Apesar do perfil variar de tempos em tempos, as vítimas do tráfico de seres humanos são, em geral, mulheres entre 13 e 30 anos, afrodescendentes e vulneráveis socialmente, segundo os últimos estudos da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e do Unodc (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, em português)

“Temos uma sociedade machista, adultocêntrica e preconceituosa. O tráfico de pessoas é objeto de preconceito porque atinge mulheres, negros, pobres, crianças, e a população segregada socialmente”, afirma Thaís Dumet, coordenadora do projeto de Combate ao Tráfico de Pessoas da OIT.

“O tráfico de pessoas é um problema econômico, mas não só. Tem todo um problema cultural envolvido também”, acrescenta Priscila Siqueira, articuladora da ONG Serviço à Mulher Marginalizada. “É um crime que causa mal-estar. As pessoas pensam que é mais fácil trabalhar no atendimento a crianças carentes do que com uma menina de 12 anos que já teve a vida sexual iniciada”, acrescenta.

Para Adriana Maia, assistente do projeto de Combate ao Tráfico de Pessoas da Unodc, o fato de grande parte das vítimas do tráfico serem prostitutas é utilizado como justificativa para o preconceito. “Com freqüência ouvimos as pessoas falando sobre as vítimas: ‘Ah ela sabia que iria se prostituir’. Sim, mas ela sabia em que condições? Ela sabia que teria a vida ameaçada, que acumularia dívidas, seria explorada, que teria os direitos violados?”.

Segundo Romeu Tuma Júnior, secretário nacional de Justiça, o tráfico de seres humanos possui diferenças e semelhanças com o tráfico de drogas e de armas. “Ambos possuem quadrilhas organizadas, que obtêm lucros altos e que lavam dinheiro. Mas, diferente do tráfico de drogas, no de pessoas o consumidor não é vítima. Ele é cúmplice.” Para Dumet, “ainda se dá muito mais importância ao tráfico de objetos como drogas, armas e combustíveis do que de pessoas”.

Vítima e criminoso

Uma das proteções que os traficantes recebem vem da própria vítima, que não se enxerga como vítima. “Elas se veem como culpadas, acham que deram azar, que foram incompetentes, ou porque estão em situação irregular tem medo de procurar o consulado, a polícia local. A própria pessoa tem dificuldade de se perceber”, afirma Maia.

Fábio Ramazini Bechara, promotor de Justiça do Estado de São Paulo, acrescenta que essa condição dificulta o acesso a indícios, que precisam ser buscadas por meios alternativos. “O Estado precisa se aparelhar corretamente com métodos de investigação não convencionais, como escutas ambientais, fiscalizações telefônica, entre outros, que permitam a identificação de criminosos e considere o tráfico de pessoas como uma atividade econômica”, diz.

“É importante que as pessoas conheçam essa situação. O tráfico de pessoas é um tema que precisa ser colocado em pauta na sociedade”, diz Dumet. “O combate ao tráfico é papel da polícia. No atendimento das vítimas, a sociedade civil pode até ajudar, mas a responsabilidade é do Estado. Só ele tem recursos para isso”, acrescenta Siqueira.

Nos últimos anos, foram criados pelo Ministério da Justiça postos avançados de atendimento às vítimas dos tráficos, localizados em regiões de fronteira, aeroportos, rodoviárias, entre outros locais estratégicos. Antes, o atendimento às vítimas era feito somente em entidades da sociedade civil organizada.

Para Priscila Siqueira, apesar dos avanços, não há no Brasil um serviço adequado para atender as vítimas desse crime. “Não adianta a vítima voltar para casa. Ainda não existe no Brasil um atendimento eficiente à vítima. Normalmente as ações de reintegração são individualizadas”, diz a articuladora do Serviço à Mulher Marginalizada.

Fonte: UOL