“A última coisa em que os jovens estão pensando é a religião”, disse um egípcio de família conservadora.

Há uma geração, os pais de Ahmed Mitwalli eram islamitas nesse bairro ao longo do Nilo antes apelidado de República Islâmica de Imbaba. Mas seu filho não é, e suas convicções, que encontraram eco no caldeirão de frustrações de um dos bairros mais populosos do mundo, sugerem o motivo pelo qual a Irmandade Muçulmana não está liderando a nascente revolução do Egito.

“Pão, justiça social e liberdade”, disse o universitário recém-formado de 21 anos. “O que há de religioso nisso?”

A revolução do Egito está longe de decidida, e a Irmandade Muçulmana continua sendo a força de oposição mais popular e melhor organizada do país, pronta para desempenhar um papel crucial na transição e depois dela. Mas num bairro que já foi dominado pelos militantes islamistas, que declararam seu próprio Estado dentro de um Estado no início dos anos 90, os sentimentos aqui são mais notáveis por serem muito pouco influenciados pela religião. Seja nas reclamações sobre a força policial que mais parecia um exército de ocupação, no crescente ressentimento entre classes ou até nas demandas dos jovens por frivolidades, uma consciência cada vez maior vem se instalando, num sinal do que aguarda o restante do mundo árabe depois da queda do presidente Hosni Mubarak na sexta-feira.

Três vezes mais populoso que Manhattan, Imbaba é um exemplo de abandono do fervor religioso. Um pregador passional, ridicularizado por ser umpercursionista que se transformou em clérigo, impôs seu poder sobre as ruas de Imbaba durante anos até que o governo o expulsou junto com seus seguidores depois de um longo cerco em 1992. Com a generosidade norte-americana, o governo tentou colocar na linha uma cidade que ainda não era reconhecida em seus mapas. Segundo os relatos dos moradores, ele fracassou, eventualmente retirando-se em meio a um mar de ressentimento que nem a Irmandade Muçulmana nem ninguém mais conseguiu canalizar.

“A última coisa em que os jovens estão pensando é a religião”, disse Mitwalli, que esconde cigarros de sua família, em que todas as mulheres usam o véu mais conservador. “É a última coisa que aparece. Eles precisam de dinheiro, querem se casar, ter um carro, e não querem saber de mais nada. Eles elegerão quem quer que possa oferecer isso.”

Embora partes de Imbaba sejam mais ricas, a maior parte do local parece um o interior se fingindo de cidade, com prédios inacabados de tijolo vermelho de frente para mercados lotados nas ruas. Carrinhos de três rodas conhecidos como tuk-tuks, tocando a última música pop do astro egípcio que não envelhece Amr Diab, navegam por uma mistura de latas de lixo transbordando, manequins nas calçadas e araras de roupas na rua.

O governo de Mubarak há muito estigmatizou bairros como Imbaba como sendo um inferno de crime e perigo. Isso existe, embora a população exalte seu próprio senso de comunidade, onde as ruas se unem ao menor sinal de provocação. Quando a revolta devastou a economia, os vendedores baixaram os preços para ajudar as pessoas.
E em quase todas as conversas, os moradores, especialmente os jovens, descrevem sua situação em termos de “nós contra eles”.
“Não havia diálogo”, disse Walid Sabr, 29, que trabalha numa loja de sapatos. “Havia força e havia provocação. Diálogo com que? É impossível.”

Samih Ahmed, vendedor de rua, acrescentou: “isso não é a revolução de 25 de janeiro”, chamando a revolta por seu nome mais popular. “Esta é a revolução da dignidade.”

Todos no bairro tinham uma história para contar sobre funcionários públicos – uma propina de US$ 2 (R$ 3,32) para visitar um parente no hospital, uma multa de US$ 20 (R$ 33) cobrada por roubar eletricidade, um pagamento de US$ 10 (R$ 16) para um funcionário municipal para conseguir uma carteira de identidade. Sabr contou que foi preso por tentar relatar um acidente de trânsito. Ibrahim Mohamed reclamou que foi jogado na prisão depois que a polícia plantou haxixe nele. Umayma Mohamed, 23, carregando seu bebê de três meses, implorou por ajuda para soltar seu irmão depois de uma briga.

“Você levanta a voz”, diz Mohamed Ali, “e eles respondem batendo em você”.

O Egito é profundamente devoto, e impor rótulos costuma confundir mais do que esclarecer. Amal Salih, que se juntou aos protestos contra a vontade de seus pais, usa um lenço laranja sobre a cabeça mas diz que é não é religiosa. “O Egito é religioso, infelizmente”, diz ela. Mitwalli usa barba mas diz que é liberal, “dentro dos limites da religião”. Um motorista, Osama Ramadan, despreza a Irmandade Muçulmana mas adaptou seu carro para tocar uma oração quando liga o motor.

Definir os sentimentos não é tão confuso quanto. Jovens desafiadores que elogiavam Mubarak só na semana passada se juntaram às celebrações na sexta-feira, alguns levando bandeiras e fogos para a praça Tahrir. Moradores dizem que alguns dos islamitas mais ardorosos daqui têm as melhores conexões com a polícia, que tentou cultivá-los como informantes. Mas nas ruas cheias de lixo, que ocasionalmente atrai rebanhos de ovelhas, um refrão comum é o de que o Islã político, da forma como é praticado pela Irmandade Muçulmana, não oferece o tipo de soluções que podem decidir uma eleição.

O Grupo Islâmico, conhecido em árabe como Al Gamaa al-Islamiyya, liderou uma insurgência intermitente contra o governo nos anos 90, e o tio de Mitwalli foi um de seus líderes. Ele foi preso por 13 anos. Um homem conhecido como Sheik Gaber pertencia ao mesmo grupo, e ele e seus seguidores impuseram a noção de ordem aqui, atraindo milhares para sermões onde eles ocasionalmente – e triunfalmente – transmitiam uma fita do assassinato do presidente Anwar Sadat em 1981. Eles arbitraram disputas e ajudaram os pobres, enquanto andavam lentamente pela favela, espantando prostitutas e traficantes, impondo o uso do véu, queimando lojas que alugavam vídeos ocidentais, e obrigando cristãos a pagarem uma taxa religiosa.

O governo, envergonhado, eventualmente enviou 12 mil soldados e carros armados numa operação que deu início a uma ocupação de seis semanas. Com a ajuda norte-americana, ele encheu derramou investimentos no bairro durante algum tempo, pavimentando ruas e levando esgoto, telefones e eletricidade. Só no ano passado, o governador de Giza, que supervisiona o lado de Imbaba que dá para o Nilo, prometeu que o lugar logo se pareceria com um dos bairros nobres do Cairo.

Ele não se parece. Na verdade, Imbaba parece oprimida, à medida que os ricos fogem para bairros periféricos com nomes como Terra dos Sonhos, Beverly Hills e Interior Europeu, e o novo governo enfrenta as falhas de seu antecessor em fornecer moradia para uma população em que cerca de 7 entre 10 pessoas têm menos de 34 anos, números que refletem a maior parte do mundo árabe.

“A juventude de hoje pensa dessa forma: deixe-me viver minha vida hoje, e eu não ligo se você me matar amanhã”, diz Mohammed Fathi, 23, amigo de Sabr da loja de sapatos. “O ano que vem não é importante. Tudo que estou pensando é em conseguir viver hoje.”
No Líbano, na Arábia Saudita e em trechos mais rígidos do Iraque urbano, clérigos populistas costumam conseguir canalizar a raiva da juventude. Mas a liderança da Irmandade Muçulmana talvez seja mais reconhecida por representar as demandas de uma classe média aspirante; ela conta com algumas das pessoas mais abastadas do Cairo entre seus membros. Ninguém em Imbaba mencionou nenhuma figura religiosa como inspiração. Perguntados sobre sua escolha de um novo presidente, muitos deram de ombros ou ofereceram o nome de Amr Moussa, o secretário-geral da Liga Árabe, idoso e em vias de se aposentar. O mais popular aqui parece ser um dos filhos favoritos de Imbaba, o Pequeno Árabe, um cantor pop que tem um café na rua Luxor, decorado com suas próprias fotos.

“Eu não quero ser restringido por nenhuma tendência política”, disse Salih.

Na longa batalha entre o governo e a Irmandade Muçulmana, continua sendo estranho que tanto a oposição envelhecida quanto o Estado corrupto falassem a mesma língua do conservadorismo moral. Ele deixou o Egito mais ostensivamente religioso ao longo dos anos. A julgar pelos sentimentos daqui, talvez ele também tenha resultado num tiro pela culatra entre os jovens, que temem ainda mais regras, prometidas por uma aplicação ainda mais rígida da lei islâmica.
“Na minha opinião?”, perguntou Osama Hassan, estudante de colegial que se juntou aos protestos durante o seu clímax. “Precisamos de mais liberdade e não de menos. Todo o sistema precisa mudar.”

[b]Fonte: The New York Times[/b]