Mulheres de todo o Brasil fizeram na tarde desta sexta-feira, 26 de setembro, uma caminhada pelas ruas do centro de São Paulo em defesa da legalização do aborto.

Vestindo roupas em tom de lilás – cor do movimento feminista -, as manifestantes gritaram palavras de ordem como “legalização do aborto é direito ao nosso corpo”. Ao final, elas entregaram um manifesto redigido por mais de 500 associações de todo o País.

“A mulher tem o direito de decidir o que quer, ninguém tem que impor nada”, diz a assessora sindical Rita Pinheiro, que fez aborto há mais de 20 anos. Para ela, a proibição do aborto estimula toda uma cadeia de clínicas ilegais. “Eu fui na casa de uma enfermeira e paguei muito caro. A lei pune somente a mulher, mas se ela espera um filho, como foi que engravidou? Os homens também devem ser responsabilizados.” Se o aborto fosse legalizado, acredita Rita, essas clínicas desapareceriam.

O estudante de enfermagem João Paulo Soares Nascimento também saiu de casa para protestar a favor da legalização do aborto. “Já presenciei mulheres chegando com hemorragia no hospital onde eu faço estágio. A causa da legalização é justa. Errado é fechar os olhos para o problema”, opina.

O professor universitário Francisco Nunes foi ao centro da capital paulista junto com a filha, a estudante de artes cênicas Alice Nunes, para participar do protesto. “A proibição tem um efeito contrário porque quem sofre com isso são as mulheres pobres, que se submetem a processos precários. As ricas pagam uma boa clínica”, disse. De acordo com ele, a legislação atual, que proíbe a interrupção da gestação, é “imposição da sociedade machista”. “Se minha filha decidisse abortar, eu a apoiaria.”

Para a assistente social Thatiane Coghi, que também esteve na manifestação, legalizar o aborto é uma demonstração de democracia. “Não acho democrático negarem um direito que é da mulher.”

“Uma legislação contrária ao aborto não significa que não haja democracia. Democracia é a vontade da maioria com o respeito à minoria”, explica Celso Campilongo, professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e Universidade de São Paulo (USP). “A democracia pode ser entendida como a maxização da liberdade individual, onde cada um escolhe o que quer, como o respeito ao pensamento diverso.”

Já o gestor de relações institucionais da Pastoral da Criança, Clóvis Boufleur, diz que o aborto é um “atentado contra à vida”. “A legalização do aborto não garante que a mortalidade de mulheres gestantes diminuirá.”

Para a presidente do Movimento Nacional em Defesa da Vida – Brasil Sem Aborto -, Lenise Garcia, o embrião não faz parte do corpo feminino. “A mulher tem direito ao corpo dela, sim, mas o bebê não faz parte dela, é outro indíviduo e que merece ter seus direitos assegurados. Por isso, consideramos o aborto um crime”, afirma.

O juíz Aloísio Pereira dos Santos, da 2ª Vara do Tribunal do Júri do Mato Grosso do Sul, é responsável por um processo que envolve uma médica, três enfermeiras e uma psicóloga acusadas de praticar aborto. “Enquanto a lei considerar o aborto um crime, eu vou aplicar a lei.”

Fonte: Agência Brasil