O portal UOL iniciou uma série de reportagens especiais sobre os jogadores que são considerados os pilares da seleção brasileira que vai à Copa do Mundo em junho. E a série começa com Lúcio, capitão da seleção e jogador evangélico que não nega a sua fé. “A questão é que Deus faz uma diferença muito grande na minha vida”, afirma Lúcio.

Confira a reportagem abaixo:

Pode parecer só teatro para alguns, mas lá dentro do campo quem tem mais autoridade é realmente Lúcio, capitão do Brasil nomeado pelo próprio Dunga, o homem mais poderoso da equipe nacional. “Não tem como não admitir. Pelo que vem acontecendo atualmente, posso dizer que eu sou um dos jogadores mais importantes da seleção brasileira”, diz o zagueiro.

A falta de modéstia do zagueiro tem explicação. Lúcio é praticamente uma extensão de Dunga. O jogador reflete dentro de campo as ideias proclamadas pelo treinador com absoluta nitidez. A dedicação física, o comprometimento com a coletividade, a visão pragmática sobre o futebol moderno e a vida reta são atributos valorizados pelo técnico e seguidos fielmente pelo zagueiro-discípulo.

“Desde 1994, quando a seleção ganhou a Copa, digo que o Dunga é um exemplo para mim. E hoje a relação que tenho com ele é muito boa. Temos o mesmo sentimento pela seleção brasileira. Valorizamos o profissionalismo, o companheirismo…nós nem precisamos falar muito para nos entender.”

Lúcio é o núcleo do bom-mocismo deflagrado em 2006, quando Dunga assumiu o comando da seleção brasileira após a derrocada da extravagante geração do treinador Carlos Alberto Parreira. Terminava ali a era do individualismo burlesco, do sorriso fácil e do comportamento insolente. A prima-dona saía de cena para ser substituída pelo reprimido atleta quartelista, defensor de uma disciplina quase militar.

“Naquela época (Copa de 2006), envolvidos pela situação, não tínhamos como enxergar o oba-oba. Nosso objetivo era ganhar a Copa, mas não tivemos tranqüilidade para isso. Os treinos, por exemplo, pareciam um show. Acho que aprendemos muito com aqueles erros”, explica.

Para a Copa de 2010, o capitão adotou até o discurso sisudo da atual filosofia implantada por Dunga. “O futebol dos dias de hoje tem pouco espaço para o espetáculo. O esporte está veloz, disputado, próximo da perfeição tática. Dribles são importantes, mas servem apenas para dar um toque diferenciado a uma equipe.”

Mas quem observa o carrancudo Lúcio, um homem que beira 1,90 metro de altura e tem mais de 80 quilos, não imagina que por trás desta silhueta pesada existe uma pessoa serena e doce. Entrevistá-lo é como ter uma prosa com o avô no banco da praça. Para cada pergunta, Lúcio tem uma resposta pausada, reflexiva, intercalada por um sorriso e um olhar distante.

“Tem momentos que sinto falta da amizade do Brasil. Sinto saudades da minha mãe, dos irmãos, dos amigos. No geral, é isso que me faz falta. Quando cheguei à Europa (em 2001, para defender o Bayer Leverkusen), sofri. Tinha horas que eu só pensava em ir embora, voltar para casa. Era uma tortura! Sonhava com as férias para ter como retornar ao Brasil. Hoje, estou acostumado, gosto da minha vida aqui.”

Nascido em Brasília, Lúcio iniciou sua carreira no Planaltina-DF, em 1995, mas foi transferido ao Internacional-RS em 1998. Em pouco tempo, ganhou projeção, virou ídolo e zagueiro referencial. Em 2001, foi para a Alemanha, onde viveu até 2009 e defendeu dois clubes: Bayer Leverkusen (até 2004) e Bayern de Munique. No ano passado, após ter sido surpreendido com a dispensa do Bayern, acertou com a Inter de Milão.

“Quando penso no clima, posso dizer que a Itália é um sonho perto da Alemanha. Lá fazia um frio terrível. Lembro que quando cheguei em Leverkusen e vi o dia ensolarado pela janela, achei que poderia sair na rua só com uma camiseta. Eu fiz isso. Quando deixei o apartamento, não pude suportar! Voltei correndo para colocar mais roupas.”

Em Milão, Lúcio aparenta estar mais à vontade. Abdicou dos intérpretes que mantinha em Berlim e se esforça para compreender a língua italiana. Mora próximo do estádio San Siro, em uma região arborizada, e frequentemente acompanha seus filhos, Vitória (12 anos), João Vitor (8) e Valentina (3), até um parque ao lado de sua residência para vê-los andar de bicicleta. Evita as baladas e, quando sai com a mulher Dione, procura relaxar em um sp com piscinas climatizadas ou jantar, preferencialmente no restaurante nipo-brasileiro Finger’s.

“Gosto também de ficar em casa vendo filmes. Tenho uma ampla coleção de DVDs. Quando vejo os filmes esqueço um pouco do dia-a-dia das concentrações, do futebol, da rotina dos treinos.

Sua casa é um “pedacinho” do Brasil. Lúcio descobriu um mercado que fornece alimentos brasileiros e passou a ser um freguês voraz. Compra arroz, feijão, guaraná e Baton.

“Baton?!”, eu pergunto.

E Lúcio responde: “sim, Baton, aquele chocolate da marca Garoto. Tem um monte de produto brasileiro lá que eu adoro e minha família também. Gosto de sentir que estou mais próximo do Brasil quando fico em casa”

A dedicação à religião evangélica baseia-se atualmente em periódicas conversas com seu pastor e leituras constantes da Bíblia. Os cultos, tradicionalmente realizados aos sábados e domingos, não podem fazer parte do calendário de um jogador de futebol, sempre em campo aos finais de semana.

“As pessoas dão muita ênfase à minha religião. Não vejo um problema em ser evangélico, católico, judeu ou muçulmano. Sou uma pessoa como outra qualquer, que se diverte, passeia e sai com a família. A questão é que Deus faz uma diferença muito grande na minha vida. É algo muito particular e garanto que isso não atrapalha minha carreira como jogador de futebol.”

E quem teria coragem de dizer que atrapalha? Lúcio fez parte do grupo campeão da Copa do Mundo de 2002, marcou o gol que garantiu a vitória na final da Copa das Confederações de 2009 contra os Estados Unidos, levou três títulos do Campeonato Alemão pelo Bayern, além das recentes conquistas da Copa da Itália e o do Campeonato Italiano com a Inter de Milão.

“Estou preocupado em fazer o melhor e passar uma boa imagem. Acho importante jogar limpo, não ser desleal em campo. Tento passar essa mensagem não só para meus companheiros de equipe como também para meus adversários.”

Fonte: UOL