O Papa Bento XVI avançou novamente neste domingo contra a secularização das sociedades ocidentais ao deplorar um mundo que se tornou “surdo a Deus”, diante de cerca de 230.000 fiéis, em sua maioria provenientes da Baviera, que se reuniram para assistir a uma missa ao ar livre em Munique, no sul da Alemanha.

“Não existe só a surdez física, que isola em grande parte o homem da vida social. Existe uma debilidade auditiva com respeito a Deus, que sofremos especialmente em nossos tempos”, declarou o Papa alemão no segundo dia de sua visita região alemã da Baviera, onde nasceu e cresceu.

“Nós já não conseguimos ouvi-lo” porque “as frequências que chegam aos nossos ouvidos são muito numerosas” e “o que se fala Dele já não nos parece (…) adaptado ao nosso tempo”, lamentou durante sua homilia, retomando um de seus temas prediletos desde o início de seu pontificado.

Desde sua eleição em abril de 2005, Bento XVI expressou em várias ocasiões sua preocupação com uma Europa que, segundo ele, ignora suas “raízes cristãs” e cede com demasiada frequência ao “relativismo”.

“Com a debilidade auditiva, ou mesmo a surdez com respeito a Deus, perdemos naturalmente nossa capacidade de falar com Ele. Mas então nos falta uma percepção crucial”, explicou o Papa.

“Nossos sentidos interiores correm o risco de se apagar (…), o campo de nossa relação com a realidade se reduz de maneira drástica” e “o horizonte de nossa vida se reduz de forma preocupante”, acrescentou o Papa.

Bento XVI se compara a um “burro de carga” a serviço da fé

O Papa Bento XVI se comparou a um “burro de carga” a serviço da fé durante um discurso pronunciado neste sábado à tarde na Praça da Maria (Marienplatz), centro de Munique, no primeiro dia de sua viagem a Baviera, a região alemã em que nasceu.

Sobre um estrado colocado aos pés da coluna da Virgem, o Papa recordou o fato de ter abandonado, com pesar, a docência universitária em 1977 para ser nomeado arcebispo de Munique e de Frisinga.

Depois fez referência a Santo Agostinho, “que havia escolhido a vida de um homem de conhecimento, mas a quem Deus chamou para ser um burro de carga, o boi valente que puxa a carroça no campo de Deus, que é nosso mundo”.

“Mas à semelhança do animal de carga, que é o que está perto do agricultor e cumpre o trabalho pesado que lhe ordenam, o bispo, em seu humilde serviço, está muito perto de Deus, já que cumpre um serviço importante para seu reino”, afirmou.

O Papa disse ainda que seu “patrão” (Deus) nem sempre o libera de seus deveres. “Encontro-me, portanto, de novo ao pé da Coluna da Virgem para implorar a bênção da mãe de Deus, desta vez não só para a cidade da Munique e para a Baviera, como para a Igreja universal e para todos os homens de boa vontade”, concluiu.

A multidão agitando bandeiras brancas e vermelhas, as cores do Vaticano, gritava “Benedetto!” (Bento em italiano), como fizeram milhares de pessoas na passagem do papamóvel pelas ruas da capital bávara.

Bento XVI pede que alemães se mantenham fiéis ao cristianismo

Emocionado “por voltar a sua casa”, o papa Bento XVI chegou neste sábado a Munique, na primeira parada de sua viagem de seis dias pela Baviera (Alemanha), região onde nasceu.

O Papa pediu aos alemães que se mantenham fiéis ao cristianismo.

Bento XVI também disse a seus compatriotas que embora estivesse gostando de voltar a sua terra natal, Deus, a quem chamou de “o Patrão”, “decidiu de outra maneira”, o mantendo em Roma como papa.

“Desejo que todos os meus compatriotas da Baviera e de toda a Alemanha sejam veículos de transmissão dos valores fundamentais da fé cristã aos jovens”, disse o pontífice em seu discurso de boas-vindas diante do presidente do Governo, o protestante Horst Köhler, e a chanceler, também luterana, Angela Merkel.

O bispo de Roma, de 79 anos, ressaltou a adesão da sociedade alemã aos valores do cristianismo ao longo da história.

Bento XVI disse que “embora o contexto social atual seja diferente do vislumbrado no passado”, continua pensando que “une a todos (em referência às diferentes igrejas cristãs) a esperança de que as novas gerações sejam fiéis ao patrimônio espiritual que resistiu a todas as crises registradas na História”.

O presidente Köhler, que rasgou elogios a Bento XVI, ressaltou que o papa visitou pela segunda vez o país onde a reforma luterana nasceu. Acrescentou, no entanto, que na Alemanha o desejo de avançar no ecumenismo “é forte”. “Sei que não é possível apagar, de uma tacada só, quase 500 anos de desenvolvimento teológico e práticas religiosas diferentes, mas como protestante tenho a esperança de que esta evolução ecumênica continue, baseada no respeito mútuo e no reconhecimento das afinidades essenciais. Existem mais elementos de união que de separação”, declarou Köhler.

O governante ressaltou os apelos em favor da paz e disse que interpreta a primeira encíclica de Bento XVI, “Deus é amor”, como uma convocação para que todas as religiões façam uma reflexão.

Após as boas-vindas e em meio a cerca de 70 mil bávaros, o papa se dirigiu ao centro de Munique, onde está a Mariensaule, a coluna de Maria erguida em 1638 por Maximiliano I em agradecimento pelo final da ocupação sueca da cidade durante a Guerra dos 30 Anos.

Diante do povo da Bavária, que o aclamou com cânticos, palmas e agitar de bandeiras, Bento XVI lembrou a história que envolve um antecessor seu na diocese de Munique, São Corbiniano: um urso teria matado o cavalo com o qual seguia para Roma, e como punição, o santo teria obrigado o urso a levá-lo à Cidade Eterna, em alusão ao “fardo” que tinha sido supostamente carregado pelo cavalo até então.

Partindo dessa história, Bento XVI disse que assim como o urso, ele se transformara em um “dócil animal de carga” que trabalha todos os dias para Deus. “O urso foi deixado em liberdade quando chegou a Roma, mas no meu caso ‘o Patrão’ decidiu de outra maneira”, afirmou.

Bento XVI fez referência ao fato de ele ter apresentado a renúncia para voltar a sua Baviera natal quando completou 75 anos.

João Paulo II, no entanto, o manteve no Vaticano, de onde não saiu até ser eleito papa em 19 de abril do ano passado.

Após sua primeira aparição para multidões na Marienplatz, o Papa se reuniu no Palácio Real com o presidente Köhler, a chanceler Merkel e o ministro-presidente da Baviera, Edmund Stoiber.

Essas visitas de cortesia puseram fim ao primeiro dia de sua segunda viagem à Alemanha, marcada pela lembrança. O papa visitará os locais onde passou sua infância e juventude, o povoado onde nasceu (Marktl am Inn) e a cidade de Regensburg, em cuja universidade lecionou Teologia Dogmática.

Amanhã, Bento XVI celebrará uma missa nos arredores de Munique e visitará a catedral da cidade da qual foi arcebispo de 1977 a 1981.

A viagem inclui um encontro com seu irmão mais velho, Georg, de 82 anos, que vive em Regensburg e uma visita ao cemitério onde estão os restos mortais de seu pai e de sua irmã.

Bento XVI espera que esta visita desperte “uma renovada primavera de fé” no povo alemão, onde os católicos representam 31,6% da população.

Fonte: AFP e EFE