A novela das seis, “Desejo Proibido”, da Globo, estrelada por Murilo Rosa e Fernanda Vasconcellos (foto), lançada há duas semanas, mostra a história de um padre, interpretado por Murilo, em dúvida sobre a vocação, que se apaixona por uma estudante, interpretada por Fernanda.

Domingo, dia de missa na Paróquia São Judas Tadeu, na Zona Sul da Capital de São Paulo. Padre Augusto César Pereira dá um recado aos fiéis, até então inédito no sermão: “Amanhã, segunda, vai estrear uma novela com um sacerdote como protagonista”. E pede para a comunidade ficar de olho na trama e no personagem, para conferir como serão retratados na televisão.

O religioso falava sobre a novela das seis, “Desejo Proibido”, da Globo, estrelada por Miguel (Murilo Rosa), lançada há duas semanas. A história mostra um padre em dúvida sobre a vocação, enviado à fictícia cidade mineira de Passaperto para investigar supostos milagres da Virgem de Pedra, abrigada em uma gruta. Durante a viagem ao município, o mocinho conhece Laura (Fernanda Vasconcellos) e se apaixona pela estudante. Mais um problema a resolver.

O folhetim foi aprovado pelo padre da vida real e pelos católicos da paróquia. Pelo menos por enquanto, é bom avisar. A Igreja e os seguidores estão de olho no folhetim e prontos a reclamar em caso de descontentamento. “A novela trata da perseverança de um padre, que luta contra um drama pessoal, passa por momentos difíceis e talvez fique em situações comprometedoras. Fala que o padre não é um extraterrestre, que mesmo depois de ordenado está exposto a tudo. O tema é importante se tratado com seriedade”, diz padre Augusto.

Assanhado demais

O sacerdote, contudo, faz uma crítica à performance do “colega de trabalho” na ficção: ele está muito assanhado. “O fato de estar disfarçado (Miguel circula sem batina) não significa que está livre das obrigações. Ele deu abertura demais à menina, deveria ser mais contido. E tem um ar sedutor, um padre não pode ser galã. De batina ou não, tem um comportamento diferente dos demais (homens). A gente sai na rua sem a batina, mas as pessoas pensam ‘esse fulano deve ser padre’ Pode ser alguma coisa no nariz, na testa, sei lá, que denuncia (risos).”

Padre Juarez de Castro, da Arquidiocese de São Paulo, diz que “por enquanto, não há desrespeito”. Argumenta, porém, que os próximos capítulos podem dar o que falar. “Caso comece um romance, é necessário se revelar para os dois lados. Chegar à Igreja e dizer ‘estou em dúvida, quero deixar o sacerdócio’. E, com a menina, precisa ser honesto e falar ‘sou padre’.”

Ele admite que a discussão sobre o celibato é saudável – apesar de a questão ser tratada pelas autoridades religiosas como assunto encerrado -, mas alerta que não deve ser banalizada. Beijar a mocinha trajado com a batina ou mesmo com a peça no armário, nem pensar. Tampouco começar a pregar contra o sacerdócio, de acordo com padre Juarez. “Uma das coisas que constituem a Ordem é o celibato, isso é lei. Para ser padre, não pode namorar, ter esposa. Quem fizer isso está destoando, descumprindo promessa.”

Três dias com 25 monges

Mesmo assim, largar a batina atualmente não é um ato considerado tão grave quanto era na década de 1930, época em que se passa a trama. “Era um caso gravíssimo naquele tempo, o padre que deixava (a batina) era chamado de apóstata, que é aquele que renega a fé. Deixar o celibato hoje é mais tranqüilo por conta da modernidade do mundo”, explica o religioso.

A Globo se cercou de cuidados para evitar polêmica com a religião. O autor Walther Negrão convocou dois padres de São Paulo para avaliar como poderia pisar no “território” sem agredir. Além disso, o ator Murilo Rosa conheceu a rotina de religiosos em Curitiba e no Rio de Janeiro para compor Miguel.

“Fiquei três dias em um mosteiro, com 25 monges, em Curitiba. Foi importante para entender um pouco desse universo. Acordava às 2h30 porque a primeira missa era às 3h. Depois, fui para um seminário e fiquei dois dias com os aspirantes a padre, no Rio.”

Segunda retranca

Walter Negrão pediu “assessoria” para amigos padres

Padre César Teixeira e padre José Carlos Freitas Spínola, da Paróquia São João Maria Vianney, conhecem o autor Walther Negrão há mais de uma década. Assim, quando receberam o convite do novelista para prestar consultoria à trama de “Desejo Proibido”, estenderam a mão ao amigo.

O trabalho da dupla foi explicar ao autor e aos seus colaboradores como a Igreja Católica e os padres se comportavam na década de 1930, cenário da novela. Também tiveram a missão de deixar claro o que poderia entrar em cena e o que não poderia ser levado ao ar, para não agredir o catolicismo e os seus seguidores.

Padre César conta que ficou com a sensação de dever cumprido assim que viu os primeiros capítulos da trama das seis da Globo. “Nós demos o contexto da Igreja nos anos 30, que refletia sobre a sua abertura para o mundo. Também tivemos um encontro com os atores (do elenco), para falar como era o padre daquela época, como ele procedia na missa. Ajudamos Walther a não fugir da realidade, a não ser muito fantasioso.”

‘O padre é uma pessoa livre’

Os consultores ainda pregaram que deixar a batina não é condenável, mas o processo exige cuidados. “É uma dúvida comum, humana. Quanto mais humanos somos, mais divinos nos tornamos”, discursa. “O padre é uma pessoa livre, mas se quiser deixar a batina tem de ser livre e consciente. Precisa passar por um processo de desligamento canônico para se casar.”

Os dois também aconselharam que o protagonista interpretado por Murilo Rosa não fosse apenas um religioso dividido entre a vocação e a paixão por uma mulher. “O padre não poderia servir somente como objeto sexual, isso agrediria a fé do povo. Pedimos ao autor que mostrasse o esforço do personagem para continuar padre, o engajamento com seu povo e o interesse em proteger os interesses da comunidade.”

Murilo Rosa também procurou a bênção dos dois consultores. Então foi orientado a buscar inspiração em um mosteiro e um seminário Para completar a via sacra, os religiosos sugeriram um acessório ao figurino do personagem. “Ele perguntou se seria bom usar um crucifixo, dissemos que seria ótimo.”

Tudo pronto para a estréia do folhetim? Quase. Os padres fizeram restrições ao enredo da Virgem de Pedra. O argumento de “Desejo Proibido” apontava que ela era considerada santa, mas não explicava por que razão. “Eles não sabiam o que poderia dar à santa o título de santa. Se é santa é porque foi canonizada, recebeu o mérito da Igreja por dois ou três milagres que fez. A novela não podia criar a santa do nada.”

E a vigília continua

O trabalho de padre César e de padre José Carlos chegou ao fim quando as dúvidas da equipe acabaram. Porém eles prometem ficar de olho nos próximos capítulos. “Até agora, não vi nada que escandalizasse. Mas, se surgir algo tendencioso, iremos a ele (o autor) para falar sobre o caso. Temos liberdade para isso.”

Fonte: Bem Paraná