Em encontro com bispos nesta sexta, o papa Bento 16 falou, pela primeira vez desde que chegou ao Brasil, diretamente da questão da diminuição do número de católicos. Bento 16 apontou o secularismo e, principalmente, a falta de empenho evangelizador como principais causas do problema.

Mas apontou posições conservadoras como soluções, criticando os movimentos de reforma dentro da própria Igreja.

O encontro reuniu religiosos na catedral da Sé, no centro de São Paulo, e foi o último evento de Bento 16 na capital paulista. O papa chegou ao centro de São Paulo de papamóvel, e segue da mesma forma para o Campo de Marte, onde embarca em um helicóptero para a cidade de Aparecida, onde tem compromissos no fim de semana.

Ao destacar o problema da dissidência de fiéis católicos, disse “parecer claro” que a causa principal do problema estaria na “falta de uma evangelização em que Cristo e a sua Igreja estejam no centro de toda explanação”. Essa falta de força evangelizadora da própria Igreja seria o que, na opinião de Bento 16, faria com que os “batizados não suficientemente evangelizados” se tornassem “incapazes de resistir” ao “proselitismo agressivo das seitas”.

Em uma tentativa de aumentar esta “força evangelizadora”, a Igreja Católica defende a obrigatoriedade do ensino de religião na escola pública brasileira.

Pressões seculares

Mas o papa criticou também as pressões seculares e sua influência social e política. Ele disse que as uniões livres e o divórcio são uma “ferida”. “Como não sentir tristeza em nossas almas?”, completou.

“É verdade que os tempos de hoje são difíceis para a Igreja e muitos dos seus filhos estão atribulados. A vida social está atravessando momentos de confusão desnorteadora”, disse.

“Ataca-se impunemente a santidade do matrimônio e da família, iniciando-se por fazer concessões diante de pressões capazes de incidir negativamente sobre os processos legislativos; justificam-se alguns crimes contra a vida em nome dos direitos da liberdade individual.”

Bento 16 manteve a mesma linha ao criticar ainda movimentos reformistas dentro da Igreja, falando explicitamente daqueles que questionam a necessidade do celibato para seus sacerdotes, “dando-se preferência às questões ideológicas e políticas, inclusive partidárias”. Mas outros movimentos, como a Teologia da Libertação, também foram indiretamente criticados no discurso que pede menos flexibilidade na vivência religiosa: “não basta observar a realidade a partir da fé; é preciso trabalhar com o Evangelho nas mãos e fundamentados na correta herança da Tradição Apostólica, sem interpretações movidas por ideologias racionalistas”, declarou.

No que se refere ao celibato apostólico, o Papa demonstrou que não aprova qualquer questionamento desse princípio “no seio da Igreja”. O pontífice alerta, no caso dos jovens sacerdotes, que um “assíduo acompanhamento espiritual é indispensável para favorecer o amadurecimento humano e evita os riscos de desvios no campo da sexualidade”, disse. “O celibato é um dom que a Igreja recebeu e quer guardar, convencida de que ele é um bem para ela e para o mundo”, concluiu.

Social

Os princípios da Igreja também foram cobrados por Bento 16 no combate à pobreza e desigualdade social no país, não apenas nas ações dos fiéis, mas também de políticos e empresários. “Uma visão da economia e dos problemas sociais, a partir da perspectiva da doutrina social da igreja, leva a considerar as coisas sempre do ponto de vista da dignidade do homem”, disse. “Deve-se, por isso, trabalhar incansavelmente para a formação dos políticos, dos brasileiros que têm algum poder decisório, grande ou pequeno e, em geral, de todos os membros da sociedade, de modo que assumam plenamente as próprias responsabilidades e saibam dar um rosto humano e solidário à economia.”

Mas pela caridade também passaria o esforço evangelizador citado inicialmente, segundo Bento 16. “O povo pobre das periferias urbanas ou do campo precisa sentir a proximidade da igreja, seja no socorro das suas necessidades mais urgentes, como também na defesa dos seus direitos e na promoção comum de uma sociedade fundamentada na justiça e na paz”, afirmou.

Bispo de Alagoas admite preocupação com perda de fiéis

A preocupação demonstrada pelo papa Bento XVI no discurso que proferiu ontem para bispos, arcebispos e cardeais na Catedral da Sé, com relação à perda de fiéis, foi um dos principais pontos da fala do pontífice.

Quem fez a avaliação foi o bispo de Palmeiras dos Índios, em Alagoas, dom Dulcênio Fontes de Matos. “A perda de fiéis é uma de nossas preocupações, porque a Igreja é evangelizadora e tem de continuar levando adiante a sua missão”, destacou o bispo.

Sobre os pontos polêmicos abordados por Bento XVI em seu discurso, tais como a necessidade de se evitar desvios de sexualidade, Dulcênio disse que esta é a orientação da Igreja e todos precisam escutar esse discurso.

“A preocupação do santo padre é mostrar como a Igreja deve evangelizar, sobretudo indo ao encontro daquelas famílias que se encontram afastadas”, afirmou.

Fonte: UOL e Agencia Estado