A Igreja Episcopal nos Estados Unidos votou esmagadoramente na última terça-feira (14) a favor da consagração de mais bispos homossexuais assumidos, num movimento que provavelmente provocará ondas de choque em toda a Comunhão Anglicana, a rede mundial de igrejas à qual pertence à Igreja Episcopal.

Ao votar para ratificar que “qualquer ministério ordenado” está aberto para homens e mulheres homossexuais, a Igreja Episcopal efetivamente acabou com a moratória sobre a ordenação de bispos gays, que havia aprovado em sua última convenção há três anos.

A moratória foi adotada num esforço, em grande parte mal sucedido, de acalmar os conservadores da Comunhão Anglicana, que se dividiu nos últimos seis anos desde que a diocese Episcopal de New Hampshire elegeu pela primeira vez o primeiro e único bispo gay, o bispo Gene Robinson. A batalha quanto à homossexualidade na Igreja Episcopal foi assistida de perto por outras grandes linhas da Igreja Protestante.

Elas estão vendo a Igreja Episcopal como uma pioneira que poderá mostrar se suas próprias congregações religiosas serão capazes de sobreviver intactas à polêmica questão da homossexualidade.

Muitos delegados que participaram da convenção da igreja caracterizaram a ação não como uma anulação da moratória, mas simplesmente como uma declaração honesta de “quem somos nós”. Eles observaram que a igreja tem centenas de leigos, padres e diáconos abertamente homossexuais, e que suas estruturas democráticas de tomada de decisão estão encarregadas de decidir quem merece ser ordenado.

“Não é uma tentativa de desafiar a Comunhão Anglicana”, disse Bonnie Anderson, que, como presidente da câmara de deputados, que representa leigos e os clérigos, é uma das duas principais autoridades que presidem a igreja. “É uma tentativa de aprofundar as relações com o resto da comunhão, porque as relações reais são construídas a partir da autenticidade.”

Mas alguns presentes à convenção alertaram que a Igreja Episcopal pode pagar um preço alto por rejeitar seus parceiros internacionais.

O reverendo Shannon S. Johnston, assistente do bispo da diocese de Virgínia, que assumirá o cargo de bispo em 1º de outubro, disse numa entrevista que votou contra a medida. “Acho que seríamos vistos como um grupo não cooperativo e sem espírito de equipe na Comunhão Anglicana”, disse ele.

Zack Brown, um jovem delegado da diocese de Upper South Carolina, implorou à câmara de deputados antes de seu voto final: “Por favor não votem de uma forma que faça com que mais conservadores se sintam da forma como eu me sinto agora: como se eu fosse o único que restou”.

A votação em ambas as câmaras foi mais do que dois terços à favor e um terço contra ou anulado.

A câmara dos bispos também aprovou uma medida que criará uma liturgia para abençoar casais do mesmo sexo. Essas bênçãos já são feitas em muitas dioceses, sem sanção oficial.

“É tempo para nossa igreja se liberar da hipocrisia sob a qual vem trabalhando”, disse o bispo Stacy Sauls, de Lexington, Kentucky, a seus colegas na terça-feira.

A Igreja Episcopal agiu apesar de uma mensagem pessoal no começo da convenção enviada pelo arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, que, como chefe da Igreja da Inglaterra, é considerado “o primeiro entre iguais” entre os arcebispos da Comunhão Anglicana.

Williams havia dito a eles: “Junto com muitos na comunhão, espero e rezo para que nos próximos dias não sejam tomadas decisões que nos separem ainda mais.”

A resolução que foi aprovada na terça-feira foi escrita de forma que permite às dioceses considerarem candidatos homossexuais ao episcopado, mas não obriga todas as dioceses a fazerem isso. Ela também enfatiza que a Igreja Episcopal tem um “compromisso permanente”
com a Comunhão Anglicana.

Ela diz que muitos homens e mulheres homossexuais já são ministros na igreja e que, “Deus chamou e pode chamar esses indivíduos, para qualquer ministério ordenado da Igreja Episcopal, e que o chamado de Deus para o ministério ordenado na Igreja Episcopal é um mistério que a Igreja tenta discernir para todas as pessoas através de nossos processos de discernimento, agindo de acordo com a Constituição e os Cânones da Igreja Episcopal.”

Pamela Reamer Williams, porta-voz da Integrity USA, um grupo de defesa de gays e lésbicas na igreja, disse: “A igreja deixou bem claro que todos os níveis do ministério na Igreja Episcopal estão abertos para os GLBT batizados. É uma mudança, uma vez que ela substitui a moratória em vigência.”

Províncias conservadoras da Comunhão Anglicana, especialmente algumas na África, romperam seus laços com a Igreja Episcopal depois da consagração de Robinson.

A moratória adotada há três anos desencorajava as dioceses episcopais de consagrarem bispos cuja “maneira de vida” representasse um desafio para o restante da Comunhão Anglicana. De fato, poucos candidatos abertamente homossexuais foram considerados para a eleição nos últimos três anos, mas nenhum deles ganhou apoio suficiente, e a moratória nunca foi testada.

No fim, a moratória não agradou a ninguém: nem aos conservadores, que observaram que alguns membros da igreja não tinham na verdade a intenção de obedecê-la, nem aos liberais, que a viam como um código de discriminação e injustiça para os membros homossexuais do clero que de outra forma estavam aptos a serem consagrados bispos. A moratória também não fez muito para evitar a fratura tanto dentro da Igreja Episcopal e na Comunhão Anglicana. Conservadores em ambas as organizações formaram suas próprias alianças nos últimos três anos, afirmando que representam a verdadeira tradição anglicana.

Nos Estados Unidos, quatro dioceses – Fort Worth, Pittsburgh; Quincy, Illinois; and San Joaquin, Califórnia – votaram para se separar da Igreja Episcopal (apesar de que algumas paróquias dentro dessas dioceses votaram para continuar).

No ano passado, eles se juntaram a outras paróquias descontentes e grupos que haviam se retirado da Igreja Episcopal há muitos anos, para formar a “Igreja Anglicana da América do Norte”. Esse grupo fez sua primeira convenção, no Texas, no mês passado. Eles alegam ter 100 mil membros, enquanto a Igreja Episcopal diz ter cerca de 2 milhões.

O novo grupo diz que a Escritura claramente proíbe relações homossexuais. Os liberais da Igreja, enquanto isso, insistem que a tenda anglicana é grande o suficiente para tolerar várias abordagens.

Os debates na convenção em Anaheim durante os últimos dias deixaram claro que os liberais, cada vez mais, têm o controle dentro da Igreja Episcopal. Num debate sobre o desenvolvimento ou não de ritos formais para casamentos enter pessoas de mesmo sexo, 50 membros testemunharam a favor e seis contra.

“É uma vitória para os liberais da Igreja Episcopal”, disse David Virtue, editor do virtueonline.org, um site conservador. “Os ortodoxos estão acabados.”

Fonte: The New York Times

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