O ressurgimento do reverendo Jeremiah Wright (à dir.) se transformou no calcanhar de Aquiles do senador Barak Obama (à esq.) que, ciente dos renovados ataques dos republicanos, decidiu se distanciar de seu ex-líder espiritual.

Em discurso pronunciado na Carolina do Norte, o senador encorajou seus seguidores a permanecer calmos e reduzir ao máximo a “distração” representada pelas aparições públicas, amplamente televisionadas, do reverendo.

Na terça-feira, muito mais enérgico, Obama disse estar indignado com os comentários feitos na segunda-feira pelo pastor, uma figura muito próxima a sua família e quem, há apenas um mês, recusava-se a criticar.

Mas as coisas mudaram desde então. Agora tornou-se mais evidente que nunca que o religioso e seus comentários polêmicos podem chegar a afetar profundamente as aspirações presidenciais do senador por Illinois.

Entre os próprios democratas, o assunto do ex-pastor de Obama se transformou em um forte elemento de divisão. Os eleitores negros acreditam que o senador não é responsável pelo que diz o reverendo de 76 anos.

Para os eleitores brancos, a coisa é bem diferente, pois admitem sentir-se perturbados com a estreita e duradoura relação entre o senador e o pastor, que celebrou o casamento de Obama e batizou suas duas filhas.

Jeremiah Wright se transformou em uma figura polêmica depois que foram divulgados trechos de vários de seus sermões pronunciados há alguns anos, nos quais dizia que os Estados Unidos tinham sido, em parte, culpados pelos atentados de 11 de setembro de 2001 por sua política externa.

Também chegou a sugerir que o Governo tinha inventado o vírus da aids para destruir as “pessoas de cor” e pediu para os negros dizerem a frase: “Deus amaldiçoe a América”, em vez da tradicional “Deus abençoe a América”, para denunciar o racismo ainda existente no país.

Em um editorial publicado hoje, o The Washington Post admite que houve uma mudança radical na atitude de Obama, que, após semanas sem saber qual posicionamento adotar neste tema, afirmou na terça que não reconhecia a pessoa que conheceu há 20 anos.

As declarações de Wright “contradizem tudo o que sou e o que penso”, disse. Para o jornal, o distanciamento do senador é mais que necessário, já que “cada comentário feito pelo reverendo abre uma ferida mais profunda em Obama”.

A má fase do aspirante democrata à Casa Branca abriu novas frentes de ataque do Partido Republicano, que, nos últimos dias, decidiu concentrar toda a sua energia no senador e deixar em paz sua adversária na legenda, Hillary Clinton.

Conscientes de que conta com mais possibilidades de ser eleito candidato democrata, os republicanos gastaram US$ 500 mil em campanhas contra Obama e intensificaram suas críticas por sua relação com o polêmico reverendo.

Esta nova estratégia colocou Hillary em uma posição incômoda, pois está sendo praticamente ignorada pelo Partido Republicano, apesar de seus constantes ataques ao presidente americano, George W. Bush, e ao candidato republicano, John McCain.

Apesar de a ex-primeira-dama ter vencido as primárias da Pensilvânia, o que foi interpretado como uma revitalização de sua campanha, os republicanos enviaram desde então apenas um e-mail com críticas a Hillary, frente a uma bateria de 18 mensagens enviadas contra Obama.

“Hillary venceu as primárias de Pensilvânia, mas Barack Obama continua estando no pelotão de frente e sendo visto como o candidato com mais possibilidades de ganhar a cândidatura democrata”, explicou ao The Politico o diretor da campanha de John McCain, Rick Davis.

Com estas afirmações, parece que para o Partido Republicano a corrida pela candidatura democrata já terminou, algo com o que não concorda a senadora, que insiste em seguir na luta até que acabem as primárias.

Uma de suas novas armas é, exatamente, a polêmica reaparição do reverendo, que lhe deu novos argumentos para convencer os superdelegados de que ela, e não Obama, é a mais apta a vencer McCain nas eleições de 4 de novembro.

Fonte: EFE