Padre responsabiliza Iphan por risco de desabamento do teto do templo. Órgão rebate e diz que culpa é da igreja.

A missa de Páscoa do último domingo (24) teve um tom diferente na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, em Salvador. Em meio ao sermão, o padre Adílton Lopes, pároco da igreja, pediu aos fiéis orações para que o teto do templo do século 18 não venha abaixo.

“Pedimos a oração de vocês para que o governo federal, o Iphan (órgão federal de patrimônio), o Ipac (órgão estadual), todos os organismos que possam liberar os recursos possam ver essa basílica com outros olhos. Realmente tenho muito medo daquele teto cair”, afirmou o padre na ocasião, segundo relato de funcionários da irmandade responsável pela igreja.

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia é um dos principais templos católicos da capital baiana. Localizada a poucos metros do elevador Lacerda, cartão postal da cidade, possui no teto um painel barroco de 633 metros quadrados de José Joaquim da Rocha (1737-1807), considerado o fundador da pintura baiana.

A situação do teto preocupa o padre porque há deslocamento entre as tábuas. “Estamos tentando que haja alguma coisa (intervenção), isso já foi falado e ‘refalado’ com o Iphan”, afirmou Walter Moura, relações públicas da Irmandade do Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora Conceição da Praia. O padre Adílton não respondeu aos contatos da reportagem.

No segundo semestre do ano passado, um casarão vizinho ao templo, também pertencente à irmandade, desabou parcialmente. Os escombros estão escorados e continuam sob risco de ceder e atingir a igreja. Tombada como patrimônio histórico nacional em 1938, a basílica teve a última reforma bancada pelo Iphan em 1971. Recursos privados patrocinaram nova intervenção 20 anos depois.

[b]Igreja e Iphan trocam acusações
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O sermão do padre motivou reação do Iphan na Bahia, que apontou “inércia” da irmandade na conservação do imóvel. Em nota, o órgão afirmou que o tombamento “não substitui a responsabilidade dos proprietários”.

“A irmandade nunca apresentou projeto às diversas linhas de financiamento existentes que contemplasse intervenções na igreja ou em seus bens móveis e integrados”, disse Carlos Amorim, superintendente do Iphan no Estado.

O órgão de patrimônio sugeriu ainda que a paróquia use dinheiro arrecadado com celebrações para bancar a reforma. “A despeito dos valores cobrados pelos serviços religiosos de batizados e casamentos, permanece a inércia da irmandade, sem que haja a devida comprovação de sua hipossuficiência financeira”, disse. “Hipossuficiência financeira” significa falta de dinheiro.

A irmandade, por meio do relações públicas Walter Moura, negou ter recursos para reformar o templo. Afirmou ainda já ter apresentado projetos para o imóvel, como um plano para o casarão vizinho que ruiu. “Só que, até hoje, nada”, disse.

Em mais um capítulo da troca de farpas, o Iphan afirmou que, “independentemente da postura errática da irmandade”, irá investir R$ 800 mil em caráter emergencial na cobertura e restauração do forro da igreja. Informou, contudo, que os valores gastos “serão cobrados judicialmente para que a irmandade possa ressarcir os cofres públicos”.

[b]Fonte: Último Segundo[/b]