A missão do reverendo Martin Ssempa é convencer o Parlamento de Uganda a aprovar uma polêmica lei contra os homossexuais.

O eclético grupo entrou no Parlamento. Seu líder, o reverendo Martin Ssempa (foto), usava óculos escuros e longos trajes negros, com cruzes vermelhas bordadas e dois broches de campanha.

Um deles dizia: “Debatam nosso projeto agora!”; o outro, simplesmente: “Não à sodomia”.

A missão de Ssempa é convencer o Parlamento de Uganda a aprovar uma polêmica lei contra os homossexuais. Para muita gente aqui, os homossexuais de Uganda não representam uma minoria sexual em defesa dos seus direitos, mas uma ameaça insidiosa, promovendo um vício canceroso que espalha o HIV.

Em 2009, começou a tramitar no Parlamento de Uganda um projeto que prevê a execução de homossexuais sob certas circunstâncias e que exige que os cidadãos denunciem em 24 horas qualquer ato conhecido de homossexualidade.

O projeto atraiu a ira de nações ocidentais e perambulou indolentemente pela Casa. Quando o conhecido ativista homossexual David Kato foi assassinado, em janeiro, a proposta se tornou politicamente tóxica.

Mas, como o Parlamento entrará em recesso em maio, Ssempa, dirigente de uma seita cristã independente, lançou, neste mês, uma nova ofensiva, levando líderes religiosos, organizadores da sociedade civil e dois supostos ex-homossexuais a se reunirem com o presidente do Parlamento, Edward Kiwanuka Ssekandi. O grupo apresentou-lhe um abaixo-assinado dizendo ter mais de 2 milhões de adesões.

Ssempa, lendo a petição, iniciou a reunião dizendo-se “angustiado” pelo fato de o projeto ter sido “deliberadamente morto” pelas “ameaças” das nações ocidentais.

As atenções, então, se voltaram para os dois homens sentados em silêncio no outro lado da mesa, Paul Kagaba e George Oundo.
“No meu caso, fui atraído para a homossexualidade pelo diretor de uma escola primária que morreu recentemente”, disse Kagaba, 27, referindo-se a Kato.

Outros ativistas gays têm atestado a inocência de Kato, e o próprio Kagaba disse ter sido um inflamado militante da causa durante seis anos, até que sua família realizou uma intervenção, e ele conheceu Ssempa. Hoje, ele diz dar conselhos aos outros na clínica One Love, mantida pelo pastor no centro de Campala.

Em seguida, foi a vez de Oundo, 26, um transexual conhecido como Georgina. “Fui recrutado para a homossexualidade há muitos anos, aos 12”, relatou. “Por favor, nos ajudem; permitam que o projeto seja aprovado”, pediu.

Ao final da reunião, o deputado Ssekandi advertiu que, dificilmente, o projeto será debatido na atual legislatura.

Uma hora depois, num hotel, Oundo retirou grande parte do que havia dito. “Eu não apoio o projeto”, declarou.

Ele disse que sua presença ao lado de Ssempa no Parlamento havia sido para se “proteger”, e que ele havia sido contatado naquela mesma manhã por Kagaba, que teria lhe oferecido o equivalente a US$ 42 para participar.

Ssempa se recusou a comentar as acusações.

Quanto à qualificação de “ex-homossexual”, tampouco era verdade.
“Eu sempre fui gay”, disse Oundo. “Eu não escolhi. Se eu viver ou se eu morrer, eu sou gay, e se eu for enterrado, que me enterrem como gay.”

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]