Ao completar, nesta terça-feira, 13 de maio, 120 anos da abolição da escravatura no Brasil, organizações do movimento negro afirmam, em documento encaminhado às igrejas históricas, que esse é um processo inacabado.

As igrejas, diz o manifesto, devem pedir perdão ao povo negro por sua participação e cumplicidade na escravidão e silêncio diante do racismo.

“A população negra está na margem da riqueza produzida pela sociedade brasileira, situação reforçada pelas igrejas na cumplicidade e omissão perante a escravidão e anos de racismo no Brasil”, destaca o texto. Vai chegar o momento em que as igrejas históricas vão ter que, necessariamente, tratar desse tema. “É um processo, e o movimento negro vai exigir um pedido de desculpas”, disse à ALC o presidente da Sociedade Cultural Missões Quilombo, Hernani Francisco da Silva.

O pedido de perdão deve vir acompanhado de ações afirmativas e reparações. No campo teológico, as organizações que assinam o documento propõem uma hermenêutica bíblica negra a partir da realidade do povo negro “e não como foi construída historicamente a partir de uma ideologia branca e masculina, que considera como único ponto de partida para a celebração os pressupostos ocidentais”, ignorando as expressões corporais, a mística e as tradições dos que vieram da África.

Para a superação do racismo o movimento negro propõe um programa de ação das igrejas na promoção do diálogo inter-religioso, e o acesso dos afro-descendentes nos seminários e cursos teológicos, a criação e fortalecimento das pastorais e dos ministérios de combate ao racismo. Pede, ainda, uma maior participação de afro-descendentes nos cargos diretivos das igrejas, ampliando o número de pastores, pastoras, bispos e bispas.

Não é a primeira vez que organizações do movimento negro vêm a público com a proposta de pedido de perdão dirigida às igrejas. Em 2006, a presidência da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) respondeu ao presidente da Sociedade Cultural Missões Quilombo, Hernani Francisco da Silva, que estaria disposta a avaliar, em conjunto com igrejas-irmãs, a possibilidade de uma declaração conjunta com pedido de perdão ao povo negro.

Na mesma resposta, o pastor presidente Walter Altmann informou que a IECLB já se pronunciara sobre o assunto, através de dois textos: “Deus não é racista” e a declaração da IECLB alusiva aos 180 anos de suas primeiras comunidades.

O documento das organizações negras deste ano foi enviado para as igrejas Anglicana, Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Unida, Presbiteriana Independente, Luterana, Evangélica de Confissão Luterana, Metodista e Batista. Assinam o documento oito organizações negras, entre elas as Alianças de Negros e Negras Evangélicas do Brasil e o Fórum de Lideranças Negras Evangélicas.

Também receberam o documento o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), o Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).

Fonte: ALC