O padre Cícero Romão Batista nunca fica de fora da campanha eleitoral em Juazeiro do Norte, interior do Ceará. De maneira recorrente na disputa pela prefeitura da pequena cidade de 240 mil habitantes, a 600 quilômetros de Fortaleza, no sertão do Nordeste, os candidatos encontram uma maneira de mostrar a seus eleitores que são devotos e prestam reverência ao homem que nunca teve a simpatia do Vaticano, mas é considerado um santo para os nordestinos.

A lógica se repete na eleição deste ano, mas os contornos radicais levaram a Justiça Eleitoral a proibir qualquer citação religiosa pelos candidatos que disputam a cadeira de prefeito que um dia já foi ocupada por Padre Cícero por 12 anos a partir de 1911, ano de emancipação da cidade.

Quem está contra a parede na eleição deste ano é o petista Manoel Santana. Ele está sendo acusado de ser evangélico e de renegar os ensinamentos do “Padim Ciço”, como o padre é conhecido entre os fiéis num dos principais centros de peregrinação do catolicismo brasileiro. Perguntado se é mesmo evangélico, o candidato prefere não confirmar nem desmentir.

“Estão dizendo que sou contra Padre Cícero e que, se eleito, vou pintar a estátua dele de vermelho”, diz o petista. A estátua em questão é uma obra de 27 metros de altura que atrai milhares de romeiros em peregrinação todos os anos. Santana acusa seus adversários Carlos Cruz (PP) e Manoel Saviano (PSDB) de se unirem nessa estratégia que ele considera caluniosa. “Fazem isso porque estou na liderança”, afirma o candidato do PT.

A confusão já chegou ao gabinete do juiz eleitoral de Juazeiro, Ademar da Silva Lima, que proibiu qualquer referência a religião na campanha. No despacho, o juiz explicou que “usar essa religiosidade para colocar o povo contra um candidato traduz-se em forma vil de fazer política, infringindo todos os princípios, quer éticos, quer os estampados na legislação eleitoral.”

O juiz tomou a decisão após o pedido da coligação Vitória do Povo, que representa Manoel Santana, mas teve que anular seu parecer porque os representantes legais do candidato do PT apresentaram à Justiça uma solicitação com erros técnicos. O assunto deve voltar a ser discutido até a eleição. “É lamentável que alguns candidatos não foquem suas campanhas em discussões pertinentes às necessidades da população do município”, comenta o juiz.

“Não vou distorcer as coisas. Prefiro uma campanha limpa, sem falar sobre religião. Tem candidato que já passou pela prefeitura e nem concluiu as obras do Centro de Apoio aos Romeiros”, diz Santana em referência a Manoel Salviano – prefeito de Juazeiro na década de 80 e entre 1993 e 1996 – e Carlos Cruz, que ocupou o mesmo cargo entre 2001 e 2004. A assessoria de Carlos Cruz limitou-se a dizer que ele faz uma campanha “limpa”.

Fonte: Último Segundo