Em carta aberta aos católicos da China, o papa Bento XVI deve pedir um fim da divisão da Igreja no país, além de manifestar a esperança de uma maior liberdade religiosa, segundo uma fonte eclesiástica.

A carta, a ser divulgada nas próximas semanas, representará o primeiro grande passo da Santa Sé em direção ao estabelecimento de relações formais com Pequim, rompidas desde o estabelecimento do regime comunista em 1949.

Os católicos chineses estão divididos entre a Igreja estatal e a “clandestina”, ligada a Roma. “A preocupação primária (do papa) é ajudar na reconciliação entre as duas comunidades”, disse a fonte, de Hong Kong, que falou à Reuters por telefone durante a noite e pediu anonimato.

“Acho que haverá uma forte conclamação para que os dois lados tentem trabalhar juntos para curar essas diferenças.”

Perseguição

Logo após sua vitória na guerra civil chinesa, os comunistas passaram a perseguir seguidores de religiões, enquanto nas três décadas seguintes permitiram as atividades apenas em igrejas, mesquitas e outros templos mantidos pelo Estado.

Nos últimos anos, houve uma aproximação, e em janeiro o Vaticano realizou uma reunião com foco na China. Desde que foi eleito, em abril de 2005, Bento XVI faz da normalização das relações uma de suas prioridades.

O Vaticano é o único Estado europeu a manter relações diplomáticas com Taiwan, a ilha autônoma que Pequim considera uma província rebelde, já que nunca declarou sua independência.

A carta aberta do papa, porém, deve destacar que o futuro da Igreja chinesa está não só nas negociações diplomáticas, mas nas relações entre milhões de fiéis que compartilham basicamente das mesmas crenças, mas estão divididos pela política e a história.

Tensões na Igreja

Nos últimos anos, a divisão criou tensões na hora da nomeação de bispos – já que as autoridades chinesas escolhem clérigos que não receberam o aval do papa. O mais importante bispo da Igreja do governo, Fu Tieshan, morreu na semana passada, abrindo uma vaga na estratégica diocese de Pequim. Fu, que também usava o nome cristão “Michael”, não tinha o aval do Vaticano.

A fonte eclesiástica que falou à Reuters disse esperar que o sucessor de Fu tenha a aprovação pontifícia. As autoridades em Pequim parecem divididas sobre o tema. “Eles têm de resolver suas questões internas”, afirmou a fonte.

Liu Bainian, vice-presidente da Associação Patriótica Católica Chinesa, freqüente porta-voz da Igreja estatal, manteve um notável silêncio a respeito do envolvimento do Vaticano na escolha do sucessor de Fu, alegando que a morte ainda era muito recente.

Já Liu Jianchao, porta-voz da chancelaria, disse que o Vaticano não deveria “intervir nos assuntos internos da China”, mas que o país espera melhorar as relações com a Santa Sé.

A carta do papa deve declarar que os bispos precisam estar sob a autoridade pontifícia, e deve também estabelecer demandas mais amplas por liberdade religiosa. “É quase impossível para os bispos se reunirem livremente por conta própria. Há sempre autoridades por perto”, afirmou a fonte.

Como “gesto de amizade”, acrescentou, o papa deve enviar a carta à chancelaria chinesa dias antes de divulgá-la ao público.

Fonte: Estadão