Um integrante do alto escalão de uma das maiores congregações religiosas católicas em todo mundo disse à BBC Brasil, em Roma, que o Vaticano está tendo dificuldades para preencher postos-chave da Igreja no Brasil devido à recusa de padres em subir na hierarquia da instituição.

Esse padres preferem permanecer em suas paróquias do que assumir um cargo que os obrigue a seguir à risca as ordens e orientações do Vaticano.

“Muitos padres não estão dispostos a fazer o que o Vaticano considera como necessário. Preferem manter o trabalho nas paróquias, junto com a comunidade, em vez de ter de assinar o juramento de fidelidade como bispo de uma diocese”, disse.

Segundo essa autoridade, presbíteros competentes, bem preparados e prontos para ascender têm respondido com um não na hora em que são convidados para assumir o posto de relevância na hierarquia da Igreja brasileira.

Desde que assumiu como pontífice, em abril de 2005, Bento 16 nomeou 33 bispos no país, renovando em pouco mais de 7% o episcopado brasileiro. Mas 13 dioceses e uma arquidiocese continuam sem bispos e arcebispo.

Em outros países, segundo dados do Vaticano, os números de postos vagos é bem menor. Nos Estados Unidos e Canadá, 8 dioceses estão sem comando. Na Itália, cinco, na Alemanha, 4, na Argentina, 2. Países como a Venezuela, o Peru, o Chile, a Bolívia e a França não têm nenhuma diocese sem bispo.

Idade avançada

O comando das dioceses precisa ser renovado em função da morte, aposentaria ou transferência de bispos. Algumas, esperam por uma nomeação há mais de um ano.

“O mais escandaloso é ter diocese sem bispo por mais de um ano”, disse um padre brasileiro, que pediu para não ser identificado.

Além das 14 à espera de nomeações, em breve, outras dioceses enfrentarão o mesmo problema. São 22 os bispos brasileiros na ativa que estão próximos ou superaram a idade limite de 75 anos para requerer o afastamento: nove estão com 74 anos e 13, com 75 anos ou mais.

“Grandes mudanças estão por vir nos próximos cinco anos”, diz D. Anuar Battisti, arcebispo de Maringá e responsável pela Comissão para os Ministérios Ordenados e Vida Consagrada da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “Aqui no Paraná, por exemplo, a idade média dos 28 bispos é de 70 anos.”

Liberdade

D. Lélis Lara, bispo emérito da diocese de Itabira-Coronel Fabriciano (MG) e assessor jurídico de direito canônico da CNBB, admite que o problema existe e explica que as nomeações envolvem um processo lento e sigiloso.

“Naturalmente, ele (o padre) não vai recusar sem uma motivação”, afirma. “Ele deve ter suas razões para não aceitar o episcopado.”

Segundo D. Lélis, um bispo tem mais obrigações com a Santa Sé, diferente de um padre, que pode agir mais livremente na pastoral.

“O bispo deverá ser responsável pelo cumprimento das orientações do Vaticano”, disse D. Lélis. “É possível que um padre não queira ser desleal com a Santa Sé e prefira não assumir o cargo.”

Perfil

A negativa de alguns padres em aceitar a linha vista como conservadora do Vaticano, não é o único motivo para as dioceses ficarem sem bispos.

Segundo Fernando Altemeyer Júnior, teólogo e ouvidor da PUC-SP, há outras razões, entre elas a recusa não do padre, mas do próprio Vaticano.

“A Cúria Romana seleciona candidatos que se encaixam no perfil determinado”, diz Altemeyer. “Não nomeará um bispo que não cumpra com as orientações.”

De acordo com o arcebispo de Maringá, os critérios são os mesmos da época de João Paulo 2º, que renovou dois terços do episcopado brasileiro e nomeou vários bispos beirando os 70 anos.

Uma diferença no perfil da nova geracão de bispos de Bento 16 é a juventude. Entre os 33 nomeados pelo papa, apenas quatro bispos estão na faixa dos 60 aos 65 anos. Muitos têm entre 40 e 50 anos, sendo que a idade média deles é de 51 anos.

“É um fator positivo que se voltou a nomear bispos mais jovens”, diz José Oscar Beozzo, teólogo e especialista em história eclesiástica da América Latina.

“Durante o período do Concílio Vaticano II, o episcopado do país era extremamente jovem. Em 1965, por exemplo, 60% dos bispos tinham menos de 50 anos. Com João Paulo 2º, tivemos uma avalanche de nomeações de bispos com mais de 60 anos, agravando uma curva que se acentuou no envelhecimento do episcopado brasileiro.”

João Paulo 2º investiu num episcopado mais alinhado ao aspecto espiritual que ao social. Os candidatos eram escolhidos a dedo. Todos com fidelidade total à Cúria Romana.

Como aconteceu na época do papa anterior, com Bento 16 poucos bispos têm posição mais independente. A maioria é fechada com Roma. Simpatizantes da Teologia da Libertação não são nomeados.

“Eles seguem o perfil de bispos seguros, obedientes, num clima de restauração da disciplina”, disse D. Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, crítico da Cúria Romana e defensor da Teologia da Libertação. “Uma Igreja preocupada com a disciplina não vai produzir bispos muito avançados.”

Segundo D. Pedro, a Igreja terá cada vez menos episcopado. “Em vez de pessoas obcecadas pela hierarquia, pelo Vaticano, haverá mais participação das bases. Neste sentido, a Igreja se democratizará mais, com mais colegialidade”, finalizou.

Fonte: BBC Brasil