A notificação contra o padre Jon Sobrino não tem como objetivo apenas silenciar um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação, mas, de acordo com especialistas em Vaticano, ela é também um “puxão de orelha” nos católicos latino-americanos que não seguem as recomendações da Santa Sé em sua totalidade.

Na opinião do vaticanista Ignazio Ingrao, a punição, anunciada dois meses antes da visita do papa Bento 16 ao Brasil (entre 9 e 13 de maio), tem como objetivo mandar uma mensagem de advertência a todos integrantes da teologia na América Latina.

“O processo de investigação contra Sobrino começou em 2001 e a notificação foi assinada pelo papa no final de 2006”, diz Ingrao.

“A divulgação, neste momento, soa como uma advertência e tem um significado político muito grande: enviar uma mensagem de alerta aos latino-americanos que não estão 100% afinados com as determinações do Vaticano.”

Ingrao acredita que a punição possa influenciar decisões da 5ª Conferência Episcopal Latino-americana, que será aberta pelo papa no dia 13 de maio, em Aparecida.

Papa obcecado

Na avaliação do neuropsicanalista Luigi di Paoli, integrante da Teologia da Libertação na Itália, a notificação contra Sobrino indica que o papa segue “obcecado em sua batalha contra os integrantes do movimento”.

Entre 1981 e 2005, o então cardeal Joseph Ratzinger esteve à frente da Congregação para a Doutrina da Fé e puniu com rigor os dissidentes.

Entre eles, o religioso brasileiro Leonardo Boff, um dos mentores da Teologia da Libertação, foi condenado, em 1985, ao “silêncio obsequioso”.

“Ele não quer apenas punir Sobrino”, afirma Di Paoli. “Mas atingir os criadores do Fórum Social Mundial nascido em Porto Alegre, tudo que representou a Teologia da Libertação no passado e todos aqueles que têm certa inclinação à esquerda.”

O vaticanista Sandro Magister diz que o papa condena, ainda hoje, a influência que a Teologia da Libertação teve no clero e a responsabiliza pela debilidade da Igreja na América Latina.

Erro

Magister avalia que o tema entrará em debate durante a viagem de Bento 16 ao Brasil.

O frei Luiz Carlos Susin, responsável pela Secretaria Permanente do 1º e do 2º Fórum Mundial de Teologia e Libertação, disse que, se a idéia era mandar um recado aos latinos-americanos às vésperas da visita do papa, o Vaticano cometeu um grande erro.

“Não é uma decisão inteligente, porque todos temos uma admiração muito grande pelo Sobrino”, diz.

“Agora, muitos teólogos estarão reunidos em torno da conferência de Aparecida para discutir as conseqüências desta punição.”

Fonte: BBC Brasil