No início de 1989, o economista Eduardo Cunha, então com 31 anos, saiu do trabalho, na torre do shopping Rio Sul, em Botafogo, e tomou um ônibus rumo à Praça Mauá, no Centro. Seu destino era a sede do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), que lançaria Fernando Collor candidato à Presidência. Alguns dias antes, lembra o ex-presidente do partido no Rio, Cleio Sá Freire, Cunha havia visto um programa da sigla na TV e decidiu que queria entrar na política. Quem viu o tijucano, cabeludo e de sapato furado entrar pela porta da sede do partido, não imaginava que, 26 anos depois, alçado à presidência da Câmara dos Deputados, com o apoio de um rebanho de fiéis evangélicos, ele estaria com os — hoje, escassos — fios de cabelos em pé diante de denúncias de corrupção e de que teria contas na Suíça.

— Ele foi mordido pelo mosquito da ambição. Na época, não pensava assim. Era jovem, empolgado. Mudou quando viu que havia interesses em jogo — afirma Sá Freire, que até hoje, aos 80 anos, está à frente da Igreja do Evangelho Quadrangular da Taquara, na Zona Oeste. Neste feriado, em meio às pressões para que se licencie ou mesmo renuncie à presidência da Câmara, ele analisa, em sua mansão, na Barra da Tijuca, os pedidos de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

Segundo Daniel Tourinho, presidente do PRN e, hoje, presidente do PTC, no início de sua carreira política, Cunha rejeitava as bandeiras conservadoras que hoje defende — contra a legalização do aborto e da união homoafetiva e a favor da redução da maioridade penal.
— Ele joga pesado. Mas não o víamos perfilado com figuras como o pastor (e deputado pelo PR) Marcos Feliciano. Ele não tinha ligação com essas pautas.

Não foram só as pautas que mudaram com os anos. Depois de 20 anos se dizendo frequentador da igreja Sara Nossa Terra, Cunha anunciou, em fevereiro, que passou a frequentar a Assembleia de Deus de Madureira — que, de acordo com o IBGE, tem 13 milhões de fiéis, 13 vezes mais que a Sara. A mudança surpreendeu membros da antiga igreja.

— Se ele vier a um culto nosso, o receberemos de braços abertos. Faz parte da política. A Assembleia de Deus tem muito mais fiéis — afirma o bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra.

Segundo o Ministério Público, foi através de sua nova igreja que Cunha recebeu propina referente a contratos para viabilizar a construção de dois navios-sonda usados pela Petrobras. A denúncia contra o presidente da Câmara revela que o lobista e delator da Lava Jato Júlio Camargo foi procurado em 2012 por Fernando Soares, que operava a propina para o PMDB na estatal e lhe indicou que ele “deveria realizar o pagamento desses valores à Igreja Evangélica Assembleia de Deus”.

[b]Da Tijuca para a Câmara
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Cunha foi criado na Tijuca, em família de classe média. Começou a trabalhar aos 14 anos, como office boy. Jovem, tocava bateria e era fã de bandas como Led Zeppelin e Pink Floyd. Ainda hoje, parentes próximos de Cunha ainda moram no bairro da Zona Norte do Rio. Já o presidente da Câmara mora com a família numa mansão dentro de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca.

[img align=left width=300]http://extra.globo.com/incoming/17748817-f92-54f/w448/2015-856786774-divulgaccao-xd.jpg_20151009.jpg[/img]Entrou na faculdade em 1971 para cursar Economia na Cândido Mendes. Após se formar, casou com a professora de informática Cristina Dytz, que conheceu em Brasília. Ficaram juntos por 13 anos. Segundo ela, apesar de terem três filhos, os dois não se falam. Hoje, é casado com a jornalista Cláudia Cruz. Edna Cunha, irmã do deputado, foi demitida, em 2008, da Câmara, onde trabalhava para outro parlamentar, sob a acusação de nepotismo cruzado. Já a filha mais velha de Cunha, Danielle, de 28 anos, é marqueteira de aliados do pai.

O primeiro cargo no governo foi o de presidente da Telerj (1991-1993). Após o impeachment de Collor, Cunha deixou a empresa. De acordo com Daniel Tourinho, Itamar Franco, que assumiu a presidência no final de 1992, rompeu com o político carioca por achar que ele estava por trás da famosa foto em que o ex-presidente aparece ao lado de Lilian Ramos, sem calcinha, no carnaval do Rio. Em seus diários, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirma que recusou indicação de Cunha para a direção da Petrobras, em 1996, por conta de “trapalhadas” em seu currículo.

Em 1996, Cunha se converteu evangélico pelas mãos do então deputado federal e dono da rádio Melodia FM — líder no segmento evangélico no Rio — Francisco Silva. Pelas mãos do novo aliado, foi indicado ao cargo de presidente da Companhia estadual de Habitação (Cehab), em 1999. Foi eleito deputado federal pela primeira vez em 2003. Hoje, está em seu quarto mandato pelo PMDB e recebe salário bruto de R$ 33.763.

[b]Rosto pelos muros
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Em Heliópolis, bairro de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, parece que a eleição do ano passado ainda não acabou: o rosto [img align=right width=300]http://extra.globo.com/incoming/17748814-d2b-fb0/w448/1999-048308-_19991028.jpg[/img]do presidente da Câmara está por todos os lados. Em 2014, ele foi o terceiro deputado federal mais votado do Rio, com 232.708 votos. Sua maior votação fora da capital foi justamente em Belford Roxo, onde liderou a disputa, com 23.776 votos. A confeiteira Dalma Coutinho, de 55 anos, moradora da Rua Itaboraí, manteve a placa na porta de casa.

— Não entendo muito de política, sou semi-analfabeta. Aqui em Heliópolis, ele ajudou a trazer asfalto para a nossa rua — diz.

Em julho, após ser eleito presidente da Câmara, Cunha rompeu com o governo. A partir de então, o deputado abriu guerra contra a presidente Dilma e o ministro Joaquim Levy, da Fazenda. Um mês depois, foi denunciado ao Supremo Tribunal Federal acusado de receber US$ 5 milhões em propina. Há duas semanas, a Suíça bloqueou US$ 2,4 milhões em contas ligadas a Cunha e a sua mulher no país europeu. Apesar de o Ministério Público ter confirmado que o deputado é beneficiário, ele não fala sobre o assunto.

[b]Fonte: Extra Online via Alagoas 24 Horas[/b]