Recém-eleito arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer diz que o crescimento evangélico é uma preocupação da Igreja Católica. “É uma preocupação. Eu não vou dizer a você que ficamos contentes quando vemos fiéis deixarem a Igreja”, disse o arcebispo.

D. Odilo Scherer é um dos maiores críticos das ações do governo. Defensor da política da Igreja Católica brasileira de dar prioridade aos mais pobres, o atual secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirma que um dos principais problemas do País hoje é o individualismo das pessoas e a fragilidade do Estado brasileiro, que não consegue cumprir suas funções. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ontem ao Estado.

O papa Bento XVI tem dito que a Igreja Católica é de todos e tem de cuidar de todos, não apenas do mais pobre. Existe alguma contradição entre essa postura do papa e o trabalho da Igreja brasileira, que tem como foco os mais pobres?

De maneira nenhuma. Se o papa diz que a Igreja é de todos, ele está afirmando que ela também é dos pobres. É de todos no sentido de que está aberta a todos que aderirem à Igreja, tem espaço para todos. Absolutamente normal a Igreja no Brasil se concentrar mais nos pobres, e o papa incentiva isso. Mas não significa que esquece ou é contra os outros. A gente convida todos a assumirem juntos essa atitude de opção pelos pobres no sentido de dar-lhes atenção privilegiada.

Recentemente, o papa disse que o segundo casamento era uma praga. A Igreja no Brasil trabalha muito com casais em segundo casamento. Essa afirmação muda alguma coisa no trabalho no Brasil?

Não muda nada. O papa também tem como habitual a atenção pastoral aos casais em segunda união, para ajudá-los a viverem da melhor forma dentro daquilo que é possível na Igreja. O fato de não poderem participar da comunhão eucarística não significa que estejam excluídos da vida da Igreja. Continuam com possibilidades de participação. Com isso a Igreja não quer dizer que não há problema. A Igreja mantém a idéia do casamento indissolúvel porque isso está no Evangelho, mas quer dar atenção especial às pessoas que se encontram nessa situação que não tem retorno para que possam participar da vida eclesial da melhor forma possível.

O crescimento das Igrejas evangélicas preocupa a Igreja Católica? A visita do papa em maio pode ajudar a reverter essa fuga de fiéis?

A visita do papa tem basicamente a função de confortar e confirmar a fé. A sua presença dá certeza ao caminho da Igreja. Se terá outros efeitos, esperamos que tenha, claro.

Mas existe essa preocupação com o crescimento evangélico?

É uma preocupação. Eu não vou dizer a você que ficamos contentes quando vemos fiéis deixarem a Igreja. Isso nos leva a refletir sobre os motivos por que ele estão indo para outras religiões. Os motivos são muitos. Têm a ver com a própria Igreja, talvez o nosso método não seja adequado, talvez seja a postura individual de pessoas que representam a Igreja. Mas há outros motivos também, de pessoas que não concordam com a Igreja. Nesse caso, ela não vai mudar sua doutrina porque alguma pessoa não aceita. Há pessoas que deixam a Igreja porque ela, por exemplo, não concorda com o divórcio, o aborto, o casamento homossexual. São fatos de natureza individual que fazem com que as pessoas não queiram mais ficar na Igreja. Mas existe algo mais importante por trás, que é a mudança cultural que está acontecendo. Dentro dessa mudança cultural é que as pessoas se ligam menos a uma Igreja, a uma instituição.

Que mudança cultural?

As pessoas estão muito mais centradas em uma atitude em busca de um benefício subjetivo próprio. Mudança cultural do gozo da vida. As pessoas querem viver a vida e têm as suas justificativas, claro. Ninguém quer viver para sofrer. Mas, de toda maneira, quando se fala no gozo da vida como maior valor, então se perdem outras dimensões. Hoje estamos em um ambiente cultural com o sujeito como centro e com pouca referência de todas as coisas, ou de uma orientação moral. Não quer mais que ninguém lhe diga o que é certo ou errado. Ele mesmo quer decidir. Existe, por isso também, outro elemento, a afirmação da liberdade, da autonomia. A pessoa só aceita tutela se for por repressão. Então, muitas vezes, a idéia que se tem é que tudo se pode desde que a polícia não veja. Isso é esquecer todo o parâmetro de comportamento ético e se colocar no centro das decisões, a instância última. Ora, isso tem valores positivos. A afirmação da liberdade é um valor. Mas quando se cai num extremo a ponto de não se aceitar nenhum elemento externo que interfira na minha liberdade, caímos no risco de esfacelamento da própria sociedade.

O senhor colocaria na conta dessa mudança cultural o crescimento dos movimentos pró-aborto?

Tem muito disso, certamente. Basta ver os argumentos que se colocam para justificar um aborto. Por exemplo, o da total autonomia da mulher nessa decisão: é a mulher que deve decidir sobre seu corpo. Mas o fato é que ali existe algo mais que seu corpo. O feto já não é corpo da mulher. A gravidez é um fato da mulher, mas o feto não é mais um fato apenas da mulher. Ali há necessidade de tutelar um bem que é a vida de outro sujeito que não pode ficar simplesmente sob a vontade absoluta da mãe. O discurso pela liberalização do aborto tem a ver claramente com essa mudança cultural de afirmação suprema da subjetividade.

E o crescimento da violência no País, também teria essa mudança cultural como razão?

A violência urbana tem a ver também com esse fenômeno cultural, mas é também conseqüência da fragilidade do Estado. Os esquemas de violência crescem onde inexiste uma adequada presença do Estado para tutelar a sociedade, garantir a segurança que todos têm direito. Mas o outro lado tem a ver também com essa cultura do cada um faz o que acha que deve fazer. Conseqüência da destruição da convivência social, dessa posição do “cada um decide” sem mais reparar num bem que vai além do meu bem, e esse bem é justamente a vida do outro.

O senhor acredita que o Estado brasileiro não está dando conta de reverter essa situação?

Acho que o Estado está tentando reverter isso, mas precisaria refletir se o método está sendo adequado, porque fazer isso construindo cadeias apenas não vai resolver. Ou apenas de uma forma repressiva. É preciso apostar na educação. Educação também para formar valores, referenciais na vida, educar pessoas para o sentido da honestidade, justiça, respeito, dignidade. O Estado querer assumir o monopólio da educação, também vamos no rumo errado, porque o Estado pode dar educação técnica, acadêmica. Mas a formação de pessoas o Estado não pode dar, porque não é papai nem mamãe. A educação tem de ser compartilhada com as instituições da sociedade. Se descuidarmos da família, onde a pessoa aprende a ser gente, nunca resolveremos o problema da educação. O problema da violência hoje tem muito a ver com a destruição da família e da desresponsabilização dos pais pela educação. São questões que o Estado precisa assumir para encarar de forma adequada os problemas que estamos tendo.

Quem é D. Odilo Scherer

É o atual secretário-geral da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB), cargo que ocupa desde 2003

É doutor pela Universidade Gregoriana e trabalhou na
Congregação para os Bispos, em Roma

Fonte: Estadão