Um novo livro sobre João Paulo II revela que o papa deixou por escrito, em 1989, sua vontade de renunciar à missão de Pontífice no caso de que alguma “enfermidade incurável” o impedisse de exercer suas funções.

A carta inédita está no livro “Perché è santo”, que estará nesta quarta-feira, 27, nas livrarias italianas e foi escrito pelo defensor da beatificação de João Paulo II, Slawomir Oder, junto ao jornalista Saverio Gaeto.

De acordo com a publicação, as recomendações foram parar nas mãos de um grupo de cardeais que nunca as colocou em prática, mesmo durante a longa decadência física do polonês Karol Wojtyla, que culminou em sua morte em 2005.

“Declaro: no caso de enfermidade, que se presume incurável, de longa duração, e que me impeça de exercitar suficientemente as funções do meu ministério apostólico, ou no caso de que outro grave e prolongado impedimento seja igualmente obstáculo, de renunciar ao meu sacro e canônico ofício, seja como bispo de Roma, seja como chefe da Santa Igreja Católica”, escreveu Wojtyla.

Nenhum dos religiosos apontados na carta do falecido papa levaram adiante a prerrogativa autorizada por João Paulo II, mesmo que nos últimos tempos de seu pontificado ele não caminhasse mais e falasse com grande dificuldade.

Em outra carta, de 1994, Wojtyla retornou à temática, referindo-se aos cardeais da Cúria Romana. “Frente a Deus refleti longamente sobre o que deve fazer o Papa por si mesmo no momento em que completará 75 anos”, explicou ele.

“Depois de ter pregado e refletido sobre minha responsabilidade diante de Deus, acredito dever seguir as disposições e o exemplo de Paulo VI [1963-1978], o qual, prevendo o mesmo problema, julgou não poder renunciar ao mandato apostólico se não em presença de uma enfermidade incurável ou de um impedimento tal de obstaculizar o exercício das funções de Sucessor de Pedro”, ressaltou João Paulo II.

Flagelo

O novo livro sobre João Paulo II também confirma a ideia de que o pontífice se autoflagelava. Com isso, Oder e Gaeto ratificam o que fora citado por testemunhas na obra “Santo subito”, do jornalista Andrea Tornielli.

De acordo com os escritores de “Perché è santo”, Wojtyla usava o flagelo quando não estava com alguma enfermidade. Ele também seguia com extremo rigor preceitos católicos, sobretudo no período da Quaresma, quando sua alimentação se reduzia a somente uma refeição completa por dia. Além disso, às vezes dormia diretamente no chão nu.

“Em seu armário, em meio às roupas, estava pendurado nos ganchos um cinto especial para as calças, que utilizava como chicote e fazia levar sempre a Castel Gandolfo [residência papal de verão]”, declarou Oder.

Eleito pontífice em 16 de outubro de 1978, após a repentina morte de João Paulo I, João Paulo II permaneceu no posto por cerca de 27 anos, exercendo um dos maiores pontificados da Igreja Católica.

Após sofrer um atentado em 1981 em plena praça São Pedro — ao ser atingido por disparos do turco Mehmet Ali Agca –, a saúde do então Papa ficou debilitada, ele também sofria de mal de Parkinson. João Paulo II faleceu no dia 2 de abril de 2005.

Fonte: Estadão