A maioria dos políticos do planeta deve cobiçar as taxas de aprovação do papa Francisco, um líder cuja popularidade costuma oscilar de 60% (entre não católicos) a 90% (entre católicos) em qualquer país do Ocidente.

O curioso é que, desde a encíclica “ambientalista” do pontífice, a “Laudato Si'”, os presidenciáveis católicos nos EUA têm se distanciado dele.

“Minha política econômica não é ditada pelos meus bispos, pelo meu cardeal nem pelo papa”, disse Jeb Bush, terceiro colocado entre os pré-candidatos republicanos, sobre uma das principais mensagens do documento papal: a necessidade de combater mudanças climáticas causadas pelo homem.

A reação reflete o vespeiro que espera o pontífice nos EUA a partir do próximo dia 22. Se a cultura política do país é uma das mais polarizadas do planeta, isso é especialmente verdade em meios católicos, e Francisco virou o intensificador do fenômeno.

Isso porque o longo e influente papado de João Paulo 2º (1978-2005), assim como o pontificado mais breve de Bento 16, acabaram criando um namoro entre a hierarquia da Igreja Católica e os conservadores americanos.

A conferência de bispos dos EUA e muitos membros do Partido Republicano viraram aliados em questões como legalização do aborto e uniões homossexuais.

Ao mesmo tempo, membros da elite católica americana frequentemente aderiram a visões econômicas liberais, canonizando o livre mercado com o mínimo possível de regulação do Estado.

Esse, porém, é só um dos lados da equação. Desde os anos 1960, com a reforma modernizadora do catolicismo trazida pelo Concílio Vaticano 2º, os EUA também se tornaram um celeiro de teólogos e sacerdotes reformistas, em especial entre os jesuítas, a ordem religiosa de Francisco.

Não é coincidência que o sistema mais simples para declarar nulidade de casamentos, definido recentemente pelo papa, tenha precedentes na igreja americana.

O resultado dessa dupla face do catolicismo nos EUA é que muitas das vozes mais influentes em ambos os lados do espectro acham que o papa ou tem ido longe demais em seu ideário “marxista” em favor dos pobres ou que seus gestos de abertura para fiéis gays e divorciados não passam de retórica vazia.

É claro que a maioria dos católicos dos EUA provavelmente discorda dessas opiniões extremas, em especial os imigrantes latinos, que são um terço dos seguidores dessa fé no país e devem se orgulhar de um papa argentino.

Mas a presença de Francisco pode realçar as divisões da igreja nos EUA.

[b]LIBERDADE RELIGIOSA
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Os desafios de Francisco em Cuba são, naturalmente, de outra ordem.

O primeiro é o fato de que, após mais de meio século de comunismo, Cuba é o primeiro país “descristianizado” das Américas –menos de 20% se dizem cristãos, com 6% de católicos, segundo levantamento de John Allen, vaticanista do jornal “The Boston Globe”.

Como fenômenos assim só aconteceram espontaneamente num punhado de países europeus, pode-se imaginar que a liberdade religiosa foi vítima do regime cubano.

Isso é especialmente verdade quando dissidentes tentam unir fé e ativismo político, como as Damas de Branco, mulheres e parentes de críticos do governo presos. Elas costumam ir à missa de branco para protestar.

Ainda é difícil saber como Francisco enfrentará essa questão. Críticos de seu pontificado dentro da igreja apontam como seu calcanhar de aquiles a falta de uma posição mais enérgica diante de Estados que cerceiam a liberdade de culto, como a China.

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]