Quando pisar na base aérea Andrews, em Maryland, Estado vizinho a Washington, às 16h locais de hoje, e avistar os protestantes George W. e Laura Bush esperando-o na pista, Bento 16 encontrará também um número recorde de igrejas católicas sendo fechadas por falta de dinheiro e fiéis e escolas religiosas deixando de funcionar por falta de alunos.

Terá de enfrentar a questão das indenizações causadas pelo escândalo de abusos sexuais de menores por padres, que já custam aos cofres do Vaticano entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões. E será obrigado a lidar com a mudança drástica no perfil do católico local, após a ascensão dos latinos, fatia da população que é a maior vítima do sentimento de xenofobia que toma parte do país.

Nunca na história deste país -no caso, os EUA- a Igreja Católica passou por crise tão pronunciada e duradoura quanto a que recebe Bento 16 em sua primeira visita como papa. Talvez por isso o líder religioso tenha definido a viagem como “missionária”: ele terá a missão de reagregar a igreja e redefinir os rumos da terceira maior população católica do mundo.

A começar pela evasão de fiéis. Segundo levantamento do Pew Research Center, 31,4% dos americanos dizem ter sido criados como católicos, mas apenas 23,9% continuam sendo na vida adulta. “Nenhuma outra grande religião nos EUA teve perda maior nas últimas décadas”, conclui o estudo, feito por ocasião da visita do papa.

A média só prossegue inalterada por conta do aumento da porcentagem de latinos (principalmente mexicanos), que hoje respondem por um terço dos católicos do país. Isso mudou o perfil socioeconômico do católico local, tornando-o mais conservador e com menos afluência financeira, e deslocou o centro de gravidade do nordeste do país para o sudoeste.

“O papa está atento ao fato de que parte de sua audiência é de católicos hispânicos muito preocupados com o crescente sentimento de hostilidade em relação à imigração”, disse Timothy Samuel Shah, especialista em religião do instituto de política externa Council on Foreign Relations, de Washington. “Estou certo de que ele tocará no assunto.”

Portas fechadas

Com as mudanças, muitas igrejas e escolas católicas tradicionais fecharam as portas em cidades como Nova York e Boston. Mais de 800 paróquias encerraram as atividades desde 1995. Duas em cada dez das que estão abertas hoje não contam com padres residentes. E o número de padres ordenados hoje é metade do de 1965.

Com menos igrejas, há menos doações -o que afeta também as escolas, que têm 30% de seus custos bancados pelas ofertas dos fiéis. Desde 2000, mais de 1.200 delas deixaram de funcionar, segundo a Associação Nacional de Educação Católica, o que derrubou o número de estudantes (2,3 milhões) e colégios (7.500) à metade dos totais da década de 60.

Apesar de as doações dos fiéis estarem estacionadas em US$ 9 bilhões por ano nos EUA, a igreja sofreu um grande baque financeiro e moral por conta da sucessão de denúncias de abuso sexual de menores por padres, detonada em 2002, em Boston. Segundo relatório de 2004, foram pelo menos 10,7 mil casos contra 4.400 dos 110 mil padres então em atividade.

O papa deve falar do assunto em missa na sexta e, segundo rumores não negados pelo embaixador do Vaticano em Washington, Pietro Sambi, poderia haver até um encontro de Bento 16 com vítimas. Será grande a reação, dentro e fora da igreja, se o líder evitar a questão.

“A Igreja Romana é impregnada de simbolismo”, escreveu o padre Emmett Coyne, da progressista Cross International Catholic Outreach, sobre o assunto. “A visita de Bento 16 aos EUA deveria acontecer em vestes púrpuras, vermelhas ou pretas, cores de penitência -e não nas triunfais amarelas ou douradas.”

Nos cinco dias que passa no país, Bento 16 é recebido por Bush, celebra missa em estádios em Washington e Nova York, visita o Ponto Zero, encontra-se com representantes de outras religiões e, na sexta-feira, fala à ONU.

Fonte: Folha de São Paulo