A igreja não é sua única influência, e seu impacto não pode ser plenamente separado do de sua família, que também está banhada em mormonismo.

Quando Mitt Romney concorreu a um cargo eletivo pela primeira vez, em 1994, ele também assumiu um novo papel humilde na congregação mórmon que antes liderava. Nas manhãs de domingo, ele ia à capela ensolarada daqui dar aulas sobre a Bíblia para adultos.

Conduzindo os estudantes pelas histórias sobre Jesus e o nefita e as tribos lamanitas, que os mórmons acreditavam que antes habitavam as Américas, e dando bombons de manteiga de amendoim como recompensa, Romney sempre voltava à mesma questão: como os estudantes podem aplicar as lições das escrituras mórmons no seu dia a dia?

Agora, como virtual candidato republicano à presidência, Romney tem falado tão pouco sobre sua fé –ele e seus assessores estipulam frequentemente que ele não gosta de impor suas crenças aos outros– que a influência dela sobre ele pode ser difícil de detectar.

Mas dezenas de amigos do candidato, membros da igreja e parentes o descrevem como um homem cuja fé é a base de sua vida. A igreja não é sua única influência, e seu impacto não pode ser plenamente separado do de sua família, que também está banhada em mormonismo.

Mas ser um santo dos últimos dias está “no centro de quem ele realmente é, se você remover tudo mais”, disse Randy Soronsen, que frequentava a igreja com Romney.

Como um jovem consultor que chegava ao escritório antes dos demais, Romney estava sendo “deseret”, um termo do Livro de Mórmon que significa diligente como uma abelha, e ele recrutava colegas e clientes com o zelo do missionário que já foi. O casamento de Mitt e Ann Romney é forte porque eles acreditam que viverão para sempre no pós-vida eterno, dizem parentes e amigos, o que os motiva a resolverem os conflitos.

A inclinação de Romney por regras espelha a de sua igreja, onde ele excomungava os adúlteros e às vezes desencorajava as mães de trabalharem fora. Ele pode ter muitos motivos para abominar dívida, querer limitar o poder federal, promover a independência e estressar o destino único dos Estados Unidos, mas todas essas são características mórmons tradicionais.

Fora dos holofotes, Romney pode demonstrar sua fé: cantando hinos (“Que Amigo Temos em Jesus”) enquanto cavalga, fazendo jejum nos dias designados e encontrando uma congregação mórmon para ir aos domingos, onde quer que esteja.

Clayton M. Christensen, um professor de administração e negócios de Harvard e um amigo da igreja, disse que a questão que motivava as aulas dominicais –como aplicar as escrituras mórmons no dia a dia– também move a vida de Romney. “Ele apenas precisa saber o que Deus quer que ele faça e como ele pode fazê-lo”, disse Christensen.

[b]Um homem de regras
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Romney é rápido em cumprir as regras grandes e pequenas. Durante os debates das eleições primárias, quando seus rivais falavam fora de ordem ou estouravam o tempo que lhes era designado, eles às vezes os repreendia. Quando simpatizantes pediam a Romney que assinasse notas de dólar ou bandeiras americanas, ele se recusava e frequentemente lhes ensinava porque fazê-lo é contra a lei.

Seguir as regras à risca é uma marca de sua carreira na vida pública. Quando Romney assumiu os Jogos Olímpicos de Salt Lake City, que estavam repletos de problemas éticos, ele se apresentou como um reformista heroico. Como governador de Massachusetts, ele se descreveu como uma voz de integridade em meio ao que chamava de interesseiros e pessoas eticamente duvidosas no governo estadual.

Na igreja, Romney falava frequentemente sobre a obediência à autoridade, o risco de racionalizar o mau comportamento e sobre os padrões fixos de Deus. “Muitas pessoas, quando não querem fazer o que Deus deseja que façam, afastam o que Deus deseja um metro de distância”, ele dizia à sua congregação, estendendo os braços para indicar a distância, lembrou Christensen.

As autoridades da Igreja dizem que Romney tentava ser sensível e misericordioso; quando um estudante universitário enfrentou sérias penas por praticar sexo pré-nupcial, Romney preferiu colocá-lo em uma espécie de liberdade condicional. Mas ele realizava rigidamente as excomunhões. “Mitt seguia fielmente as regras”, disse Tony Kimball, que posteriormente serviu como seu secretário-executivo na igreja.

Mas muitos também veem uma desconexão entre seus ideais religiosos e suas táticas políticas. A diferença tem sido difícil de conciliar, apesar de pessoas próximas dele dizerem que ele fala sério sobre tentar fazê-lo.

Por exemplo, Romney rejeitou realizar propagandas de ataque pessoal contra seus rivais políticos, disseram pessoas próximas dele. Quando o senador Edward Kennedy o atacou como um capitalista insensível em 1994, usando propagandas que exageravam o papel de Romney nas demissões ligadas à Bain, Romney se recusou a contra-atacar e explorar o histórico de mulherengo de Kennedy. “Vencer não é importante o bastante para deixar de lado meus ideais e princípios”, disse Romney aos assessores.

Na semana passada, Romney repudiou os esforços para atacar Obama com base em seu antigo relacionamento com o reverendo Jeremiah A. Wright Jr. Mas, neste ano, ele sugeriu que Obama queria tornar os Estados Unidos “uma nação menos cristã”. “Eu não tenho nenhuma ideia de como ele justifica isso”, disse Kimball sobre as declarações mais duras e ataques de Romney. “Parece mais um caso de fins justificando os meios.”

[b]Contando com a oração
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Apesar de Romney quase nunca discutir isso ou realizar em público, orar é uma parte regular e importante de sua vida, dizem amigos que já se juntaram a ele. “Orar não é uma coisa mecânica para ele”, disse Ann N. Madsen, uma estudiosa da Bíblia e amiga. Em vez de pedir um resultado específico, ele frequentemente pede por força, sabedoria e coragem, segundo várias pessoas que já oraram com ele. “Ajude-nos a ver como resolver este problema específico”, ele frequentemente pede, segundo o dr. Lewis Hassell, que serviu com Romney na igreja.

Romney também pede por amparo divino durante suas candidaturas políticas. Na noite anterior ao anúncio de sua candidatura a governador, ele e sua família oraram em casa com Gloria White-Hammond e Ray Hammond, amigos e pastores de uma igreja metodista episcopal africana da área de Boston.

Sua candidatura anterior fracassada ao Senado federal fez parte do plano de Deus, Ann Romney disse para Gloria White-Hammond na época. Mitt Romney perdeu, mas “apenas porque Deus diz para você fazer algo não significa que o resultado será aquele que você deseja”, disse Ann Romney segundo White-Hammond.

Há cerca de um ano, Ann Romney disse para White-Hammond que seu marido provavelmente concorreria novamente à presidência, e que ambos já estavam orando sobre a disputa. Mitt Romney ainda estava um pouco relutante em entrar de novo na corrida, segundo White-Hammond. Mas ela lembrou da esposa do futuro candidato ter dito que o casal “sentia que era o que Deus queria que fizessem”.

[b]Fonte: The New York Times[/b]