homem, e eternamente pagar por sua dívida irremediável e milenar”, declarou a teóloga em entrevista para a revista do Instituto Humanitas, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), que preparou edição, na semana passada, focada no Dia Internacional da Mulher.

“O imaginário religioso é de um deus macho, forte e racional, logo, com características atribuídas ao masculino”, explicou Lemos. Ela enxerga a masculinidade como um projeto burguês. Assim, ser homem na religião implica assumir características da masculinidade “ditada” pelo sistema religioso e o desvio de tais características certamente resultará na exclusão do grupo, arrolou.

Para a teóloga metodista Adriana de Souza, a sociedade brasileira ainda é muito machista, o que se reflete também nas organizações religiosas, nas quais a mulher continua em posição subalterna nos domínios da igreja. Mas, admitiu, as mudanças ocorridas no papel do feminino e, em conseqüência, no papel masculino “balançaram as estruturas sociais, especialmente na segunda metade do século passado”.

Desde então, analisou Adriana, vários espaços e direitos historicamente negados foram adquiridos por causa da persistente força das mulheres em manifestar seu repúdio a essas discriminações e exigir seus direitos de cidadãs e sujeitos de direito tais quais os homens, um processo ainda inacabado.

O feminismo, explicou a professora universitária Telma Gurgel da Silva em entrevista ao IHU, não propõe a inversão do machismo, a sobreposição aos direitos e à “liberdade” dos homens, mas defende um tratamento igualitário e a superação das bases ideológicas-estruturais que fundamentam e consolidam o sistema patriarcal.

Em sua trajetória, o feminismo é, acima de tudo, “um movimento de transformação social que procura a construção de uma nova ordem na qual se superem as relações predominantes do sistema patriarcal capitalista de gênero”, declarou Telma Gurgel da Silva.

O patriarcado, disse em entrevista ao IHU o professor do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza, Georges Daniel Janja Bloc Boris, é uma instituição sociocultural milenar que padronizou modos de ser, de se comportar, de se vestir e outros.

Ele explicou, na entrevista, que a concepção de gênero é mais ampla do que a de sexo, pois refere-se a uma construção. “Não basta que eu tenha um pênis, pêlos e outros constituintes da masculinidade, mas o gênero é, principalmente, uma representação ‘construída’, portanto, é simbólica, relacional, histórica e sociocultural”, disse.

O que se percebe, acrescentou Boris, é que o homem e a mulher vêm se transformando ao longo do tempo e manifestam-se de modo diferente conforme o contexto em que vivem. Para a teóloga católica Ivone Gebara, “estamos num momento crítico” no qual, de forma lenta, a cultura “vai nos mostrar que um novo relacionamento entre mulheres e homens está emergindo”.

Gebara aponta para a crise do masculino, a fragilização do masculino. “Essa identidade do masculino como o provedor, o chefe, o que sabe, o que comanda a sociedade, continua, mas cada vez mais as mulheres têm sido críticas dessas pretensões de poder”, analisou para o IHU. Ao afirmarem a nova identidade, as mulheres insistem, também, que os homens entrem nesse processo de redefinição de sua identidade, assinalou.

“As mulheres avançaram muito no conhecimento delas próprias, no conhecimento da sua intimidade, da sua sexualidade e genitalidade, dos seus desejos e, de repente, elas se dão conta de que os homens não fizeram e não quiseram fazer esse processo”, comparou.

Na avaliação da escritora Rosa Maria Muraro, a grande autonomia das mulheres veio com a pílula anticoncepcional e a pílula do dia seguinte. “Com isso, a mulher, pela primeira vez em dois mil anos, desliga a sexualidade da maternidade. Este foi o grande avanço que permitiu a autonomia, o estudo e o controle do corpo. O resto é secundário”, afirmou ao IHU.

Mas será que a mulher contemporânea alcançou a sua autonomia? – indaga a teóloga Fernanda Lemos. O problema, responde ela, é que ao falar da “mulher contemporânea” dá-se esta caracterização a todas as mulheres, sejam elas indígenas, asiáticas, brancas, latino-americanas, européias, afro-descedentes, negras, empobrecidas, ricas, empregadas, desempregadas, casadas, solteiras. “Não existe apenas um modelo de mulher contemporânea, existem inúmeros, cada um com sua história sociocultural”, enfatizou.

Na avaliação de Fernanda Lemos, não ocorreu ainda no mercado capitalista, que absorveu a força produtiva feminina a um custo menor do que é pago aos homens, uma mudança estrutural significativa nas relações de gênero, “pois a violência simbólica ainda é um dado presente em todos os setores sociais, bem como a materialização dessa violência, que culmina inevitavelmente na agressão física”.

O movimento feminista, disse, foi fundamental para as mulheres perceberem que elas poderiam ser sujeitas de sua própria história. Para Gebara, a grande força mobilizadora das mulheres é o sofrimento no qual elas vivem.

“A força que sustenta as mulheres é a dor coletiva, é a solidariedade coletiva na mesma dor e a esperança coletiva de tentar vencer esses sofrimentos, que não são abstratos, são sofrimentos concretos”, destacou.

Na análise do professor Bloc Boris, enquanto persistirem perspectivas sexistas unilaterais que subdividam as atividades humanas e as relações sociais de gênero em atividades masculinas ou femininas, “a construção da subjetividade masculina permanecerá confusa e a eventual reação violenta dos homens diante das mudanças pessoais e socioculturais continuará sendo um inquietante elemento de desestruturação social”.

Tratar da violência contra a mulher é tratar da violência do homem contra o homem, salientou Rose Marie Muraro. Na percepção da escritora, o mundo vai ter que ser solidário “na marra” para vencer o inimigo comum, que é o aquecimento global, a falta de água que vem da ganância dos mais fortes, para ver se é possível reverter esse processo.

Fonte: ALC