A possibilidade de “reprogramar” células de pele humana para conseguir propriedades características de células-tronco embrionárias foi recebida com satisfação por aqueles que afirmam que há problemas éticos na destruição de embriões e suavizou um acalorado debate político nos Estados Unidos.

Os cientistas esperam agora que com a descoberta possam receber fundos públicos para determinadas pesquisas de células-tronco.

A nova descoberta conseguiu romper a barreira ética e moral que regeu a sociedade americana durante anos.

Em agosto de 2001, em uma decisão aplaudida pelos setores mais conservadores do país, o presidente dos Estados Unidos, George W.

Bush, foi contra a facilitação de fundos federais para a pesquisa de células-tronco embrionárias, afirmando que a vida começa com o embrião.

Nos últimos seis anos, Bush se manteve firme com seus valores e crenças e vetou em duas ocasiões projetos de lei que facilitavam a pesquisa de células-tronco, argumentando que a “destruição da vida humana em prol de seu salvamento não é ética”.

O presidente americano sempre disse que existem outras possibilidades de pesquisa que não ultrapassam nenhuma fronteira moral e ética.

Ele assinou um decreto que potencializa a pesquisa de células pluripotentes – que tem a capacidade de se transformar em qualquer órgão -, que não implica na destruição de embriões.

Os críticos foram céticos com a convicção de Bush de que pode conseguir avanços na pesquisa de células-tronco sem destruir embriões.

Mas agora as duas equipes internacionais de cientistas – dirigidas pela pesquisadora chinesa Junying Yu e pelo americano James Thomson – parecem ter conseguido exatamente o que o presidente americano queria.

Eles conseguiram alterar as células fibroblasto, que compõem o tecido conectivo do corpo, ao introduzir quatro genes. Depois, elas foram induzidas para um estado pluripotente.

Bush reagiu logo e seus assessores disseram que o trabalho de Junying e Thomson representa exatamente o que o líder americano queria. “O presidente está muito satisfeito”, afirmou a porta-voz da Casa Branca, Dana Perino.

A Casa Branca esteve o tempo todo a par dos avanços que a equipe de Thomson conseguiu em Wisconsin, pois recebeu relatórios pontuais do diretor dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), Elias A. Zerhouni.

Segundo o jornal “Washington Post”, uma das equipes recebeu fundos.

A Igreja também esqueceu de suas restrições à pesquisa de células-tronco e ficou satisfeita com os resultados do trabalho de Junying e Thomson.

O cardeal Justin Rigali, presidente do Comitê Atividades Pró-Vida da Conferência Episcopal Católica, agradeceu aos cientistas, “que assumiram o desafio de encontrar formas moralmente aceitáveis de realizar a pesquisa de células-tronco”.

O ex-governador de Massachusetts e pré-candidato republicano à Presidência Mitt Romney afirmou que a conquista “confirma que os avanços científicos e os princípios éticos não são idéias contraditórias”.

Diante de tanta euforia, a comunidade científica, que classifica a descoberta de “marco”, advertiu a Bush que é cedo para comemorar, já que ainda é preciso realizar mais pesquisas para verificar que o novo procedimento cria células com as mesmas características que as células-tronco embrionárias.

Alguns cientistas, entre eles a própria Junying, afirmam que não é uma boa idéia abandonar as pesquisas em células-tronco embrionárias.

“Isto é só o início e devemos entender bem a semelhança destas células com as células-tronco embrionárias”, afirmou ontem Junying, em entrevista.

A descoberta colocou conservadores, liberais, críticos e partidários do Governo americano lado a lado no debate.

Fonte: EFE