O sermão da missa de domingo na paróquia de Santa Maria de Tebra, em Vigo (norte da Espanha), se transformou em um pedido de perdão aos fiéis por causa da união do pároco com uma brasileira.

O padre Ernesto Pazos registrou a união com a imigrante Dilma Leite Arruda como “matrimônio de convivência”, para evitar que ela fosse extraditada. “Um gesto cristão”, disse o sacerdote.

A imigrante brasileira trabalha há dez anos como ajudante, doméstica e enfermeira do padre. Mas a licença de residência na Espanha venceu no último dia 6 de outubro.

Pela lei espanhola, Dilma deveria deixar o país se não pudesse renovar a documentação.

O padre Ernesto, de 73 anos, que disse não manter qualquer relação mais íntima com a imigrante brasileira, tentou resolver o problema na Delegacia de Imigração de Vigo, mas ouviu como resposta que só havia duas alternativas. Ou fazia um contrato de trabalho para Dilma ou ela deveria se casar com um espanhol.

Como padres não podem se casar, Pazos registrou a união como matrimônio de convivência, que tem status semelhante ao que se conhece no Brasil como união estável.

União cancelada

Na Espanha, a legislação reconhece a união de um casal que convive junto mesmo sem exigir que a união seja aprovada por um juiz de paz.

No caso de uma separação, por exemplo, o matrimonio de convivência pode ser desfeito sem a necessidade de um divórcio.

“Só fiz isso por um sentimento de humanidade e caridade”, disse o padre. “Nunca pensei em criar um problema, nem este escândalo todo.”

A confusão aumentou porque o Arquidiocese de Vigo ficou sabendo do registro. E o padre Ernesto não só teve que cancelar a união, como foi advertido e teve que pedir perdão na missa de domingo.

A união durou 12 dias e o padre teve que dar explicações aos superiores eclesiásticos. “Disse que era um gesto cristão. Ela me ajuda e eu a ajudaria. Mas não há mais problemas, assim como foi feito, já está desfeito.”

Dilma Arruda Leite, de 56 anos, tem medo de que, sem documentos, tenha que voltar para o Brasil. Mas ela afirma que a atitude do padre deveria ter sido aceita pela Igreja.

“Ele fez uma coisa de coração, só para me ajudar. Não sei que mal pode ter”, disse a brasileira. “O negócio agora é o que vou fazer.”

“Tenho um filho de 37 anos e outra de 27 no Brasil, vivem da minha ajuda e eu não quero ir embora”, acrescentou. “Aqui tenho casa, comida, trabalho e todo mundo me trata bem.”

Contrato

O padre e a brasileira se conheceram há mais de 10 anos. Dilma era recém-chegada e contou que não tinha casa, nem emprego.

O sacerdote acabava de perder os pais e se recuperava de uma cirurgia. Ofereceu à imigrante casa e comida em troca de trabalho. Conseguiram a licença de residência, que agora venceu e não pode ser renovada.

Sobre a possibilidade de fazer um contrato profissional para Dilma, o padre respondeu que não tem como.

“Isso é impossível. Recebo 493 euros por mês e mais 300 euros da Arquidiocese (cerca de R$ 2.062 no total) para atender a três igrejas”, afirmou o sacerdote, que dirige as igrejas do município de Tomiño, em Vigo, há 42 anos.

Fonte: BBC Brasil