Enquanto músicos seculares levam multidões aos seus shows, no segmento evangélico a produção ainda está engatinhando. Somente alguns cantores, como João Alexandre (foto) conseguiram alguma visibilidade. Mas com vendagens pouco interessantes para as grandes gravadoras.

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.” Não é preciso mais do que essas nove palavras para que você — e muitos estrangeiros — consigam identificar de que música estamos falando. “Garota de Ipanema”, composta por Vinícius de Morais e Tom Jobim, se tornou marca registrada do Brasil, assim como o futebol. Ela também foi um das garotas-propaganda da Música Popular Brasileira (MPB) no exterior. A verdade é que essa mistura de ritmos, como samba e jazz, tem a cara do brasileiro. Mas não do evangélico brasileiro. Enquanto músicos seculares como Caetano Veloso, Milton Nascimento e João Gilberto levam multidões aos seus shows, no segmento evangélico a produção ainda está engatinhando. Somente alguns cantores, como João Alexandre, Jorge Camargo e Nelson Bomilcar conseguiram alguma visibilidade. Mas com vendagens pouco interessantes para as grandes gravadoras.

Em uma pesquisa realizada com as principais gravadoras cristãs, apenas a MK Music e a VPC Produção e Distribuição mostraram investimentos recentes na categoria. A tentativa da MK de lançar um álbum com tempero cristão foi no mês de outubro de 2006 com Tempero do mundo e amigos. A idéia era reunir diversos estilos musicais tupiniquins — samba, samba-de-roda, pagode, forró e sertanejo, entre outros — interpretados por vozes famosas do casting da gravadora como Fernanda Brum, Aline Barros, Marina de Oliveira , Alda Célia e Eyshila. Já a contribuição da VPC Produção e Distribuição à MPB cristã é antiga. Braço da missão Vencedores Por Cristo, a VPC foi um dos primeiros ministérios de adoração no Brasil criado no êxtase da bossa nova e do samba.

Hoje, 60% do catálogo da gravadora segue fiel ao estilo MPB. No entanto, isso representa somente 30% do faturamento. “É esquisito, mas não posso negar o fato que no início dos anos 1990 a igreja brasileira voltou a ter forte influência do exterior”, diz o diretor da VPC Uassyr Verotti. Segundo ele, até então as vendas nesse segmento eram excelentes. “A influência recebida, somada a opção pelo mais simples de tocar faz as pessoas e ministros de louvor optar por estilos mais simples”, explica.

No entanto, o diretor aponta outros problemas que impedem o ressurgimento da MPB nas paradas de sucesso. “Alguns cristãos acham que MPB é ultrapassado, outros focam em produtos mais comerciais e nem fazem questão de conhecer ou saber das novidades. Ainda há aqueles que estranham o estilo por identificar os ritmos com o ‘meio secular’ e alguns simplesmente não gostam”, lamenta.

Doce desconhecido

Dentre os problemas enfrentados pelo estilo, um é unanimidade entre gravadoras, produtores e músicos: a falta de divulgação. “Só podemos apreciar o que conhecemos de fato e como conhecer se não há divulgação séria e comprometida da música brasileira”, protesta o cantor e compositor João Alexandre. Com 12 álbuns lançados — somente dois por gravadoras —, João Alexandre faz parte de um grupo seleto de músicos de MPB que conseguiram certa notoriedade.

A canção “Essência de Deus”, cuja letra foi tirada do capítulo 13 de Coríntios, se tornou a canção tema de centenas de casamentos. “Sempre tendo a caminhar pelo lado brasileiro da coisa, procurando influências mais modernas para gravar minhas canções, sem esquecer da raiz”, explica o músico que se confessa influenciado por toda vertente da música popular brasileira. “Procuro ouvir de tudo, só tenho preconceito contra música mal feita.” Com essa dedicação, João Alexandre tenta introduzir no meio evangélico instrumentos e alguns dos 360 ritmos brasileiros, a maior parte deles desconhecidos. “Como músico brasileiro, sonho com o dia em que adoraremos a Deus ao som de um maracatu recheado de chorinho com a cobertura de samba.”

Mesmo sonho cultivado por Jorge Camargo, que possui no currículo 150 canções gravadas e 300 compostas, mas que nem sempre levam o crédito no retroprojetor das igrejas. Entre seus principais sucessos estão “Muitos Virão Te Louvar” (De todas as tribos), “Por Isso Reina” (O Rei da Glória), “Teus Altares” (Salmo 84) e “Ajuntamento”. “Falta interesse das gravadoras em divulgar música de boa qualidade. Logo, muitos trabalhos de excelente qualidade são simplesmente ignorados por parte do público.”

Longe de uma atitude ufanista, Camargo não acredita que uma música com influências brasileiras tenha qualquer alcance mágico sobre o momento da adoração. “No entanto, o mercantilismo religioso destrói qualquer ensejo de espiritualidade sã”, critica.

Novatos

Há menos tempo na estrada, a cantora Shirley Espíndola, que tem seus CD’s no catálogo da VPC Produção e Distribuição, lançou recentemente o álbum “Caminho das águas”, uma seleção primorosa de músicas brasileiras com letras cristãs. Com uma voz afinada e totalmente encaixada para o estilo, Shirley foge do clichê da qual a maior parte da comunidade evangélica está acostumada. “O brasileiro aprende a não valorizar a sua própria cultura”, diz. No entanto, a cantora lembra que outros povos, como os europeus, asiáticos e até norte-americanos, sabem valorizar e reconhecer o que é bom, o que é de qualidade. “Veja ao absurdo que chegamos”, desabafa. O grupo de samba No Compasso, formado por cavaquinho, rebolo, violão, percussão, pandeiro, contra-baixo e bateria, também procura seu lugar ao sol na produção musical brasileira. Já tocaram em todo tipo de lugar: eventos, igrejas, presídios e casas de recuperação. “Já enfrentamos bastante preconceito, mas a situação hoje é melhor”, garante o vocalista do grupo, Ricardo Valério. “Quando as pessoas ouvem a música, o preconceito cai por terra.”

Quem é quem no MPB gospel

João Alexandre
Músico, intérprete, compositor e arranjador. Com 12 álbuns lançados, João Alexandre faz parte de um grupo seleto de músicos de MPB que conseguiram certa notoriedade. Sua canção “Essência de Deus”, cuja letra foi tirada do capítulo 13 de Coríntios, se tornou a canção tema de centenas de casamentos.

Jorge Camargo
Possui no currículo 150 canções gravadas e 300 compostas, mas que nem sempre levam o crédito no retroprojetor das igrejas. Entre seus principais sucessos estão “Muitos Virão Te Louvar” (De todas as tribos), “Por Isso Reina” (O Rei da Glória), “Teus Altares” (Salmo 84) e “Ajuntamento”.

Vencedores Por Cristo
Fruto da missão Vencedores Por Cristo, o grupo musical ficou famoso por levar letras com conteúdo bíblico, ritmos diversos, uma comunicação direta com o jovem das décadas de 1970 e 1980. Suas canções influenciaram as músicas cantadas nas igrejas atualmente. O uso de instrumentos modernos foi uma de suas principais marcas.

Nelson Bomilcar
É pastor, compositor e músico. Tem trabalhado na adoração e música cristã nos últimos 30 anos, ministrando e pastoreando músicos, tendo produzido inúmeros cantores e grupos no Brasil. Participou de grupos como Vencedores Por Cristo e Semente.

Fonte: Revista Consumidor Cristão