Para Machado de Assis, era uma “mulher de vida airada” ou uma “mulher pública”. Na tradução apresentada a crianças de 10 a 12 anos de um colégio particular em São Paulo, é, sem rodeios: “prostituta”. A edição de “Oliver Twist” usada pelo colégio Magister (zona sul) revoltou pais.

O clássico do escritor inglês Charles Dickens (1812-1870) narra a vida de um menino órfão, Oliver, que é criado em condições miseráveis em um albergue de uma pequena cidade da Inglaterra. Mais tarde, acaba se envolvendo com criminosos em Londres. Machado traduziu parte da obra.

A edição indicada aos 60 alunos do 6º ano do Magister é uma adaptação em quadrinhos feita por um autor francês. No Brasil, foi traduzida por Luciano Vieira Machado e publicada pela editora Salamandra (240 págs., R$ 49).

No site da editora, o livro é indicado para crianças com idade a partir dos oito anos.

Uma sequência da HQ mostra o protagonista respondendo a uma provocação: “A partir de hoje, não serviremos mais filhos da p…!”, diz um personagem. Oliver responde: “Deixem-me em paz… e minha mãe não é prostituta”.

“Meu filho veio há uns dias falando: ‘O livro que a professora pediu para ler tem palavrão’. No começo, achei que fosse um palavrão tipo ‘merda'”, diz a engenheira química Cintia Bernardi, 40, mãe de um aluno. “Ele tem dez anos e veio me perguntar o que era prostituta”, reclama.

[b]GIBI[/b]

Seu marido, Sandro Lemos, enviou um e-mail à escola: “Que tipo de valor e que tipo de leitor se quer criar ao substituir uma obra-prima da literatura inglesa por esse gibi! A obra tem alguns palavrões e consideramos a literatura imprópria para a idade”.

“HQ é um gênero textual importante para o trabalho com crianças de até 11 anos, e muitas obras da literatura nacional e internacional, para se tornarem mais acessíveis a essa faixa etária, são adaptadas a esse gênero”, respondeu a diretora pedagógica Katia Martinho.

“Trabalhamos cuidadosamente com os alunos os contextos da sociedade e a linguagem e postura adequada a cada momento”, completou.

“A gente paga uma fortuna nessa escola. O que ela está indicando de leitura para essas crianças?”, questiona a empresária Solange dos Santos Alves, mãe de um garoto de 11 anos.

Ela cita a lista de livros indicados para as férias que incluía “A Culpa É das Estrelas”, de John Green. O livro conta a história de uma menina que tem câncer terminal. “Por que meu filho precisa ler isso? Onde está Monteiro Lobato?”, pergunta.

A escola, que tem um total de 969 alunos do berçário ao ensino médio, cobra R$ 1.390 para alunos do 6º ano. O colégio ficou no 52º lugar da capital no ranking do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2014.

Uma mãe que preferiu não se identificar defende que a escola só contextualize os termos. “Como minha filha já viu ‘Uma Linda Mulher’, ela já sabia o que era prostituta.”

“Eles compreendem perfeitamente [os palavrões]. São jovens imersos num contexto social-tecnológico bastante grande. É importante debater com eles e dizer ‘isso não é adequado’ e quais são os linguajares permitidos”, afirma a diretora.

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Na avaliação de Claudia Riolfi, psicanalista e professora da Faculdade de Educação da USP, não há problema em a escola abordar “diferentes linguajares em sala de aula, inclusive mostrando o que fica bem ou não em contexto social”.

“O diálogo que causou a polêmica poderia ser fonte de importante exploração semântica. Chamar alguém de ‘filho da p…’, ainda mais no contexto da frase, não implica nem falar da mãe da pessoa e, tampouco, invocar a temática da prostituição”, explica a docente, por e-mail.

“Crianças dessa faixa etária têm (ou deveriam ter) condição de diferenciar um insulto (corriqueiro, que elas, com certeza, ouvem no trânsito umas três vezes ao dia) da tentativa de recuperar a honra feita por Oliver.”

Para o escritor Ricardo Lísias, que em 2002 terminou a tradução que Machado deixou incompleta, a versão da HQ é “contemporânea”. “O tradutor atualizou o termo. Não vejo problema”, diz.

Já Daniel Puglia, professor de Letras da USP e estudioso de Dickens, questiona a tradução. “A linguagem de Dickens é muito mais sugerida. Ele sempre adotava um tom que pudesse ser lido pelas famílias”, diz. No original, Dickens se refere à mãe de Oliver como “bad ‘un” -“bad woman” ou “bad one”.

Loic Dauvillier, o francês autor da HQ original, defende-se, por e-mail: “Para marcar as dificuldades das classes pobres, é necessário ressaltar a violência sofrida. Por isso, usamos as imagens, mas também um determinado nível de linguagem”.

A Folha não conseguiu falar com o tradutor brasileiro.

Em nota, a editora Salamandra diz: “A linguagem em quadrinhos usada nessa obra é autêntica e busca retratar com fidelidade a realidade da Inglaterra no século 18”.

A escola diz que irá promover uma conversa entre tradutor e alunos.

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]