O cardeal e arcebispo de Aparecida, atual presidente da CNBB, diz que a Igreja não discrimina ninguém, mas não reconhece a união homoafetiva como matrimônio.

Prestes a deixar o comando da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o cardeal Dom Raymundo Damasceno, de 78 anos, arcebispo de Aparecida, falou com exclusividade a ÉPOCA sobre os limites da visão modernizante do Papa Francisco em relação aos costumes da sociedade.

Nesta entrevista realizada no final de março em sua residência, no Seminário do Bom Jesus, em Aparecida, Dom Damasceno, como é mais conhecido, aborda a união homoafetiva, o divórcio, o controle de natalidade, o papel da mulher na Igreja e sobre as divergências existentes entre as diversas correntes do catolicismo sobre as mudanças sugeridas pelo Papa nos últimos anos.

Ele comenta também a afirmação do Papa Francisco de que seu papado deve ser breve. “Se o Papa Francisco julgar, diante de Deus e de sua consciência, que não tem mais condições de dirigir a Igreja por motivos de saúde, de debilidade física, não terá dúvida em renunciar”, afirma. “Agora, imagine se, com a renúncia, você passar a ter dois papas, três papas por aí papas eméritos. É complicado.” Confira abaixo os trechos da entrevista de Dom Damasceno sobre os costumes que não foram publicados na edição semanal de ÉPOCA.

[b]ÉPOCA – Desde a sua eleição, o papa Francisco tem sido visto como um líder modernizante da Igreja Católica e tem defendido mudanças em questões ligadas aos costumes dos fiéis, como no caso do divórcio. O senhor acredita que a Igreja deverá mudar sua visão sobre a separação matrimonial?[/b]
Dom Raymundo Damasceno – Hoje, a mudança cultural afeta muito a família: casais em segunda união, casais que vivem uma união de fato, que não é reconhecida nem no civil, nem na Igreja, e pessoas que não contraem uma segunda união, mas vivem separadas. Muitos casais que foram infelizes na primeira união e contraíram uma segunda união estão vivendo bem. Não é uma união ocasional, de um dia ou um mês. É uma união já de um longo tempo, de 12, 13, 15, 20 anos, que certamente vai durar o resto da vida. Muitas vezes, são pessoas que participam das nossas comunidades, trabalhando numa obra social, ajudando em outra atividade apostólica, contribuindo com o dízimo, e que sofrem por não poder estar em plena comunhão, aproximando-se da eucaristia e do sacramento da penitência. O que fazer com essas pessoas? Eu acredito que o desejo do Papa é encontrar um caminho para elas. Há experiências na Igreja Ortodoxa, o chamado caminho penitencial, em que as pessoas são acompanhadas por um determinado tempo e vão fazendo esse processo de conversão, de mudança de vida, acompanhados por um padre, por alguém indicado pelo bispo. Então, há caminhos, há sugestões. Em outubro, vamos entrar na segunda fase do Sínodo da Família e ver quais serão as conclusões sobre essa questão. Caberá ao Papa Francisco publicar o que chamamos de exortação pós-sinodal, divulgando para toda a Igreja as conclusões do Sínodo, não apenas sobre esses casos especiais, mas também orientações para a Pastoral Familiar em todo o mundo.

[b]ÉPOCA – Logo depois de sua eleição, o Papa Francisco disse que, “se uma pessoa é gay e procura Jesus, o catecismo não deve marginalizá-las”. Neste aspecto, também há uma mudança à vista?[/b]
Dom Damasceno – Como diz o papa, a gente não pode julgar as pessoas pela sua orientação sexual. Muitas vezes, essas pessoas estão lutando para levar uma vida correta, uma vida moral de acordo com o Evangelho. Mas, para a Igreja, casamento é sempre a união de um homem e de uma mulher, para constituir um lar. Uma união baseada no amor, um amor uno, indissolúvel e aberto à vida, à procriação. É o que Santo Agostinho fala: nós condenamos o pecado, mas não o pecador. Isso está bem claro na Bíblia, no livro do Gênesis: “O homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher e formarão os dois uma só carne”. O matrimônio, dentro de uma visão antropológica cristã, é de um homem e uma mulher, porque deve ter capacidade também de procriação. Um casamento de pessoas do mesmo sexo não tem. Há a questão da adoção, mas não é geração, embora essa não seja a única função do matrimônio. Tem o amor, que vem em primeiro lugar. Agora, não discriminamos pessoa alguma, seja por que motivo for. O Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável para casais do mesmo sexo. Para nós, não é um casamento, mas respeitamos. Devemos tratar bem essas pessoas, aceitá-las, ajudá-las em suas dificuldades. Quando procuram a Igreja, temos de acolhê-las, dar-lhes assistência espiritual e sacramental, sem discriminação. Nós apoiamos projetos no Congresso que correspondem aos valores morais defendidos pela Igreja, mas não vamos aprovar qualquer projeto que venha a discriminar pessoas.

[b]“O Papa tem insistido que as mulheres têm de dar a sua própria contribuição para a Igreja, mas não acredito em mudança na questão da ordenação”[/b]

[b]ÉPOCA – No começo deste ano, o Papa Francisco disse que os católicos “não deveriam se reproduzir como coelhos”. Isso gerou especulações sobre uma possível abertura da Igreja para o uso de métodos de controle de natalidade como a camisinha e a pílula anticoncepcional. Em sua opinião, é possível haver uma mudança na posição da Igreja nesta questão?[/b]
Dom Damasceno – O que o Papa quis dizer é que o casal deve exercer a sua paternidade e maternidade de uma maneira responsável. Ele quis dizer que não se trata só de gerar filhos. Você tem de educá-los, de prepará-los para a vida. Por isso o casal, diante de Deus, diante da sua consciência e de alguns critérios que devem iluminá-los na sua vida, é que deve decidir o número de filhos que quer ter, pensando no bem dos filhos. Dentro disso, a Igreja sempre prescreveu o método natural. Tenho conversado com casais que quando utilizam o método natural e eles dizem se sentem mais felizes e mais realizados e que têm mais prazer na relação sexual. Hoje em dia, sabemos os problemas que têm dado o uso desses métodos artificiais para as mulheres.

[b]ÉPOCA – O Papa também tem falado muito sobre uma maior participação da mulher na Igreja. O que ele quer dizer com isso?[/b]
Dom Damasceno – Acredito que o reconhecimento do papel da mulher na sociedade é um dos grandes avanços da pós-modernidade – e na Igreja também. O Papa tem insistido muito que elas têm de dar a sua própria contribuição para a Igreja, como mulheres. Afinal, somos iguais em dignidade diante de Deus. Hoje, no Conselho Econômico da minha Diocese tem várias mulheres participando. As mulheres são maioria nas nossas paróquias e nas atividades paroquiais.

[b]ÉPOCA – Na atuação eclesiástica, a Igreja poderá permitir a ordenação de mulheres?[/b]
Dom Damasceno – Ordenação não, porque esse é um campo consolidado. Pelo que a gente vê no Evangelho e na tradição da Igreja, nunca houve uma ordenação presbiteral de uma mulher. Agora, se discute muito a questão dos diáconos. Se a mulher pode ou não ser diácono. Porque, no Novo Testamento, aparece a figura das diaconisas, mas a ordenação sacerdotal, não.

[b]“O garantidor da unidade da fé, para a Igreja toda, é o Papa. Não é um bispo, nem um leigo, nem um grupo de leigos”[/b]

[b]ÉPOCA – Embora muita gente seja favorável à modernização da Igreja sugerida pelo Papa Francisco, há também uma forte resistência à mudança por parte de fiéis e até de autoridades eclesiásticas. O senhor acredita que, se essa onda modernizante continuar, pode haver uma nova cisão na Igreja?[/b]
D. Damasceno – Há reações, dentro e fora da Igreja. Há uma tendência de certos grupos fundamentalistas quererem manter a tradição. Agora, muitas coisas da Bíblia são culturais. Não são verdades de fé. A Igreja é guardiã do depósito de fé que lhe foi confiado por Cristo e deve atualizá-lo a cada tempo, de acordo com as novas situações, novos desafios. O garantidor da unidade da fé, para a Igreja toda, é o Papa. Não é um bispo, um leigo, um grupo de leigos. Em me lembro de uma frase de D. Geraldo Sigaud (1909-1999), que era arcebispo de Diamantina. Conservador, ele defendia o movimento Tradição, Família e Propriedade (TFP) e era contra a reforma agrária e certas decisões do Concílio Vaticano II. Mas, quando Paulo VI foi eleito Papa, D. Sigaud disse publicamente: “Não era meu candidato, mas uma vez eleito ele é meu papa”. Esse é o caminho.

[b]ÉPOCA – Recentemente, o Papa afirmou que seu pontificado deve ser breve, durar quatro ou cinco anos. O senhor credita que ele irá renunciar em um ou dois anos e que os tempos dos papas vitalícios chegaram ao fim?[/b]
D. Damasceno – O Papa fez essa afirmação misteriosa, deixou essa dúvida pairada no ar. Quando me encontrar com ele, vou dizer: “Santo Padre, o senhor está frustrando muita gente no mundo inteiro, com essa afirmação, pois todos nós desejamos que o senhor governe a Igreja por muito tempo”. Tenho ido sempre ao Vaticano, encontro sempre com ele, e ele parece feliz e alegre. Não vejo o Papa doente. Ele está fazendo muitas coisas, inovando com seu modo de ser, sua linguagem e seus discursos, que têm uma grande repercussão midiática. Mas o pontificado é pesado. Se governar uma diocese já é difícil, imagine o que é governar a Igreja toda. A estrutura do Vaticano é complexa. Em 2013, o Papa Bento XVI renunciou, 600 anos depois da última renúncia de um Papa. Se o Papa Francisco julgar, diante de Deus e de sua consciência, que não tem mais condições de dirigir a Igreja por motivos de saúde, de debilidade física, para o bem da Igreja, não terá dúvida em renunciar. Agora, imagine se, com a renúncia, você passar a ter dois papas, três papas por aí papas eméritos. É complicado.

[b]Fonte: Revista Época on-line[/b]