Sacerdote reuniu ontem cerca de 60 pessoas na cerimônia pelo sétimo dia da morte de Ivanildo Raimundo, morador de rua queimado vivo em SP.

Uma bandeira branca, uma cruz feita com galhos de árvore, uma bacia de água, flores, tambores e chocalhos eram alguns dos objetos que estavam no altar da Igreja de Santa Cecília para a celebração da missa de sétimo dia do morador de rua Ivanildo Raimundo, queimado na semana passada em frente da Praça Marechal Deodoro.

Na tarde de ontem, quase dois meses depois de ganhar destaque o caso em que foi vítima de extorsão, um ainda abatido padre Júlio Lancellotti comandou a cerimônia, assistida por cerca de 60 pessoas. ‘Essa morte não pode cair no esquecimento. Ela é tratada pela cidade com descaso, indiferença, omissão e não mobiliza a opinião pública’, disse.

Dando sinais de que tenta retomar a vida pública, o padre criticou os programas da Prefeitura voltados aos moradores de rua. Reclamou da campanha que pede ao cidadão que não dê esmola no Natal, criticou a idéia da atual gestão de estabelecer um contrato para aumentar o controle nos albergues e alfinetou a Lei Cidade Limpa.

‘Não precisamos só de uma cidade limpa. Precisamos de uma cidade que ame as crianças, os pobres e o povo da rua’, afirmou o padre. ‘Amor não se faz por contrato. Amar significa fazer políticas públicas que atendam a essas pessoas.’

Durante a celebração, padre Júlio chamou para o altar o ambulante Luiz Marcos Maciel Silva, de 31 anos, que morou com Ivanildo, para que ele contasse mais sobre o amigo. Ivanildo veio de Brasília. Era caminhoneiro, mas se entregou ao álcool e foi morar na rua. Na noite do assassinato, comprou duas garrafas de pinga e bebeu com outro morador de rua. Os dois discutiram e Ivanildo apanhou. Horas depois, o outro voltou para colocar fogo em seu corpo. Foi preso três dias depois.

Padre Júlio acompanhou a vítima ao Hospital das Clínicas. Teve tempo de abençoá-lo. Acompanhou o processo de reconhecimento do corpo, para que não fosse enterrado como indigente. ‘Como os ferimentos impediam Ivanildo de ser enterrado com roupa, enrolaram o corpo dele em um lençol. Lembrei-me de Jesus’, contou.

Depois da celebração, todos caminharam em direção à Rua São Vicente de Paula, onde Ivanildo foi queimado. Ao ser abordado pela reportagem, padre Júlio manteve-se na defensiva. Disse que apenas os advogados falariam sobre o inquérito. E perguntou se o jornalista também havia feito plantão na porta da casa dele. ‘Foi horrível. Tiravam fotos de minha conta de água, subiram nos muros. Isso ainda será tema de discussão sobre a ética da imprensa.’ Ao chegar ao local, o grupo acendeu uma vela e colocou uma cruz em memória de Ivanildo.

Fonte: Estadão