À frente da terceira maior diocese católica do mundo, o gaúcho Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, diz que impedir a Igreja de debater aborto e células-tronco fere a Constituição.

Nomeado pelo próprio Bento XVI, o novo arcebispo de São Paulo foi um dos dirigentes da reunião da Conferência-Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe (Celam) realizada em Aparecida.

Como o papa, dom Odilo quer uma Igreja mais atuante na vida pública. E vê no debate sobre o Estado laico uma distorção que ameaça a liberdade religiosa. “Os que têm fé religiosa não podem ser tratados como cidadãos de segunda classe.”

Quais serão os frutos da visita do papa Bento XVI ao Brasil?

É difícil quantificar ou tipificar esses frutos. São mudanças que se produzem de maneira sutil nos comportamentos, nas reações e nas convicções. E o papa não se dirigiu somente à Igreja, ele se dirigiu à sociedade, se dirigiu ao Brasil. E disse palavras que devem permanecer como referenciais para a sociedade: o valor da família e da vida humana, valores de justiça social, a honestidade na vida pública.

As reuniões da Celam sempre marcaram mudanças na Igreja do continente. Ora a Celam ficava mais “progressista”, ora mais “conservadora”. Como foi a reunião de Aparecida em relação a essa divisão da Igreja latino-americana?

Não creio que se possa falar em divisão. É uma palavra muito forte. Tendências, que podem até suscitar tensões, creio que há. Mas isso é do caminho da cultura, do caminho da sociedade e é do caminho da Igreja, também. Tendências diversas podem se somar e constituir uma riqueza de diálogo e de colaboração. Como poucos têm a visão do todo, visões diferentes podem se completar. Creio que vivemos numa época muito mais calma. Deu para perceber isso em Aparecida. O papa não fustigou um lado ou o outro. Ao contrário, aquilo que podia ser, digamos assim, patrimônio da Teologia da Libertação ele integrou. Assim como o patrimônio conservador. Nós estamos na Igreja, que é o nosso espaço comum. Temos uma missão. As metodologias podem ser um pouco diversas, mas a missão a assumir é a mesma.

Como é o sacerdote ideal do século XXI?

O que se espera do padre é que ele tenha alguma coisa a propor. Portanto, uma forte identidade cristã e com a Igreja é necessária. Mas, ao mesmo tempo, uma formação esmerada para entender o que se passa no mundo. É muito exigente ser padre no mundo pós-moderno, que tenta excluir o aspecto religioso da vida pública. A proposta do cristianismo não é simplesmente para a vida privada. Respeitando a diversidade e a pluralidade, ela é uma proposta para a sociedade como um todo.

A Igreja na esfera pública é um dos temas mais caros ao papa, não?

Sim. Sem que a Igreja assuma o papel do Estado. O que se pretende é justamente o respeito à laicidade e à pluralidade. Se o governo é pluralista e laico, não pode impor que a proposta da Igreja Católica deva ser vista como coisa estranha. Ela é parte da cultura, é parte da vida, da sociedade. E, por isso, a Igreja e o papa não vão aceitar ser excluídos. De nossa parte, fazemos questão que o Estado seja laico.

Como o senhor vê o Estado laico?

Não queremos voltar a um Estado religioso nem a um Estado que mande na Igreja. Mas que se entenda bem a laicidade do Estado. Ela não pode ser pretexto para que sejam suprimidas as liberdades religiosas, a liberdade de consciência, a liberdade de expressão. Que, a pretexto de laicidade do Estado, quem de alguma forma professa fé religiosa, seja ela qual for, seja considerado um cidadão de segunda categoria e por isso tenha de ficar quieto e não se manifeste. A Constituição brasileira diz que o Estado não tem uma religião. Portanto, ele não privilegia uma religião, mas respeita as propostas e as idéias religiosas dos cidadãos. O Estado é laico, mas a sociedade não é. A grande maioria dos brasileiros professa uma fé religiosa. Não se deve confundir Estado com sociedade. Me parece que no Brasil se pretende que o Estado substitua a sociedade. Essa discussão tem de ser mais bem colocada.

O papa tem usado a Igreja da Itália como exemplo. Quando se discutiu a Lei de Reprodução Assistida, a Conferência Episcopal Italiana (CEI) se posicionou contra. Agora, na discussão da legislação sobre parceria civil, que pode englobar o casamento de homossexuais, ele quer de novo a Conferência se manifestando. A CNBB tem isso em mente nas discussões sobre o aborto ou sobre pesquisas com células-tronco?

A CNBB tem se manifestado e continuará sempre a se manifestar e pensar nessas questões que são para todos. A Igreja, enquanto representada na Conferência Episcopal, mas também pelos cidadãos católicos, bispos e leigos, continuará a se manifestar.

E ações mais diretas? Na Itália, a Lei de Reprodução Assistida foi posta em plebiscito. A CEI aconselhou os católicos a não votar, e o plebiscito não teve quórum. Como o senhor vê essas ações?

Se for o momento, acho que é viável. Qualquer organização na sociedade poderia promover seu modo de ver as coisas. Por que a Igreja não deveria colocar em público sua posição e convocar as pessoas que compartilham essa posição a se manifestar?

O senhor falou não só da autoridade da Igreja, mas da dos cidadãos católicos. No Brasil não há certa apatia dos católicos?

Temos de trabalhar muito para que haja católicos bem formados em todos os âmbitos da vida pública. Sem medo, com suas convicções muito claras. Por outro lado, aqui no Brasil a Igreja Católica não tem agora a orientação de formar um Partido Católico, um sindicato católico. Isso, num tempo, foi feito, mas no momento não é essa a orientação da Igreja. Temos a convicção de que os católicos devem estar presentes em todas as frentes partidárias, contanto que elas não se oponham à proposta da fé e à proposta da moral católica.

Nesse sentido foi um erro o envolvimento da Igreja com o PT?

Isso confirma justamente a convicção da Igreja de que não deve abraçar um partido. Da mesma forma ela nunca deve se apresentar como um partido. A Igreja deve permanecer como uma instância ética, como instância referencial que deve inspirar os partidos. A doutrina social da Igreja pode inspirar os partidos que queiram compartilhar as convicções da Igreja. Porém, nenhum partido se identifica com a doutrina social da Igreja. Eles são propostas históricas que, muitas vezes, em sua origem, estão animadas por um grande idealismo. Depois, isso se desvirtua. Prevalece a busca do poder.

Foi o que aconteceu com o PT?

Certamente. A história do PT começa na época da ditadura. O PT propunha as liberdades democráticas, se propunha a ser a voz do mundo do operário, dos trabalhadores, propunha-se como uma proposta de justiça social. Ora, tudo isso é muito bom. Depois, quando vai aos instrumentos para a conquista do poder e ainda mais quando se consegue o poder, você tem de administrar por meio de busca de alianças, muitas vezes por meio de concessões, aí os ideais ficam de lado. Isso explica muitas desilusões em relação ao PT, que não realizou aquilo que prometia. E que se deixou levar até mesmo pelos crimes de corrupção.

Fonte: Época Online