Uma funcionária pública decidiu processar o padre Alberto Ribeiro Morgado que realizou seu casamento em maio deste ano ao descobrir que a cerimônia não tinha validade para a Igreja Católica. O padre está impedido de rezar missas, batizados e casamentos.

O evento foi considerado duplamente irregular, primeiro porque foi realizado em uma casa de festas, o que não é autorizado pela Igreja em algumas cidades, como Rio, Niterói e Nova Friburgo. Segundo porque o padre não tinha autorização para atuar fora de sua paróquia.

Ele já havia sido punido em 2002 e ficou impedido de rezar missas, batizados e casamentos. Em 2005 recebeu uma autorização especial, mas vem desobedecendo seus superiores. Há um inquérito aberto na 6ª Delegacia de Polícia para apurar as denúncias.

‘Meu casamento virou um pesadelo. O padre atrasou uma hora e meia, período em que passei chorando, com 150 convidados esperando. E depois descobri que a cerimônia não tem valor’, desabafou a funcionária pública Roberta Ferreira di Fazio, de 30 anos. Ela e o técnico em telecomunicações Luís Gustavo Lobato Gageiro, de 34 anos, haviam sido informados de que o padre era o único que tinha autorização do Vaticano para fazer as cerimônias em salões porque é tetraplégico. ‘Esse dinheiro o ajudaria no tratamento. Quando descobri que isso era mentira, me senti ainda mais lesada’, disse a noiva.

A verdade só veio à tona porque uma amiga de Roberta comentou com outro padre o inusitado atraso de Morgado. ‘Ele, então, disse que o casamento realizado por padre Alberto não tem registro na Cúria, e que vinha sendo procurado por vários casais que tinham de convalidar o casamento’, contou ela, que terá de casar novamente, dessa vez na igreja.

Roberta começou a procurar pessoas em situação semelhante. Chegou a José Antônio Amador Júnior, de 30 anos, e Clarisse Pacheco Amador, de 29. ‘Minha mulher queria casar na igreja em que os pais se casaram. Fomos recebidos por padre Alberto, e ao contratar o músico, ele nos avisou que o padre estava suspenso’, contou Amador Júnior, que é advogado.

‘Processamos a Capela da Pequena Cruzada e ganhamos em segunda instância.’ O local esteve fechado por 18 anos e reabriu, com Morgado à frente, como ‘capela ecumênica’, sem ligação com a Igreja Católica. ‘Ninguém nos avisou que a capela não era reconhecida pela Igreja’, disse Amador Júnior. ‘Tem uma fila de casais nessa situação’, disse. A Polícia Civil confirmou a existência do inquérito, mas a delegada responsável não atendeu a reportagem.

‘É difícil acreditar que casos como esses ainda ocorram’, disse o chanceler da Cúria do Rio, padre André Feitosa. ‘Divulgamos um alerta sobre padre Alberto e em todos os cursos de noiva do Rio avisamos que ele está suspenso’.

No mês passado, padre Alberto abençoou a união da atriz Flavia Alessandra com o apresentador Otaviano Costa. Não era uma cerimônia de casamento, pois ela já havia se casado no religioso com o ator e diretor Marcos Paulo.

O bispo de Nova Friburgo, d. Rafael Llano Cifuentes, contou que Morgado foi ‘suspenso de ordem’ em 2002 por fazer cerimônias em clubes, fazendas e salões. ‘Algumas dioceses não admitem casamentos fora da igreja para evitar a banalização do sacramento’, explicou o bispo.

Levando em conta o ‘a boa disposição e o arrependimento’ do padre, d. Rafael autorizou que ele voltasse a atuar ‘unicamente dentro do território da paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Engenho Novo’, na zona norte do Rio. ‘O problema é que ele já não está trabalhando ali. Não se deu bem com o pároco’, contou. ‘Se essa situação se verificar, ele será suspenso de ordens novamente’. O caso será examinado pelo Tribunal Eclesiástico de Niterói.

Padre Alberto alega que só estava rezando

Alberto Ribeiro Morgado, de 52 anos, ficou tetraplégico há 10, ao sofrer um enfarte na medula. Desde então, não foi nomeado para assumir nenhuma paróquia. Passou a realizar cerimônias em salões de festas. ‘No início eu fazia casamentos de raiva. Viraram as costas para mim. Agora não faço mais isso. Só dou a bênção aos noivos que por algum motivo não podem casar na igreja’, disse.

Logo depois se contradisse. Garantiu que avisa os noivos quando a cerimônia é feita num salão que será preciso convalidar o casamento. ‘As pessoas não querem pagar igreja, querem comodismo e depois reclamam. O casamento é uma celebração entre os noivos. O padre é figura representativa. Não entendo por que se sentem lesados. Receberam o sacramento. Só estou rezando. No máximo, cometi uma desobediência.’

Os casais ouvidos pelo Estado disseram que não foram alertados de que teriam de convalidar o casamento nem de que a cerimônia era apenas de uma bênção.

Fonte: Estadão