As igrejas, de modo geral, acompanharam a evolução tecnológica das mídias e usam esse aparato para o anúncio da Boa Notícia do Evangelho. Mas as igrejas não refletiram, nem refletem, sobre a nova ecologia comunicacional que está em andamento e sobre o tipo de religião que emerge da mídia.

Esse fenômeno comunicacional aponta para a constituição de um novo ambiente da sociedade.

O alerta é do pró-reitor acadêmico da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), padre Pedro Gilberto Gomes, em entrevista que concedeu ao Instituto Humanitas (IHU), da instituição, falando a respeito do processo de midiatização da sociedade, objeto de seus estudos e pesquisas. “Estamos vivendo hoje uma mudança de época, um câmbio epocal, que levará à criação de um ‘bios midiático’ que tocará profundamente o tecido social”, vaticinou.

Em outro momento, em palestra para professores e alunos do Programa de Pós-Graduação e da Graduação da Unisinos, Gilberto Gomes enfatizou que muito mais do que uma tecnointeração, está surgindo um novo modo de ser no mundo, representado pela midiatização da sociedade. “O que a tecnocultura está ocasionando é uma mudança no modelo mental das pessoas”, disse.

A midiatização ora em curso coloca a humanidade numa outra galáxia, que supera a aldeia global, como a definiu o filósofo e educador canadense Herbert Marchall McLuhan. “Nós somos ‘imigrantes’ nessa nova galáxia, na qual temos que nos alfabetizar”, destacou na palestra para a Comunicação da Unisinos.

Se as igrejas se apropriaram dos dispositivos tecnológicos como extensões de sua voz, imagem e ação para a divulgação do evangelho, ela não acompanhou a reflexão sobre esse fenômeno que transcende os meros dispositivos tecnológicos. “A Igreja não se deu conta de que uma nova ambiência está surgindo e colocando-lhe questões cruciais nesse início de milênio”, admoestou, ousando afirmar que “a midiatização está, talvez, configurando a possibilidade da busca de uma visão unificada da sociedade”.

Para desenvolver essa hipótese, Pedro Gilberto recorreu a outro jesuíta, o pensador francês Teilhard de Chardin falecido em 1955, que via a história como um contínuo processo de unificação rumo à planetização da sociedade. A cibernética, dizia Chardin, estava criando um “sistema nervoso para a humanidade”, “uma membrana única, organizada, inteiriça sobre a terra”, “uma estupenda máquina pensante”, uma extensão do sistema nervoso do homem.

A midiatização, definiu Gilberto Gomes, é a reconfiguração de uma ecologia comunicacional, ou um bios midiático. “Torna-se – ousamos dizer, com tudo o que isso implica – um princípio, um modelo e uma atividade de operação de inteligibilidade social”, no qual a sociedade percebe e se percebe a partir do fenômeno da mídia, agora ampliado para além dos dispositivos tecnológicos tradicionais.

“Aventamos a hipótese de que a midiatização está para a história da humanidade assim como esteve – e está – a invenção da escrita”, comparou o professor de Comunicação, recordando que os dois processos significam um salto no hiper-espaço da evolução humana.

Fonte: ALC