O lucrativo mercado de falsos casamentos no religioso, batizados e funerais anda de vento em popa no México, onde 84% dos habitantes se declaram católicos.

O arcebispo da Cidade do México manifestou publicamente sua indignação sobre o assunto: “Há homens se fazendo passar por padres sem terem sido ordenados pela Igreja”, denunciou seu assessor de comunicação, o padre José de Jesus Aguilar, ao jornal “El Universal”, no domingo (24). “Missas e celebrações em lugares especiais”, “Serviços religiosos em domicílio conforme o rito católico”, “Primeira-comunhão em uma capela privada ou um jardim”: anúncios como esses são publicados na internet por paróquias não reconhecidas pela Igreja.

Uma reportagem realizada pelo “El Universal” cita um documento não oficial da Conferência Episcopal do México (CEM), que estima em mais de 10 mil o número de falsos padres nos quatro cantos do país. “Essa cifra provavelmente é exagerada, pois o México possui 22 mil eclesiásticos verdadeiros”, observa o padre Manuel Corral, porta-voz da CEM. “Mas o fenômeno vem assumindo uma dimensão cada vez maior junto aos fiéis que querem cerimônias originais fora dos locais de culto. Uma prática proibida pelo clero.”

As tarifas dos charlatães da religião oscilariam entre 500 e 6 mil pesos (cerca de R$ 70 e R$ 808), dependendo do local e das prestações. “Essa fraude equivale à usurpação de funções ou ao exercício de uma profissão sem título”, condena o padre Manuel Corral, que ressalta que o ministério do culto envolve anos de formação dentro de instituições educacionais da Igreja. Esse delito, punido pelas leis dos 32 Estados federados mexicanos, é passível de um a seis anos de prisão e milhares de pesos em multa.

Mas a ganância motiva os vigaristas. Para Virgilio Bravo, cientista político no Instituto Tecnológico de Monterrey, “a crise econômica incitou mais indivíduos a ousarem essa impostura lucrativa, sem contar a perda dos valores religiosos entre as novas gerações urbanas”.

“Os mexicanos se dizem católicos, mas somente 20% são praticantes”, explica Bravo. “O clero não soube se adaptar à modernização de uma sociedade religiosa por tradição, mas laica perante a lei, desde que a Igreja foi separada do Estado em 1859.”

[b]Prejuízo[/b]

A extensão desses embustes representa um grande prejuízo para a Igreja, que entrou com uma série de ações junto à procuradoria. Sete mandados de prisão teriam sido emitidos no Estado do México, onde o diretor da Basílica de Los Remedios, em Naucalpan, identificou 32 impostores, cujos nomes foram divulgados para as outras dioceses. Essas mesmas denúncias públicas foram feitas no boletim online do arcebispado da Cidade do México, que publicou, juntamente com fotos, a identidade de oito falsos padres e de um santuário de mentira.

“Nossa luta depende sobretudo da comunicação junto aos fiéis crédulos, porque são raras as prisões e as condenações para um delito que a Justiça muitas vezes não considera importante”, lamenta o padre Manuel Corral.

[b]Fonte: Le Monde[/b]