Pela primeira vez, a OMS (Organização Mundial da Saúde) admitiu que o risco de uma epidemia global de Aids entre os heterossexuais não existe mais e que as estratégias de prevenção promovidas pelas principais organizações de combate à doença podem ter sido mal focadas.

As declarações foram feitas pelo epidemiologista Kevin de Cock, chefe do departamento de HIV/Aids da OMS, ao jornal britânico “Independent” anteontem. No mesmo dia, seu antecessor, James Chin, afirmou que a OMS tem “sistematicamente exagerado” as projeções da epidemia entre os heterossexuais e desperdiçado recursos em educação voltada para o público jovem, sem grandes riscos de infecção.

Os discursos surpreenderam as entidades brasileiras de apoio aos portadores de HIV/ Aids. Os ativistas avaliam que as declarações são equivocadas, não levam em conta as diferenças regionais da doença e que podem levar governos e população a diminuir as ações de prevenção, o que seria catastrófico para o controle da doença.

Segundo Kevin de Cock, a percepção da ameaça representada pelo vírus HIV mudou. Enquanto antes era considerado um risco para populações de todo o mundo, reconhece-se hoje que, fora da África sub-saariana, o vírus ficou confinado a grupos de alto risco -homossexuais masculinos, usuários de drogas injetáveis, prostitutas e seus clientes.

“É improvável que ocorra uma epidemia entre heterossexuais em outros países. Há dez anos, muita gente dizia que haveria uma epidemia generalizada na Ásia -a China era o grande receio. Isso não parece provável. Mas precisamos ser cuidadosos. Pode haver pequenos surtos em algumas áreas.”

Problema gravíssimo

Na avaliação do ativista do grupo Pela Vidda de São Paulo, Mário Scheffer, mesmo onde a epidemia está estabilizada -como no Brasil- a Aids continua sendo “um problema gravíssimo de saúde pública”. Há 1,6 milhão de pessoas infectadas na América Latina, das quais 660 mil estão no Brasil.

A transmissão homossexual foi superada pela heterossexual no país. Em 2006, 27,9% dos casos de Aids entre homens se deram por transmissão homossexual, contra 42,6% de transmissão heterossexual.

Scheffer admite que em “alguns locais e em algumas situações”, os números da Aids entre os heterossexuais podem ter sido superdimensionados, mas não é o caso do Brasil. “Aqui a doença avançou muito, especialmente entre as mulheres.”

Rodrigo de Souza Pinheiro, presidente do fórum de ONG/ Aids do Estado de São Paulo, também vê com preocupação as declarações de Cock e de Chin. “Não podemos tirar o foco dos heterossexuais. A Aids continua crescendo entre as mulheres e os idosos”, afirmou.

Desde 1996, a Aids cresceu entre as mulheres brasileiras e ficou estável entre homens, segundo o Ministério da Saúde. Entre as adolescentes de 13 a 19 anos, há 1,6 caso entre as mulheres para cada um entre os homens. Entre as mulheres, 95,7% contraíram o vírus após relação heterossexual.

O ativista Angelo Almeida Lopes, da associação Aliança pela Vida, exemplifica: “Na nossa ONG atendemos 29 mulheres heterossexuais soropositivas, e a fila de espera para mais atendimento é enorme. Vemos um crescente aumento de mulheres contaminadas”.

Para Scheffer, os investimentos globais para conter a Aids continuam sendo insuficientes. “A Aids tem peculiaridades de cada país, de cada região. Declarações desse tipo podem levar à redução dos insuficientes recursos e das ações de prevenção e de assistência.”

A diretora do Programa Nacional de DST e Aids, Mariângela Simão, estava ontem em Nova York, participando de uma reunião internacional sobre Aids, e não foi encontrada para comentar as declarações de Cock e de Chin.

Fonte: Folha de São Paulo