Em meio às difíceis mudanças mundiais, as pessoas estão voltando à velha religião. Em nome de Deus, terroristas matam e mutilam alegremente; nos Estados Unidos, a direita cristã tem forte influência no governo. Neste crescente mundo temente a Deus, apenas a Europa Ocidental parece o último baluarte de secularismo – ou os fiéis europeus também estão retornando?

Roma, abril de 2005. Pessoas se espremem na Praça de São Pedro. O papa João Paulo 2º faleceu e as multidões coloridas, incluindo alunas cabulando aula e surfistas com cabelos trançados – mais parecendo um público de concerto de rock do que freqüentadores de igreja – seguiram para o Vaticano para prestar suas últimas homenagens.

A enxurrada de visitantes pouco diminuiu um ano depois, mas a atração agora é o novo Santo Padre. Os alemães, em particular, vão para ver “seu” papa, Bento 16, com cerca de 50 mil buscando uma audiência durante seus primeiros seis meses como líder da Igreja Católica Romana.

Será que são sinais de um renascimento religioso na Europa notoriamente secular – especialmente entre os jovens? Ou as multidões na Santa Sé são compostas mais de curiosos do que verdadeiros fiéis – um produto da mesma badalação da mídia que alimenta nossa fixação por ícones do futebol, divas da música pop e astros de Hollywood?

Ninguém sabe ao certo, mas uma coisa está clara. As igrejas podem estar mais vazias do que nunca, mas em um planeta que parece estar rodopiando fora de controle, mais e mais pessoas estão refletindo sobre o significado da vida – mesmo no Velho Mundo. No rastro deste redespertar, rudes caricaturas dinamarquesas de Maomé, comentários do papa na Alemanha e uma igualmente controversa montagem de “Idomeneo” de Mozart, em Berlim, levantaram nos últimos meses a questão sobre quanta religião e os valores que ela reflete nós precisamos.

O triunfo da modernidade?

O ressurgimento da religião é um dos fenômenos mais dramáticos e notáveis de nosso tempo e assume alguns aspectos perturbadores. Os terroristas detonam bombas em nome de Alá. A Casa Branca é ocupada por um presidente que se considera um cristão renascido, prega em público, busca orientação divina em assuntos políticos e envolve suas políticas em uma roupagem religiosa.

Na aurora do século 21, a religião está caminhando pelo palco mundial como um ator poderoso, mas volátil, atuando em uma variedade de papéis que mudam constantemente – um desdobramento que era inconcebível para a maioria dos ocidentais há uma geração. Naquela época, o triunfo da modernidade deveria ser acompanhado da morte inexorável da religião ao redor do mundo.

Mas tal noção estava absolutamente errada. Na verdade, em continentes como a África e a Ásia, onde a religião está ganhando influência, este nunca foi o caso.

Fora uns poucos grandes eventos na mídia, o equilíbrio na Alemanha tem pendido até o momento para a modernidade, a ponto da religião parecer ter perdido suas amarras. “Não está mais distante o dia em que as fundações religiosas de nossa civilização serão tão alienígenas para a maioria dos alemães quanto às do antigo Egito e dos astecas”, profetizou Klaus Harpprecht, do jornal alemão “Die Zeit”.

E não há como contestar: com exceção da católica Polônia, o número de fiéis nas igrejas tradicionais cristãs tem caído drasticamente na Europa, assim como a consciência da herança cristã do continente. As alegações de que a religião está ruindo são apenas parcialmente verdadeiras. O argumento não vale para a maioria dos 15 milhões de muçulmanos na Europa. Na verdade, o Islã cresceu nos últimos anos. “A observância religiosa aumentou entre os muçulmanos desde o 11 de Setembro”, disse Ali Kizilkaya, presidente do Conselho Islâmico Alemão. A freqüência nas orações de sexta-feira no país subiu quase 50% nos primeiros cinco anos do milênio, segundo a Arquivos Islâmicos da Alemanha.

Incitando o conflito

Mas o renascimento da religião na Europa também tem incitado as hostilidades entre as fés. Para muitos ocidentais seculares, os lenços de cabeça das mulheres muçulmanas devotas passaram a simbolizar a disseminação do fundamentalismo religioso. As organizações muçulmanas se queixam das constantes insinuações de que têm laços com o terrorismo. Enquanto isso, ideólogos fundamentalistas e pregadores islâmicos aqui e no exterior incitam o conflito entre as maiorias não-muçulmanas da Europa Ocidental e suas comunidades islâmicas.

As caricaturas do profeta Maomé, publicadas em um jornal dinamarquês, provocaram protestos violentos em todo mundo no início de 2006. Os consulados dinamarqueses em Beirute e Damasco foram incendiados e várias pessoas morreram em protestos no Afeganistão, Paquistão e Nigéria. Mas o que poderia parecer acessos espontâneos de fúria foram, na verdade, ataques cuidadosamente orquestrados.

Após o papa Bento 16 ter feito uma referência a uma citação de séculos atrás, que criticava os ensinamentos de Maomé, em um discurso em setembro, mais tempestades de protesto irromperam em muitos países muçulmanos. O papa expressou rapidamente seu respeito ao Islã, argumentando que suas palavras foram mal compreendidas. Na Somália, radicais islâmicos responderam ao seu discurso assassinando uma freira católica.

Naquele mesmo mês, o desconforto provocado por estes desdobramentos na Alemanha repercutiu na Deutsche Oper em Berlim, uma das principais casas de ópera do país. As autoridades municipais alertaram que sua montagem de Idomeneo – que incluía decapitações de Maomé, Jesus e Buda – poderia inflamar os muçulmanos. A ópera foi inicialmente cancelada e apenas remarcada para o final de 2006, após um acalorado debate público.

As conseqüências da crescente desconfiança mútua estão se tornando cada vez mais difíceis de ignorar. Um vigário na cidade alemã oriental de Erfurt ficou tão preocupado com a islamização da Europa que se imolou em chamas, na esperança de que sua morte pudesse alertar os cristãos da ameaça que percebia. Enquanto isso, a capacidade das pessoas de distinguir entre a grande maioria de muçulmanos que aspira viver pacificamente dentro das sociedades européias, e uma minoria fanática e violenta, está desaparecendo rapidamente. Segundo uma reportagem no “International Herald Tribune” sobre o sentimento em seis grandes cidades européias, uma desconfiança geral em relação ao Islã, encontrada apenas em círculos da extrema direita há poucos anos, agora está avançando no centro político e até mesmo entre a esquerda liberal. “Se tornou politicamente correto atacar o Islã (…) o que dificulta para moderados de ambos os lados permanecerem razoáveis”, o jornal citou o muçulmano dinamarquês Wahid Pedersen.

Por todo o mundo, o Islã está convertendo mais pessoas do que qualquer outra religião, apesar de suas próprias divisões internas. A maioria das sociedades muçulmanas fica localizada em regiões menos desenvolvidas, onde famílias grandes continuam sendo a regra. Todavia, é improvável que o Islã se torne a maior religião do mundo no futuro próximo. Em 1970, um sétimo da população da Terra era muçulmana; hoje os muçulmanos correspondem a um quinto.

Afluxo de novos fiéis

Por motivos demográficos e culturais semelhantes, a proporção global de hindus também cresceu, só que mais lentamente – de 12,5% em 1970 para 13,3% em 2002. Desde os anos 60, correntes fundamentalistas cada vez mais agressivas despontaram no hinduísmo, dirigindo seu veneno acima de tudo contra a minoria muçulmana na Índia.

Apesar da expansão destas outras religiões mundiais, o cristianismo continua tendo o maior número de seguidores no mundo. Pouco menos de um terço da população mundial pertence à Igreja Católica ou outra denominação cristã. Mas o poder popular do cristianismo varia de continente a continente. Apesar do número de cristãos declarados na Europa estar encolhendo constantemente, as fileiras de novos convertidos na África estão explodindo. Em 1900, havia cerca de 10 milhões de cristãos na África; hoje se estima que o número seja de 390 milhões, quase metade de toda a população do continente.

Este avanço da África se deve principalmente aos missionários cristãos. Os protestantes pentecostais, que dão uma ênfase maior ao redespertar religioso e à experiência religiosa extática -como falar línguas desconhecidas- do que na teologia, provaram ser particularmente bem-sucedidos. Na Coréia do Sul e na América Latina, os protestantes pentecostais tomaram muitos milhões de fiéis da Igreja Católica, especialmente no Brasil.

Na Rússia e outras partes da antiga União Soviética, o “revival” religioso provocou um enorme afluxo de novos fiéis à Igreja Ortodoxa. Após o colapso do comunismo -que prometia um “paraíso na terra”- as religiões mais tradicionais recuperaram seu apelo, em sintonia com a tendência global. “Especialistas concordam que o grande aumento dos movimentos fundamentalistas islâmicos nas últimas décadas foi em grande parte alimentado por pessoas que esperavam que o comunismo traria justiça e igualdade”, segundo Peter Antes, um estudioso alemão de religião.

Mas outros estudiosos discordam. A volta da fé tem menos a ver com esperanças desiludidas de uma sociedade melhor e mais com perguntas não respondidas sobre o significado da existência humana: “A noção de que a religião morreria provou ser uma ilusão. A religião, como uma resposta às origens transcendentais da existência humana, é um elemento central de toda cultura”, escreveram acadêmicos na Igreja Luterana alemã em um recente relatório.

Mesmo na civilização Ocidental, com seu foco na razão e no iluminismo, há sinais de que a fé em Deus e o conhecimento terreno são eminentemente compatíveis:

*Muitos cientistas, incluindo importantes físicos internacionais como Hanspeter Dürr e Wolfgang Weidlich se declararam crentes.

*Em seu recente livro, “The Language of God” (a linguagem de Deus), o geneticista americano Francis Collins cita pesquisas que mostram que 40% dos cientistas americanos acreditam em Deus. Collins rejeita os ensinamentos pseudocientíficos de fanáticos cristãos como “intelligent design” (planejamento inteligente) ou “criacionismo”. Como o papa Bento 16, ele insiste que a teoria da evolução de Darwin não é incompatível com a fé cristã.

*Desde o nascimento dos Estados Unidos, a religião tem exercido uma poderosa influência formativa no país mais avançado científica e tecnologicamente do mundo.

O termo “fundamentalismo” foi cunhado há cerca de 100 anos para descrever um ramo do protestantismo americano – muito antes de ser aplicado a outras religiões. Durante os últimos 30 anos, o fundamentalismo da direita cristã tem atraído segmentos de tamanho considerável da população americana.

Mas a pergunta permanece: por que a religião está declinando em grande parte da Europa Ocidental -aparentemente confirmando a tese de que a religião está nas últimas- enquanto está ascendendo na principal nação Ocidental, os Estados Unidos?

A religião sofreu um sério revés na Alemanha e na França, os maiores países da Europa Ocidental. Na Alemanha, as duas maiores igrejas -que recebem dinheiro do Estado arrecado de impostos sobre seus fiéis- apresentaram uma queda de mais de 5,5 milhões de inscrições desde 1990; os números de novos fiéis são ainda menores.

A queda resultante de receita da Igreja levou a reduções no número de clérigos e reduções nas atividades de caridade das igrejas. Algumas igrejas estão sendo fechadas; outras só conseguem financiar obras de reforma urgentes colocando propagandas em suas fachadas. Possivelmente o símbolo mais comovente desta erosão da fé, este espetáculo é considerado de mau gosto até mesmo para pessoas que têm pouco interesse na religião.

Alguns observadores acreditam que a religião não está diminuindo; ela está se transformando e se tornando mais individualista e menos eclesiástica. O historiador francês Paul Veyne, por exemplo, fala de uma transição “de uma religião como um prato fixo a uma religião à la carte, onde todos escolhem o deus ou seita que gostam mais”.

Roland Biewald, professor de teologia da Universidade Técnica de Dresden, argumenta que a secularização de fato explica as igrejas vazias na Alemanha, mas nota que a “religiosidade extra-eclesiástica” está crescendo ao mesmo tempo. Ele acrescenta que, por reconhecimento das próprias pessoas, quase três quartos das pessoas que deixaram a igreja o fizeram para evitar pagar o imposto da igreja, com menos de uma em cinco citando motivos religiosos. Simultaneamente, argumenta Biewald, o aumento da ansiedade em relação ao futuro está levando a um anseio renovado por salvação: “Esta fé percebida é independente das religiões convencionais”.

Mas o que é “fé percebida”? O conceito soa incomumente vago – e um pouco como assoviar no escuro. Os resultados de uma recente pesquisa TNS-Infratest para a “Der Spiegel” também foram inconclusivos. Apesar de 64% dos entrevistados terem respondido de forma afirmativa a pergunta “Você acredita em um deus?” (em comparação com 50% em 1992), apenas 42% disseram acreditar em vida após a morte, com 50% dizendo que não.

Ressurgimento religioso como resposta ao mundo atual

Dos dois terços de alemães que não deram as costas formalmente às Igrejas Católica e Protestante, a maioria é indiferente à vida religiosa e apenas freqüenta a missa no Natal, quando freqüentam. A especialista britânica em religião, Grace Davis, argumenta que tal indiferença é típica da Europa Ocidental.

Uma religião que está perdendo força não pode ser mais considerada um paradigma social viável. A Europa, o berço do Iluminismo e da revolução industrial, há muito tempo se acostumou a ver seu próprio desenvolvimento como um modelo para o restante do mundo.

Já no século 19, os revolucionários socialistas e os liberais burgueses estavam unidos na sua convicção de que uma sociedade civil automaticamente levaria à secularização. Por secularização eles queriam dizer não apenas a separação constitucional da Igreja e do Estado, mas a extinção da religião a longo prazo.

Entre importantes socialistas, esta expectativa se baseava na premissa de que a fé não era nada mais que uma forma primitiva de conhecimento. O economista alemão do século 19, Max Weber, resumindo isto de forma sucinta, disse que o mundo foi “desencantado” pela ciência e tecnologia. Para ele, qualquer coisa que desafiava a razão na era pré-moderna, e, portanto, fomentava idéias místicas e religiosas, automaticamente se tornaria explicável com o tempo e com os avanços da ciência e a aplicação das leis naturais. O poder dos deuses e padres gradualmente seria tomado por instituições seculares. Segundo esta teoria, este processo de transformação global culminaria inevitavelmente no desaparecimento de toda a religião na Terra.

Afinal, a Revolução Francesa – que promoveu a ascensão da classe média na Europa – foi direcionada contra a aliança antidemocrática entre a Igreja e o Estado. Além disso, a rejeição inicial pelas igrejas cristãs da evolução darwinista, além de sua desconfiança do Estado moderno, secular, alimentaram a ira dos racionalistas. Enquanto o protestantismo alemão abraçou o iluminismo e o modernismo no século 19, a Igreja Católica se manteve firme até o século seguinte, até que as reformas do Conselho Vaticano Segundo (1962-1965). Atualmente, o casamento entre razão e fé é central para o pensamento do teólogo alemão Joseph Ratzinger, mais conhecido como papa Bento 16.

Europa como a exceção

Mas foi há menos de 40 anos que a Santa Sé finalmente aboliu o “Juramento Contra o Modernismo” de 1910, que todos os padres católicos e professores de teologia eram obrigados a prestar. A separação da Igreja e do Estado só se tornou a norma nos países europeus durante o século 20.

Em 1968, Peter Berger, um especialista em religião de renome internacional, ousou fazer esta previsão no “The New York Times”: “No século 21, os fiéis religiosos serão provavelmente encontrados apenas em pequenas seitas, unidos na resistência a uma cultura secular mundial”.

Hoje, as profecias apocalípticas perderam seu apelo, assim como a velha teoria da secularização, sendo substituídas por um novo slogan: “o reencantamento do mundo”. Olhando para trás, Berger vê sua antiga posição como um grande erro – e agora fala com menos convicção sobre a “dessecularização do mundo”. A forma especial de secularização que apareceu na Europa, ele agora argumenta, não é de forma alguma um modelo para o restante do mundo. É sim uma exceção. O restante do mundo permanece tão religioso como antes – em alguns lugares mais do que nunca. Segundo Berger, isto vale não apenas para as três religiões monoteístas, mas também para o hinduísmo, budismo e xintoísmo.

Os movimentos islâmicos ao redor do mundo e a “nova direita cristã” nos Estados Unidos são os exemplos mais chamativos do renascimento da religião. E não é coincidência que tenham surgido e se disseminado simultaneamente durante os últimos 30 anos.

O fundamentalismo religioso pode parecer sinistro e desconcertante para muitos observadores modernos, mas é apenas um retorno aos tempos pré-modernos. A globalização está despedaçando e minando o mundo como o conhecemos, deixando as pessoas em um estado permanente de ansiedade. Este sentimento tem servido para energizar movimentos que prometem restaurar valores confiáveis e seguros. Desta forma, a globalização e o fundamentalismo andam de mãos dadas. Em seu notável livro “The Return of Religion” (o retorno da religião), o sociólogo Martin Riesebrodt, da
Universidade de Chicago, define o fundamentalismo como uma forma moderna de resistência a aspectos da modernidade. O romantismo, como uma contra-reação ao racionalismo do Iluminismo, teve uma influência semelhante na forma como nosso mundo se desenvolveu.

Crise social profunda

Segundo Riesebrodt, as tendências fundamentalistas são movimentos de “revival” religioso que se ressentem com a sociedade atual. Eles alegam que a profunda crise social que diagnosticam só pode ser superada por um retorno aos fundamentos da respectiva tradição religiosa.

Por exemplo, a Revolução Iraniana de 1979 só teve sucesso porque o ditador do país, o xá Mohammed Reza Pahlavi, mergulhou o Irã em uma profunda crise social. O autocrata -um membro do jet set internacional- elaborou uma política seguindo linhas rigidamente seculares, citando o Ocidente como seu modelo. Nas relações exteriores, ele era um forte aliado dos Estados Unidos.

O regime entrou em colapso porque as classes média e operária culparam suas políticas por suas dificuldades econômicas e sociais. E ao se opor aos valores modernos e sociedades Ocidentais -particularmente os patrocinados pelos Estados Unidos- o aiatolá xiita Khomeini reuniu apoio em massa para suas causas fundamentalistas. Por anos, uma nova onda de fundamentalismo – o terrorismo global da Al Qaeda e de grupos de mentalidade semelhante – tem mantido o mundo sob tensão. Osama Bin Laden e seus comparsas se tornaram o que são hoje após serem armados pela CIA. Como fanáticos combatentes da liberdade, eles ganharam a reputação de defensores destemidos da fé entre muitos muçulmanos – ao expulsarem os invasores soviéticos ateístas do Afeganistão. De lá para cá, os antigo protegidos da CIA redirecionaram sua fúria e travaram uma guerra total contra os Estados Unidos e seus aliados.

Segundo um artigo do cientista político conservador Samuel Huntington, o mundo está testemunhando uma Guerra de Civilizações entre as sociedades islâmica e ocidental. O ponto de interrogação que adornava seu título – quando foi publicado pela primeira vez na revista “Foreign Affairs” em 1993 – desapareceu na versão subseqüente em livro. Apesar de na época Huntington falar sobre um confronto cultural preenchendo o vácuo de poder deixado no final da Guerra Fria, seu conceito foi seqüestrado para explicar os ataques terroristas de 2001 – para se tornar uma das idéias mais influentes de nosso tempo. Mas Huntington, o criador da hipótese “eles contra nós”, se recusa a ver o 11 de Setembro em termos de choque de civilizações.

Os críticos acusam Huntington de vários erros. Ele não faz distinção entre a maioria muçulmana e a margem jihadista. Ele ignora completamente as enormes diferenças entre países muçulmanos tão distintos como Indonésia e Bósnia, Arábia Saudita e Turquia. Para Huntington, “Islã” é uma frente global unida, marchando em fileiras cerradas pelo passado, presente e futuro: “Enquanto o Islã permanecer o Islã (e permanecerá) e o Ocidente permanecer o Ocidente (o que é mais duvidoso), este conflito fundamental entre duas grandes civilizações e modos de vida continuará definindo suas relações no futuro, assim como as definiu nos último quatorze séculos”.

Mas conflitos entre muçulmanos sunitas e xiitas surgem freqüentemente (as duas seitas do Islã estão atualmente envolvidas na sangrenta guerra civil no Iraque). E na guerra Irã-Iraque, dois Estados com maiorias xiitas enviaram centenas de milhares de muçulmanos para a morte. Hoje, a maioria das vítimas do terrorismo islâmico também é muçulmana.

Mas pode haver alguma verdade no cenário “eles contra nós”, nas tensões que ganham manchetes entre o mundo islâmico e o secularismo ocidental. Políticos e líderes religiosos de todo mundo estão alertando contra apresentar a segunda maior religião do mundo como a antítese ao Ocidente, como seu inimigo. Uma recente carta aberta, na qual importantes figuras islâmicas mundiais aceitaram o convite do papa Bento 16 para um diálogo, pode sinalizar o início de um muito necessário intercâmbio de alto nível entre as duas religiões globais.

Para muitos europeus, o fundamentalismo cristão nos Estados Unidos é quase tão perturbador e estranho como o fanatismo islâmico.

Segundo os fundamentalistas americanos, as pessoas não se tornam cristãs renascidas pelo batismo ou educação, mas por uma intensa experiência de conversão ou um chamado encontro pessoal com Deus, que as obriga a levar vidas segundo interpretações mais ou menos rígidas da Bíblia. O presidente George W. Bush e outros membros de seu governo se consideram cristãos renascidos neste sentido, e recebem conselhos de pastores evangélicos. Este ramo do cristianismo, com sua rígida divisão de mundo em bem e mal, influencia as políticas da superpotência global há anos.

As histórias da religião na América e na Europa dificilmente poderiam ser mais diferentes. A nação de imigrantes na qual os peregrinos tiveram tamanho papel definidor prometia liberdade da interferência do Estado aos refugiados religiosos e seitas de todo canto do globo. Os Estados Unidos eram seculares desde o início no que se refere à separação rígida da Igreja e do Estado – mas nem tanto no sentido do relaxamento dos laços religiosos. Diferente da Europa pós-Reforma, as Igrejas Protestante e Católica nunca garantiram monopólios territoriais nos Estados Unidos. Isto permitiu que um grande número de seitas e suas subdivisões se desenvolvessem lada a lado dentro da sociedade.

A batalha do Armageddon

Apesar de uma minoria de cristãos literalistas ter se mobilizado contra a teoria da evolução de Darwin no início do século 20, a maioria dos americanos nunca questionou a compatibilidade entre ciência e religião. Em conseqüência, o secularismo do Estado e o pluralismo religioso puderam florescer sem serem contestados.

Telespectadores de todo mundo viram os dois exibirem compatibilidade em escala global após os ataques de 11 de Setembro: representantes de todas as religiões do mundo unidos como iguais no serviço memorial em Nova York. Mas a coexistência pacífica do secularismo e pluralismo agora está ameaçada pela dramática ascensão do fundamentalismo cristão. Em seu livro “The Last Crusade” (a última cruzada), a jornalista americana e autora Barbara Victor apresenta resultados demográficos persuasivos: cerca de 60% dos americanos dizem que a religião tem “um papel muito importante” em suas vidas – bem mais do que em qualquer outro país industrializado; 86% se dizem cristãos. Os cristãos renascidos formam o maior grupo entre os cristãos protestantes predominantes no país, e correspondiam a um entre cinco dos mais de 120 milhões de eleitores na eleição presidencial de 2004. Segundo a pesquisa citada por Victor, 58,7% dos cristãos renascidos estão convencidos de que o mundo acabará na batalha do Armageddon entre Jesus e Satã, enquanto 40,9% querem uma emenda constitucional declarando os Estados Unidos uma “nação cristã”.

A autora aponta para o estímulo mútuo de fundamentalismos concorrentes. Acima de tudo, a profunda sensação de insegurança provocada por dois eventos contribuiu para uma mudança na estrutura interna dos Estados Unidos e um renascimento religioso durante os últimos 30 anos: a crise americana dos reféns em Teerã, em 1979, e os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001.

Rigidamente falando, “evangélicos” e “fundamentalistas” cristãos não são idênticos, porque a experiência de conversão é central para o primeiro grupo e o segundo é um subgrupo que enfatiza dogmas fundamentais. Mas em questões políticas e sociais, ambos costumam expressar posições fundamentalistas semelhantes.

Isto pode até mesmo colocá-los em conflito com a política conservadora do governo, como mostrado no início de 2006, em uma campanha de muitos importantes evangélicos contrários às políticas ambientais do governo Bush. As posições adotadas pelos fundamentalistas religiosos não desafiam automaticamente a razão secular – e podem servir a um propósito. O papel social da religião nos Estados Unidos vai muito além de suas atuais manifestações políticas.

“A esperança perdida da ressurreição deixou um vácuo palpável”

Ao lado do universo conservador-nacionalista dos fundamentalistas, há o movimento cristão liberal-universalista que apóia a tradição de direitos civis associada a Martin Luther King. Manifestantes de ambos os lados da divisão política -seja sobre guerra no Iraque, George W. Bush e pena de morte- podem citar suas crenças cristãs como justificativa. Assim, o risco de fanáticos políticos monopolizarem a religião nos Estados Unidos é remoto.

Assim, o declínio da fé na Europa Ocidental é uma exceção em um mundo globalizado onde formas diversas de religião detêm tamanho poder? Muitos observadores argumentam o oposto, sugerindo que o “renascimento da religião” é palpável mesmo na Alemanha. A resposta emocional à morte do papa João Paulo 2º e o entusiasmo com que seu sucessor foi recebido na Jornada Mundial da Juventude, em Colônia, são freqüentemente citados como evidência. Mas ambos podem ter menos a ver com uma onda de fervor religioso e mais com o desejo banal de fazer parte de um evento histórico.

O bispo Wolfgang Huber, presidente do Conselho da Igreja Luterana na Alemanha, também pode ter sido vítimas de uma expectativa otimista quando argumentou neste ano que “não há nenhuma área na sociedade ou nas artes” na Alemanha onde “sinais de ‘revival’ religioso não estejam em evidência”. Para apoiar sua afirmação, Huber citou os elementos religiosos em novos livros, peças, filmes e programas de TV, e as palavras do novo presidente alemão, Horst Köhler, que fez referência à religião (“Deus proteja nosso país!”) em seu primeiro discurso público. Tais evidências fracas dificilmente sustentariam as alegações de ressurgimento da religião na Alemanha.

Mas também não há evidência convincente para apoiar o contrário, a posição tradicionalmente secularista que “nós ocidentais já habitamos em um mundo pós-religioso” – uma conclusão a qual chegou o filósofo alemão Herbert Schnädelbach no jornal alemão “Die Zeit” no início deste ano.

Mas deve haver uma forma diferente de olhar para isto. Poucas semanas após 11 de Setembro, Jürgen Habermas, o mais famoso pensador liberal da Alemanha e principal defensor da razão no cenário internacional, aproveitou a oportunidade para falar sobre secularismo e religião quando aceitou o Book Retailers Peace Prize alemão. Ele descreveu a tensão entre os poderes gêmeos como um profundo conflito “entre as forças produtivas liberadas pelo capitalismo” e as “forças estabilizadoras da religião e da Igreja”.

Ambos os lados do debate cometeram o mesmo erro de ver a secularização como “uma espécie de jogo de soma zero”, segundo Habermas, no qual “um lado só pode vencer às custas do outro”. Na verdade, foi sintomático de nossa sociedade “pós-secular”, continuou, que as comunidades religiosas pudessem florescer “em um ambiente progressivamente secularizado”.

Esta observação não é tão original quanto o termo “pós-secular” parece sugerir. Por muitos séculos, as religiões existiram em ambientes cada vez mais seculares. É Habermas e sua nova linha de pensamento que são “pós-seculares”, não as sociedades em si.

Habermas aderiu à religião? Não, ele agora vê sua morte com certo arrependimento: “Quando pecado se tornou culpa e a violação dos mandamentos de Deus uma violação das leis humanas, a humanidade perdeu algo… A esperança perdida da ressurreição deixou um vácuo palpável”.

Afinidades surpreendentes entre razão e religião também vieram à tona entre Habermas, o filósofo da razão, e o cardeal Joseph Ratzinger, no debate entre eles, no Diálogo de Munique de 2004. O atual papa Bento 16 reconheceu que a religião precisava ser colocada sob a “tutela da razão” sempre que ajudasse a legitimar o terrorismo. O secular Habermas, por outro lado, enfatizou a força social e moral das comunidades religiosas como locais onde algo ainda pode ser preservado, mesmo que tenha “se perdido em outras partes: uma sensibilidade em relação a vidas desperdiçadas, patologias sociais e estratégias de vida fracassadas”.

Haberman pede por um jogo de soma positiva, onde os mundos religioso e secular aprendem um com o outro a beneficiar a humanidade. Na época incerta da globalização, esta reconciliação pode ser a única esperança de coexistência pacífica. Uma coisa é certa: por mais estranhos parceiros que sejam, fé, razão e dúvida terão que tolerar uns aos outros ainda por muito tempo.

Fonte: Der Spiegel