O papa Bento 16 não é um especialista no Islã, mas manifesta uma “sede” verdadeira por compreender a religião e manter um diálogo sincero com seus seguidores, disse um filósofo muçulmano que conversou com o pontífice recentemente.

Mustapha Cherif, um ex-ministro da educação e ex-embaixador da Argélia, afirmou que o papa havia mostrado, durante o encontro realizado no sábado, no Vaticano, que desejava compreender a forma como os muçulmanos viam a jihad e o papel da razão na fé.

O papa, que provocou manifestações de muçulmanos em setembro ao dizer indiretamente, durante um pronunciamento, que o Islã era violento e irracional, também desejava explorar formas de as duas religiões trabalharem juntas.

Bento 16 deve visitar, no final deste mês, a Turquia, um país de maioria muçulmana.

“Ele é um grande teólogo, mas não é um especialista no Islã”, afirmou Cherif, o primeiro intelectual muçulmano a ser recebido pelo pontífice desde que este foi eleito para comandar a Igreja Católica, em abril de 2005.

“O que me deixou comovido foi a sede dele por conhecimento”, disse o filósofo, na noite de segunda-feira, em Paris.

“Ele é um homem de diálogo”, disse à Reuters Cherif, um antigo ativista pelo diálgo entre cristãos e muçulmanos na França.

Intelectuais muçulmanos criticaram o pronunciamento feito por Bento 16 em Regensburg (Alemanha) porque, segundo argumentaram, as palavras dele provocariam falsas conclusões baseadas em livros sobre o Islã escritos por cristãos.

Apesar de vários cristãos terem elaborado livros importantes a respeito do islamismo, nada poderia substituir o ato de conversar sobre a religião com um muçulmano crente, disse Cherif.

“Ele precisa de alguém que explique a religião, para ele, com respeito. E é isso que eu fiz”, afirmou.

Jihad e Santo Agostinho

Cherif disse ter contado a Bento 16 que o termo jihad, costumeiramente traduzido no Ocidente como guerra santa, era na verdade uma referência à guerra justa com regras para o combate e esforços para proteger os não-combatentes.

“Essa jihad é a guerra justa segundo descrita por Santo Agostinho” afirmou, referindo-se ao teólogo cristão do século 5. O doutorado em teologia de Bento 16 versa sobre Santo Agostinho.

“Ele ficou surpreso com essa informação e disse que ele deveria ter sabido disso antes”, afirmou o filósofo, que pediu para se reunir com Bento 16 antes do pronunciamento de Regensburg. “Ele não conhecia essas nuances.”

Durante a conversa de meia hora, realizada em francês, Cherif disse que também rebateu a noção de que o islamismo havia se espalhado pela força das armas e que não valorizaria a razão –dois dos pontos citados por Bento 16 em Regensburg.

Notando que o papa tinha, mais tarde, lamentado o fato de ter dado a impressão de que havia criticado o Islã, Cherif afirmou: “Tudo o que queremos é que ele compreenda e que não repita o que disse.”

“Eu deixo a polêmica aos polemistas. Eu aceito o debate e a prontidão dele para o diálogo. A maior parte dos muçulmanos deseja manter um diálogo respeitoso e rejeita os estigmas.”

Segundo Cherif, o diálogo poderia ajudar os cristãos e os muçulmanos a olharam para além dos recentes episódios de tensão a fim de perceberem que são aliados na luta contra a diminuição da fé e a expansão do ódio religioso.

“A falta de compreensão e o ódio cresceram nos 15 anos que se seguiram à primeira Guerra do Golfo”, afirmou. “Não devemos permitir que esses 15 anos nos façam esquecer dos 15 séculos de história em comum que temos.”

Fonte: Reuters