No fim de 2013, o arcebispo católico das cidades sírias de Homs, Hama e Yabroud, dom Jean-Abdo Arbach, recebeu em sua casa um mensageiro que trazia uma ameaça: um líder cristão estava prestes a ser sequestrado por radicais do Estado Islâmico (EI) em Yabroud, e era bom que ele tomasse cuidado.

[img align=left width=300]http://f.i.uol.com.br/folha/mundo/images/15344293.jpeg[/img]”Na mesma hora, juntei minhas coisas e deixei a cidade rumo a Homs, sem avisar ninguém”, contou à Folha dom Jean-Abdo, durante breve visita ao Brasil.

Poucas semanas depois, em janeiro de 2014, o arcebispo soube que um de seus irmãos –também católico, mas não religioso– fora sequestrado. Só foi libertado após o pagamento de um resgate pela família.

O caso é um dos vários que o sírio nascido em Yabroud tem para contar sobre a perseguição que se tornou rotina para a minoria cristã desde que facções extremistas islâmicas, em especial o EI, começaram a ganhar força na guerra civil que assola a Síria há mais de quatro anos.

No início deste ano, a igreja católica Greco-Melquita na Síria –à qual dom Jean-Abdo pertence e que também responde ao Vaticano– divulgou que, só em 2014, mais de mil cristãos tinham sido mortos no país e dezenas de igrejas e centros cristãos, destruídos.

Os cristãos representam cerca de 10% da população e hoje se concentram especialmente em cidades no oeste da Síria, como Homs, Hama, Maaloula e Yabroud.

Em outras mais ao norte, com forte ação do EI, como Raqqa e Aleppo, os cristãos se dispersaram, foram forçados a se converter ao islamismo ou foram mortos.

“Quando os terroristas conquistam um território, colocam três condições para os cristãos: o pagamento de um imposto, a ‘jizya’, a conversão ou o martírio”, diz dom Jean-Abdo. “Não há vida cristã possível em locais dominados pelo EI.”

O arcebispo, que retornou à Síria em 2013, após servir na Argentina, conta que, ao chegar, já não conseguiu tomar posse em sua diocese por causa da ocupação de parte da cidade pelos extremistas.

“Quando eles ainda não tinham todo o controle da cidade, nos reuníamos para rezar nas igrejas, mesmo após terem sido destruídas”, lembra. “Mas, quando o EI invadiu de vez, as pessoas não tinham mais nem coragem de abrir as portas e janelas.”

Segundo o religioso, os diferentes grupos extremistas que atuam na Síria têm formas de atuação distinta contra suas vítimas.

“Há os que usam a execução imediata. Outros preferem torturar as famílias com telefonemas e ameaças. Mas o mais cruel é quando matam os pais na frente dos filhos”, diz, lembrando o caso de um rapaz de sua comunidade que foi obrigado a ver a mãe ser decapitada pelos radicais.

Os cristãos começaram a retornar a suas cidades, entre elas Yabroud, após sua retomada pelas forças do regime de Bashar al-Assad, no início de 2014.

Iniciaram então o trabalho de reconstrução das igrejas e de escolas cristãs, com a ajuda de doações de organizações internacionais. “Os extremistas quebraram todas as cruzes, cortaram a cabeça de todos os santos.”

[b]RUSSOS
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Para dom Jean-Abdo, não há diálogo possível com os terroristas –como chama todos os grupos radicais, não só o EI. “O diálogo deve ser com os países grandes que mandam ajuda financeira ao Estado Islâmico”, diz, sem querer citá-los.

Ele, contudo, elogia a ação militar da Rússia, aliada de Assad, contra os grupos rebeldes. “A intervenção russa vai aumentar um pouco a guerra, porém vai trazer mais depressa a paz”, diz, ressaltando que essa é uma opinião particular sua.

Como toda a minoria cristã, dom Jean-Abdo defende a a permanência de Assad –que também pertence a uma minoria, a alauita, e sempre protegeu esses grupos no país.

“Se o Assad sair hoje, quem vem? O que vai acontecer na Síria? O que ocorreu na Líbia?”, diz, referindo-se ao caos político gerado no país africano após a queda do regime de Muammar Gaddafi. “Além disso, a Síria é um país independente, e o presidente foi eleito pelo povo.”

O religioso rechaça as acusações de violações de direitos humanos e de crimes de guerra cometidas pelo regime. “Há cerca de 80 países combatendo hoje dentro da Síria. Assad será o culpado [pelas mortes]?”

Em sua fala, o líder católico demonstra que a incerteza dos cristãos sobre o futuro reforça ainda mais o apoio ao atual governo.

“Não dá para adivinhar quem virá e como vai agir. Se for como o que ocorreu inicialmente no Egito, com um presidente ligado à Irmandade Muçulmana, iria piorar a situação [dos cristãos] sem dúvida.”

No Brasil, dom Jean-Abdo celebrou uma missa na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, no último domingo (6). Pediu aos brasileiros que rezassem pelos sírios.

[b]Fonte: Jornal Floripa[/b]