Em aparição pública aos partidários depois de conhecer os resultados das eleições legislativas de domingo, José Rodríguez Zapatero, do Partido Socialista Obrero Espanhol (PSOE), destacou a “vitória clara” e disse que, com ela, os espanhóis “decidiram abrir uma nova etapa sem exasperação”.

O PSOE obteve 43,70% dos votos válidos, o que corresponde a 169 cadeiras no Congresso, cinco mais do que as obtidas na última eleição. O opositor Partido Popular (PP), a segunda força política do país, conseguiu pouco mais de 40% dos votos, com os quais avançou para 154 deputados, seis a mais do que no pleito de 2004.

Apesar das declarações de imparcialidade política de seus porta-vozes, desde o final do ano passado, a começar com uma grande manifestação em Madri “em defesa da família cristã”, a hierarquia católica manifestou oposição ao governo socialista e se alinhou ao Partido Popular.

Nota do episcopado intitulada “Orientação Moral”, emitida no início de fevereiro, exortava os católicos espanhóis a votar em programas “compatíveis com a fé e as exigências da vida cristã”. A nota pedia o “voto responsável” e expressava repulsa às formas “de união que contribuem para desestabilizar” a família tradicional.

Em clara alusão ao partido dirigente, a nota rechaçava explicitamente aquelas opções políticas que defendem a negociação com organizações terroristas, o aborto, a eutanásia ou o casamento homossexual.

Depois de divulgados os resultados das urnas, a primeira vice-presidente do governo, María Teresa Fernández de la Vega, demandou à nova direção da Conferência Episcopal Espanhola uma relação “baseada no respeito e na autonomia” entre as duas instituições.

Na prática, o governo socialista tentou apaziguar a Igreja Católica renunciando a legalizar a eutanásia. Cedeu ante a petição dos colégios religiosos para adaptar a nova matéria “educação para a cidadania” segundo o seu ideário, e pospôs a discussão sobre os acordos bilaterais que regem as relações com o Vaticano desde 1979.

Os privilégios do catolicismo, religião professada por 80% dos espanhóis, refletem-se no extraordinário sustento financeiro que recebe do Estado. Este ano, a Igreja Católica receberá do Estado cerca de 4,3 milhões de euros para financiar sua organização educativa, hospitalar e de caridade. Adicionalmente, a Conferência Episcopal recebe outros 153 milhões para o pagamento de salários de bispos e sacerdotes, valor 34% a mais do registrado em 2006.

Frente a essa situação, as outras confissões legalmente estabelecidas na Espanha terão que repartir apenas 4,5 milhões de euros, com a condição de destiná-los a atuações que não tenham nada a ver com o culto ou o clero.

Fonte: ALC