Quando tinha apenas 20 anos o Pastor Carlos Alberto Bezerra sonhou com uma igreja que tivesse uma abordagem mais familiar e hoje, depois de quase 3 décadas, a Comunidade da Graça abriga em torno de 15.000 membros em mais de 50 igrejas distribuídas pelo Brasil.

Além desta experiência acumulada ele foi também presidente do Conselho de Pastores do Estado de São Paulo e Ministros Evangélicos na gestão 2004/2006 e está envolvido com uma fundação, um colégio, um instituto e um centro de liderança, todos ligados ao ministério da denominação.

Nesta entrevista, aliando a prática ao conhecimento acumulado em 4 faculdades, ele compartilha da intimidade da gestão da Comunidade da Graça e expressa a sua opinião sobre como está a igreja brasileira neste quesito.

Como o senhor vê a gestão ou administração eclesiástica no contexto das igrejas brasileiras?

Nas denominações históricas já existem estruturas mais definidas de gestão eclesiástica. Mas, com a explosão do movimento pentecostal e neo-pentecostal das últimas décadas surgiram igrejas que são muitas vezes administradas de maneira ilegal e corrupta tornando-se quase que um negócio pessoal dos pastores ou líderes. Há templos que funcionam de maneira irregular, não possuindo o alvará de funcionamento expedido pela prefeitura e sem a vistoria do Corpo de Bombeiros para as normas de segurança dos membros que freqüentam. Da mesma forma muitas igrejas não estão com a sua contabilidade em ordem para com o fisco, por ignorância ou não de seus pastores. Nestes últimos tempos temos visto, estarrecidos, até mesmo reportagens policiais sobre processos jurídicos contra pastores e líderes de renome nacional, isto devido a uma forma de administração eclesiástica personalista, despótica e corrupta. Estes usam o dinheiro consagrado ao Senhor nos cultos para alcançarem um enriquecimento ilícito, vergonhoso e totalmente incompatível com os princípios do evangelho de Cristo. Tudo isto causa escândalo e leva muitas pessoas a rejeitarem o evangelho. Mas em meio tudo isto, graças a Deus, temos igrejas muito bem administradas por pastores e líderes sérios, tementes a Deus, que por causa disto estão crescendo espiritualmente, em número de membros e patrimonialmente, gozando de respeito e credibilidade em nossa sociedade.

A Comunidade da Graça já caminha para os seus 30 anos. Quais os grandes avanços que ocorreram na área da administração eclesiástica neste tempo?

No princípio de nossa existência as nossas Comunidades eram locais, autônomas e com auto-gestão, o que levava a uma série de distorções administrativas e contábeis. Agora, já há alguns anos, todas elas são afiliadas e compõem a Associação Comunidade da Graça, órgão este criado justamente com a finalidade de orientar e fiscalizar a administração de cada igreja local. Esta Associação possui uma Diretoria Nacional, um Conselho Diretivo e um Conselho de Supervisores Regionais que se reúne mensalmente para analisar a administração financeira e pastoral de cada Comunidade, tomando todas as providências para corrigir qualquer distorção. Além disto, somos assessorados por uma empresa de contabilidade bastante respeitada no meio evangélico. Desta forma, temos garantia que toda denominação está em ordem com as exigências das leis tributárias e daquelas que regem uma organização sem fins lucrativos. Na Comunidade da Graça temos um compromisso como filhos de Deus de buscar um padrão de excelência e de integridade na administração dos bens e dinheiro da igreja do Senhor. A igreja é Dele e não nossa, e por isto queremos sempre estar aprovados pela legislação e por Ele, para que naquele dia não venhamos a ser reprovados como mordomos infiéis.

Alcançar famílias implica em rotinas como gerenciar um banco de dados, controlar os endereços e telefones, registrar a trajetória ministerial… Como a sede orienta e disponibiliza ferramentas neste sentido para as igrejas da denominação?

Nós desenvolvemos internamente um programa de computação que permite que cada igreja local mantenha um banco de dados completo sobre os membros, as decisões por Cristo, os batizados, a formação de líderes, as células (que chamamos de GCEM – Grupo de Comunhão, Edificação e Multiplicação), os ministérios e os cultos. Além disto fornecemos relatórios e manuais de todos os tipos para orientarmos nossos pastores para administrarem bem tanto a parte financeira como a parte pastoral da igreja, no ensino, no discipulado e na preparação de nossos dirigentes de células e de pastores.

O senhor diria que as igrejas que optam por um modelo de grupos familiares ou células têm um desafio a mais em termos de administração?

Se uma igreja assume o desafio de se estruturar em células, evidentemente, ela terá que administrar muito bem todo este processo, sob pena de gerar muitos problemas e divisões que trarão muitos prejuízos para ela. A administração de uma igreja em células precisa desenvolver um projeto completo que acompanhe, supervisione e corrija cada etapa. Em nosso caso desenvolvemos um modelo de discipulado e formação de líderes para cada membro da igreja, desde a decisão por Cristo, batismo até chegar ao pastorado, para aqueles que têm este chamado. Este modelo chama-se IDE – Integrar, Desenvolver e Enviar. Cada uma destas etapas é administrada pelo pastor principal, sua equipe pastoral e supervisores de células, através de relatórios, dados estatísticos e reuniões semanais, que se iniciam sempre com uma hora de oração.

A igreja-sede pode ser considerada uma mega-igreja pelos seus 6.000 membros. Qual a estrutura administrativa existente para atender a membresia e sua liderança?

Todos os membros são desafiados a participar de um GCEM (célula) para que sejam devidamente pastoreados. Cada dirigente de célula tem que passar por todo o processo de discipulado, treinamento e ensino bíblico que leva no mínimo, atualmente, dois anos. Aprendemos que não podemos apressar a formação daqueles que vão nos ajudar a pastorear bem o rebanho, porque além de não produzir uma multiplicação saudável, causa desânimo, defecções e divisões. Cada dirigente de célula é pastoreado por um pastor auxiliar, ajudado por supervisores, que foram dirigentes bem sucedidos e que multiplicaram suas células. Por sua vez, os pastores auxiliares são pastoreados pelo pastor principal, ao qual prestam contas regularmente do seu Distrito (cerca de vinte grupos), especialmente quanto à vida e o ministério dos seus supervisores, dirigentes e membros das células. Isto evidentemente se entende à esposa e filhos de cada um dos pastores, supervisores e dirigentes, pois entendemos que primeiro requisito para que sejam bem sucedidos na suprema missão da igreja de fazer discípulos é que tenham uma família bem construída.

E quanto às igrejas associadas? Existe um padrão ou modelo de estrutura administrativa ditado pela igreja-sede?

Todas elas são regidas por um mesmo Estatuto e possuem um Manual de Procedimentos internos que orientam o pastor sobre todos os passos para organizar e administrar a igreja de acordo com os princípios bíblicos, as leis e a visão da Comunidade da Graça. Em cada uma deve haver uma Diretoria e um Conselho Fiscal, aos quais os pastores prestam contas regularmente no âmbito interno. Cada pastor é cuidado por um Supervisor Regional que também acompanha a administração da igreja. Mensalmente o pastor local envia relatórios para a Associação e os documentos fiscais para a nossa assessoria contábil. Por sua vez os supervisores também prestam contas mensalmente de suas regiões. Os gastos com recursos humanos, incluindo o subsídio pastoral, não podem exceder os 40% da arrecadação local e mensalmente cada igreja envia 15% das receitas para a administração nacional. Nenhuma igreja pode fazer aquisições de bens, móveis ou imóveis, vender, trocar ou reformar sem a devida autorização do Supervisor Regional. Os pastores que não andarem segundo estas normas serão advertidos, ajudados, aconselhados e se permanecerem no erro serão substituídos e encaminhados para um programa de restauração para que, no futuro, tenham uma nova oportunidade.

Que melhorias ou avanços o senhor gostaria de ver nas igrejas da CG no Brasil?

O nosso sonho é ver todas as igrejas se multiplicando e sendo sempre pastoreadas e administradas por homens sérios, competentes, tementes a Deus e cheios do Espírito Santo, para que sejam referência para uma nação tão corrupta.

Fonte: Instituto Jetro