O Vaticano estimula, os evangélicos aprovam, os fiéis gostam. A crescente adesão ao movimento conhecido por igreja em casa é a prova de que lugar de oração não é só no templo. O movimento abrange católicos e evangélicos, que veem nessas reuniões uma forma de incentivar as relações pessoais e, ao mesmo tempo, conquistar novos adeptos.

“Cada vez mais, o Vaticano tem produzido documentos estimulando a igreja a ir até as casas”, afirma a socióloga especializada em religião Sílvia Regina Alves Fernandes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

O importante é o encontro domiciliar. Mas cabe a cada grupo deliberar como isso será feito. Em cidades do interior, por exemplo, é comum o padre levar a hóstia até a residência dos fiéis. Nas metrópoles nem sempre há a comunhão. “As igrejas em casa estão se multiplicando de forma surpreendente. Hoje existem centenas só na cidade do Rio”, constata Suelly Vasconcelos, conselheira do setor cultural da Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Um dos mais tradicionais grupos de oração do Rio é organizado por uma representante da alta sociedade, a paulista Glória Severiano Ribeiro, 54 anos, da cadeia de cinemas Severiano Ribeiro. Ela reúne cerca de 50 amigas em sua casa, duas vezes por mês, com a presença do padre Marcos Antônio Duarte, da paróquia de São Conrado. O grupo faz orações diante da imagem de Nossa Senhora das Graças e o sacerdote lê um trecho da “Bíblia” para reflexão. Segundo Glória, o encontro é uma forma de compartilhar a oração. “Eu já rezava sozinha, então pensei: por que não juntar mais gente?”, diz. De seu grupo também nasceram iniciativas de solidariedade. “Fazemos trabalhos sociais e difundimos as campanhas da igreja”, conta.

Na paróquia São Benedito, no bairro do Jaçanã, na zona norte de São Paulo, o padre Juarez Murialdo Dalan lançou, há um ano e meio, os chamados “encontros em células”. São reuniões semanais de 12 fiéis – como os apóstolos que se encontram nas residências para orar e conversar sobre suas ações. A experiência frutificou – hoje os grupos já são 13. “A ideia da célula é a multiplicação”, explica o padre Juarez. Para ele, uma das maiores vantagens da igreja nos lares é o ambiente.

“Em um pequeno grupo, todos têm a oportunidade de dizer quem são, o que fazem, como podem dar e receber apoio”, diz. Depois da oração, os fiéis discutem um tema e falam sobre o que fizeram na semana para difundir a fé em Jesus Cristo. Entre os evangélicos, também se multiplicam os cultos nos lares. Em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, o pastor pentecostal Diego Martinez faz cultos residenciais e supervisiona encontros semanais com grupos de dez a 40 pessoas, que celebram a Santa Ceia com pão e suco.

“Um dos participantes abençoa o pão e o reparte entre todos os que já foram batizados”, explica. No Rio, o pastor evangélico pentecostal Osias Rocha Matos promove cultos estritamente residenciais e adota o nome “igreja sem templos”. Ao todo, já são 400 fiéis. “Não cremos que a igreja tenha que ter uma sede”, diz o pastor. “O objetivo maior é fazer discípulos.” Segundo o sociólogo Clemir Fernandes Silva, pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (Iser), no Rio, “essa é uma tentativa de resgatar os espaços menores porque nos megatemplos as pessoas não conseguem se encontrar.”

A ideia foi crescendo e algumas igrejas até inseriram a metodologia de células no nome, como a Igreja Celular Internacional. “É uma proposta que produz crescimento muito rápido”, explica o sociólogo. A igreja em células também é usada por novos movimentos leigos dentro do catolicismo – missionários que querem ter uma vivência intensa, mas sem adotar a vida religiosa. Um exemplo é a Comunidade Fanuel, em Santo André, na região metropolitana de São Paulo. O grupo adotou, há dois anos, o modelo de células e hoje já são 30 com cerca de 12 membros cada.

Os encontros nas residências, de uma hora e meia, são informais e sem a presença de um padre – só de missionários. Também não há santo, vela ou crucifixo. Começam sempre com uma refeição, a partir da qual surgem debates e orações. “Ao mesmo tempo que as reuniões respondem às necessidades dos participantes, também atraem quem está de fora”, diz o missionário César Machado Lima. Uma vez por mês, é feita uma prestação de contas ao padre e ao bispo da localidade. Assim como o alto comando de Roma, os relatórios são aprovados e incentivados. Afinal, a pregação básica é: a Igreja deve ir onde o povo está.

COMO NO PRINCÍPIO

Com os cultos realizados em casa, católicos e evangélicos retomam uma prática que remonta às origens do cristianismo. Até 310 d.C., antes da construção dos templos, era nas casas dos fiéis que a palavra de Cristo era difundida. Jesus costumava pregar na morada de seus seguidores, entre outros motivos, para evitar a perseguição da qual era vítima. Seus discípulos continuaram a usar esse expediente até o século IV, quando o cristianismo foi finalmente reconhecido pelo Império Romano. Francisco Alves Filho

Fonte: Revista Isto É