Em três meses, ele vendeu 500 mil CDs, mas não é nenhum astro de ritmos pop. É padre, faz música com elementos religiosos, critica a Teologia da Libertação, defende o celibato como sua opção de vida e relata já ter tido seus “namorinhos” antes da ordenação. Ele é o mineiro Fábio de Melo, 37, para quem a música e o sacerdócio são indissociáveis.

“Eu não consigo dissociar a minha vida da música”, diz, para em seguida completar: “Para mim, ser padre é, antes de tudo, um jeito de ser. Tudo aquilo que eu faço é um desdobramento de ser padre”.

Dessa mistura de fé, música e devoção, surgiram 11 CDs, que venderam 1,5 milhão de cópias. Lançado em setembro pela LGK/Som Livre, o último, “Vida”, tem tiragem de 500 mil.

Curiosamente, o padre Fábio de Melo, que toca violão, diz que nunca estudou música. “É só intuição mesmo.”

Mas música e fé tiveram origem familiar. Seu pai “tocava moda de viola” e em sua casa ouvia-se Tom, Chico e Caetano. Ao mesmo tempo, sua família cultivava “uma vida cristã muito ativa” em Formiga (MG).

A banda do seminário

O gosto pela música cresceu quando entrou no seminário, aos 16 anos, em Lavras (MG). Formou com outros seminaristas uma banda que “revolucionou o seminário” e animava as missas. “Isso me incentivou muito a acreditar que o trabalho de padre também poderia estar diretamente ligado a um trabalho musical.”

No seminário, o padre Fábio não era interno. Estudou em colégios e faculdade abertos à comunidade e se ordenou aos 31 anos. É dessa época, antes da ordenação, que ele fala com a maior naturalidade de suas experiências amorosas.

“Tive meus namorinhos, sim. Não tem como amadurecer uma opção pelo celibato sem que você tenha se apaixonado também. Eu não fiquei padre porque não tive opções. Poderia ter construído uma família, mas não foi um desejo meu. Namorei, paquerei muito. Isso faz parte da vida.”

Hoje em dia, ele se diz um celibatário convicto e relata que o assédio que sofre por parte dos fãs é muito mais “virtual [por e-mail] do que real”.

“O celibato está a meu favor. Eu não o vejo como uma restrição, eu o vejo como uma possibilidade. Fazer o trabalho que eu faço, levar a vida que eu levo, só é possível sendo como eu sou, assumindo o celibato como uma proposta de vida.”

O padre-cantor acredita, porém, que a Igreja Católica, no futuro, ordenará homens casados -e o celibato será uma opção que ele não abrirá mão.

Sobre outra questão polêmica da Igreja, a Teologia da Libertação, ele é crítico.

“Ela teve uma contribuição muito grande por abrir um espaço de reflexão, mas, por outro lado, banalizou muito a dimensão do rito e daquilo que é sagrado. Não precisa disso. A vida é sagrada.”

Com mestrado em antropologia teológica e ex-professor universitário, o padre diz: “O Evangelho já me serve. Não preciso de outra ideologia. A postura de Jesus me orienta”.

Ele também rejeita o rótulo de conservador e afirma que o maior desafio da Igreja Católica no Brasil é melhorar sua comunicação: “Temos de qualificar a vida ritual. Dar mais beleza e alegria às nossas celebrações. O rito é muito mecânico”.

É algo a que ele se dedica em seu programa semanal de TV na Canção Nova, em seus livros e em seus shows, cuja renda (excluídos os custos) afirma ser revertida para obras sociais da Igreja ou de outras instituições.

Fará isso também numa nova mídia: seu primeiro DVD será gravado mês que vem no Rio de Janeiro, com renda destinada parcialmente à Sociedade Viva Cazuza e a outra instituição vinculada à Igreja.

O segredo do sucesso, ele conta, está em falar de modo simples ao público. “Faço questão de evangelizar a partir de questões cotidianas. Esse era o fascínio de Jesus. Ele falava de joio, de trigo.”

Com gritos de “lindo”, choro e desmaio, show tem sermões em clima celestial

A sete horas do início do show, uma fila começou a se formar do lado de fora da maior casa de espetáculos de Pernambuco, o Chevrolet Hall. Na calçada, as fãs não eram tão jovens assim. Mulheres maduras eram maioria. A atração também não era nenhum ídolo da música pop. Todas queriam ver o padre-cantor Fábio de Melo.

O show de 29 de novembro, em Olinda, era parte da turnê do CD “Vida”, que passou por 15 cidades do Brasil.

Os portões foram abertos às 18h30, quando a fila já se estendia por 300 m. Padre Fábio, que chegou meia hora antes do show, entrou pelos fundos, enquanto a dupla paraibana Francisco e Rosa Maria cantava para distrair a já ansiosa platéia de 10 mil pessoas.

No camarim, o artista concedeu entrevistas, tirou fotos e autografou CDs. Numa mesa, estavam à sua disposição salgadinhos, pão integral, frutas, sucos, bombons e bolo Pullman sabores laranja e chocolate.

Fábio de Melo entrou no palco às 21h15. Usava um blazer preto aberto, calça jeans e camisa branca. Bem penteado, sem maquiagem, foi recebido com gritos de “lindo”. Ele sorriu e acenou para a multidão.

A fumaça e as luzes sobre ele ajudavam a criar um clima quase celestial. Nas músicas mais emotivas, como “Humano Demais” e “Filho do Céu”, houve choro na platéia. Uma mulher desmaiou e foi socorrida.

Erguei os celulares

Entre uma e outra canção, o padre fez pequenos sermões. Som de piano ao fundo, contou histórias de união, perseverança e fé. Depois, pediu luz aos fiéis: a platéia ergueu os celulares com os displays acesos.

O repertório, quase todo formado por baladas, poderia ser chamado de romântico se não fosse religioso. Fábio de Melo parecia o Fábio Júnior. Além de cantar o hit “Pai”, ele agradeceu os pernambucanos com um “obrigado, Recifêê”.

Com pedidos de “mais um”, padre Fábio cantou mais cinco. Atacou de forró equanto trenzinhos circularam entre as mesas. Saltitando no palco, o artista ainda pediu duas vezes à platéia: “Tira o pé do chão”. O público, que pagou entre R$ 15 (meia-entrada) e R$ 600 (camarote), obedeceu.

A renda do show não foi divulgada. No local, foram vendidos CDs, livros e camisetas do religioso. E foi distribuída ao público a oração para a cura da depressão.

Fonte: Folha de São Paulo