Atacada por sua própria família, uma muçulmana convertida ao cristianismo destaca a precária situação dos muçulmanos paquistaneses que decidem abandonar sua fé.

Sehar Muhammad Shafi, 24, fugiu de sua casa na cidade de Karachi com o marido e duas filhas, depois de ser atacada e estuprada por mudar de religião.

Com a ajuda do Centro para Assentamento e Ajuda Legal, o casal cristão foi acomodado em outra cidade. Porém, enquanto a família permanecer no Paquistão, será preciso esconder a verdade sobre a conversão de Sehar.

Ela é a quarta filha de um pregador muçulmano da metrópole de Karachi. Sua família pertence ao Ahle Sunnat wa-al Jimmat, um grupo muçulmano não-violento que se concentra na conversão de não-muçulmanos. Os membros desse grupo são instruídos a não dividir comida e utensílios de cozinha com os “pagãos”, considerados impuros.

O pai de Sehar ensinava aos membros de sua comunidade religiosa como fazer prosélitos. Quando era adolescente, Sehar sempre comparecia ao treinamento ministrado por seu pai de como converter não-muçulmanos.

“Não era normal para uma garota participar dessas aulas”, contou ao Compass a jovem senhora. “Mas eu era filha de um ‘evangelista’ e ansiava por trazer outras pessoas para minha fé.”

Em 1999, Sehar começou a trabalhar para o laboratório Glaxo Wellcome, onde ela se dedicou a converter um colega de trabalhado, o cristão chamado Naveed Paul. Naveed tinha interesse em apologética (ramo da teologia que trata da defesa do cristianismo e tenta provar sua veracidade) e envolveu Sehar em discussões religiosas, convidando-a para orar com ele.

Quatro anos depois, Sehar decidiu se tornar cristã, e um pastor a batizou em segredo. “Eu tinha compartilhado o islã com Naveed e queria convertê-lo, mas, em vez disso, entendi que minha vida era vazia sem Jesus”, disse Sehar.

Casamento secreto

A família de Sehar não foi informada de sua conversão, mas às vezes ela apanhava quando era pega cantando salmos. Certa vez, seus pais rasgaram uma Bíblia que ela estava lendo.

Em janeiro de 2004, Sehar e Naveed se casaram secretamente e romperam todos os laços com a família muçulmana dela. Depois do nascimento de sua filha, Angela Rose, em janeiro de 2005, Sehar entrou em contato com seus pais e disse a eles que tinha se casado com um cristão.

Um mês depois, em uma noite de domingo, uma multidão atacou a casa do casal. Sehar disse que ela e sua família escaparam por milagre, conseguindo fugir pela porta de trás do apartamento. A jovem cristã disse acreditar que sua família descobriu onde ela morava e organizou o ataque.

Acomodada em outro lugar de Karachi, a Sehar ligou para os pais de um telefone público e pediu que eles parassem de importuná-la. Depois de desligar, os pais dela ligaram de volta para o dono do local onde estava a cabine telefônica e contaram a ele que sua filha tinha se convertido ao cristianismo.

O homem, a quem Sehar só conhecia como Rana, seguiu a cristã até sua casa e então informou aos pais onde ela estava morando. Mais tarde, naquela mesma noite, enquanto Naveed saiu para checar seus e-mails em um cyber café, Rana invadiu a casa de Sehar.

Rana disse a Sehar que iria puni-la por cometer o “pecado imperdoável” de “apostasia” e estuprou-a sob a mira de um revólver.

“Eu fiquei aterrorizada”, disse a jovem senhora.

Quando Naveed voltou para casa, ele e sua família imediatamente fugiram, na tentativa de evitar outro ataque dos parentes de Sehar.

O casal inicialmente pediu abrigo para os familiares de Naveed e depois para um grupo de freiras. Os parentes de Naveed pediram ao casal que partisse, temendo que eles também fossem visados por hospedar uma convertida.

Naveed e Sehar tentaram deixar o país, mas tiveram o visto negado.

Em abril passado, Sehar e Naveed, com as filhas Angela Rose, de 18 meses, e Magdalene, de 6 meses, fugiram para outra cidade do Paquistão, onde eles estão tentando começar uma nova vida. Mas Sehar disse ao Compass que sua família continua a viver com medo de ser descoberta.

“Meu marido deseja abrir um comércio”, ela comentou. “Mas eu não quero que ele fique exposto, em um lugar em que ele seja conhecido”.

Embora o retorno ao islã pareça resolver muitos dos problemas de Sehar, a mulher cristã disse que deixar sua nova fé não é uma opção.

“Trocar de religião não é uma brincadeira”, ela disse. “Nós nos apaixonamos por Jesus, então, como poderíamos traí-lo?”

Orientação religiosa do Estado

Embora as leis no Paquistão não tratem como crime a conversão do islã para outra religião, aqueles que deixam a fé muçulmana são, com freqüência, perturbados pela polícia e pelos parentes.

Os muçulmanos paquistaneses normalmente cortam todos os laços com o membro da família que se converta para outra religião. Os “apóstatas” – aqueles que renunciam ao islã – podem experimentar dificuldades de encontrar um emprego e podem até ser torturados e mortos nas mãos de extremistas.

Para o veterano paquistanês ativista de direitos humanos I.A. Rehman, muitas violações da liberdade religiosa no país resultam da orientação religiosa do Estado.

Depois de assumir o poder em 1977, o general Zia Ul-Haq baseou o sistema legal do Paquistão na lei islâmica.

De acordo com Rehman, diretor da Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, muitos muçulmanos paquistaneses vêem o abandono do islã – “apostasia” – como uma forma de blasfêmia, um crime digno tanto da prisão perpétua como da pena de morte sob a lei paquistanesa.

Assim, embora a lei paquistanesa não proíba a conversão do islã para outra religião, de fato “trocar de religião não é um direito constitucional”, afirma Rehman. “Todo não-muçulmano é livre para trocar de religião, mas, por outro lado, um muçulmano não pode deixar sua fé e se dedicar a outra.”

Durante o recente debate em torno do julgamento de Abdul Rahman, um muçulmano convertido ao cristianismo no Afeganistão, os clérigos paquistaneses reforçaram sua postura de que os “apóstatas” sejam punidos com a morte.

“O mufti Munib ur Rehman, uma autoridade clerical paquistanesa, avisou que ‘se o Estado é verdadeiramente islâmico’ ele deve matar o apóstata”, publicou em editorial do dia 26 de março o jornal paquistanês “Daily Times”.

Fonte: Portas Abertas