Além dos padres, membros de irmandades da Igreja Católica e funcionários de pelo menos seis funerárias são suspeitos de envolvimento no esquema no cemitério em Recife.

Um esquema de venda ilegal de túmulos no Cemitério de Santo Amaro, no Recife, está sendo investigado pela Polícia Civil. Padres, membros de irmandades da Igreja Católica e funcionários de pelo menos seis funerárias são suspeitos de envolvimento na comercialização dos espaços, pertencentes às irmandades, a preços que variam entre R$ 500 e R$ 800. Oito vítimas já prestaram depoimento. O Ministério Público de Pernambuco também está acompanhando o caso.

O vigário-geral da Arquidiocese de Olinda e Recife, monsenhor Albérico de Almeida, foi ouvido como testemunha. Ele confirmou que há irmandades proibidas, pelo próprio estatuto criados por elas, de vender ou alugar túmulos. “A polícia precisa apurar e saber o que diz em cada estatuto das irmandades”, pontuou. As denúncias começaram a ser investigadas há três meses. Pelo menos três padres são suspeitos de participação do esquema por terem autorizado a venda dos túmulos.

À polícia, as vítimas relataram que, ao procurarem funerárias próximas ao cemitério, foram abordadas por funcionários que alegaram falta de vagas. Mostrando-se solidários, porém, eles afirmaram que tentariam conseguir algum túmulos e pediram um telefone para contato. Pouco tempo depois, as vítimas receberam telefonemas, que informaram que elas poderiam adquirir uma das vagas que pertence às irmandades católicas. Para isso, precisariam pagar a taxa de R$ 38,80 à prefeitura e até R$ 800 em dinheiro à vista. No inquérito ainda consta que um suposto padre também seria indicado aos familiares para o velório por R$ 100.

“Essas pessoas se aproveitam da fragilidade daqueles que perderam um parente e aplicam o golpe”, disse o delegado da Boa Vista, Adelson Barbosa, responsável pelo inquérito. Os nomes das funerárias investigadas estão sendo mantidos em sigilo pela polícia. Entre as vítimas estão um médico e um professor universitário. “Ainda não vamos divulgar o número de envolvidos, porque eles ainda estão sendo intimados a depor”, completou o delegado.

Os suspeitos podem ser indiciados por crime contra a economia popular, cuja pena é de até dois anos de detenção, e por estelionato, que pode somar mais cinco anos de reclusão. Este último é referente às notas fiscais falsas entregues após o pagamento dos túmulos. Em ambos os crimes estão previstos ainda pagamentos de multas, cujo valor é arbitrado pela Justiça.

A Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), responsável pela administração do Cemitério de Santo Amaro, afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que iria aguardar o resultado das investigações para se pronunciar sobre o caso.

[b]Entrevista com o monsenhor Albérico de Almeida, vigário-geral da Arquidiocese de Olinda e Recife[/b]

Qual a ligação das irmandades junto à Igreja Católica?

Elas fazem parte da igreja, mas são instituições próprias. São autônomas. Elas podem possuir patrimônios e administrá-los. Agora, quando há necessidade, a igreja pode intervir, porque os bens de uma associação religiosa passam a ser bens da igreja e, no caso, administrado pela autoridade do bispo.

A Arquidiocese fiscaliza as irmandades?

Não. Elas próprias devem ter o seu conselho fiscal. Cada uma tem estatuto próprio. Só fazemos uma intervenção se for necessário.

Como a denúncia de venda de túmulos chegou à Arquidiocese?

A delegacia (da Boa Vista) me procurou. O delegado me ouviu. Membros das irmandades também estão sendo chamados pela polícia. Se comprovadas as denúncias, a Arquidiocese vai tomar as providências. Podemos nomear um interventor para fiscalizar e administrar a instituição.

Qual a posição da Arquidiocese em relação ao caso?

Somos a favor da investigação. Algumas irmandades não podem vender túmulos, nem alugar. Outras sim. Vamos acompanhar o resultado do inquérito.

[b]Fonte: Diário de Pernambuco[/b]