Após alguns dias da prisão de um dos fundadores da Igreja Evangelho Pleno feita pela policia eritréia, dois pastores protestantes e outro líder de igreja que foram presos há meses foram soltos sob fiança sem explicações.

O pastor Habtom Tesfamichel foi detido sob custódia no dia 23 de janeiro em Asmara, capital da Eritréia.

Segundo fontes, as autoridades foram à casa do pastor para intimá-lo a comparecer à delegacia para ser interrogado e interromperam um período de luto na casa do pastor Habtom, onde sua família estava de luto devido à morte de um pastor luterano na Suécia.

Habtom, de 57 anos, tem sido o pastor da congregação da Igreja Evangelho Pleno de Asmara desde o dia em que o pastor anterior, Kidane Woldu, foi preso, em março de 2005.

O pastor Habtom está detido na prisão Wongel Mermera, que fica na capital, junto a aproximadamente 24 pastores e sacerdotes que permanecerão presos no centro de investigação.

No final de janeiro, dois líderes da Igreja Kale Hiwot foram libertados após pagarem a fiança. Os dois protestantes que foram soltos, identificados como pastor Simon Tsegay e Gebremichel Yohannes, tinham sido presos em setembro do ano passado, na cidade de Adi-Tezlezan, 32 quilômetros ao norte de Asmara. O pastor e Gebremichel, administrador do escritório central da igreja, foram interrogados e presos por oficiais, devido ao uso do edifício para fins da igreja, que tinha sido proibido há quatro anos por ordem do governo.

Dois caminhões pertencentes à Igreja Kale Hiwot, que foram confiscados por oficiais do Estado quando eles fizeram a prisão dos dois homens, ainda estão em poder do governo.

Logo após a libertação do pastor Simon e de Gebremichel, o pastor Fanuel Mihreteab da Igreja Evangelho Pleno foi solto da cadeia de Sempel em Asmara, dois anos após sua prisão, que foi feita em janeiro de 2005 na cidade de Dekemhare. Assim como o pastor Simon e Gebremichel, Fanuel foi forçado a entregar escrituras de propriedades para garantir a fiança requerida.

Fanuel, que foi preso primeiramente no centro de investigação Wongel Mermera, foi um dos três pastores levados perante comandantes militares em audiências extrajudiciais em setembro de 2005. Casado e com dois filhos, ele foi sentenciado a dois anos de prisão, segundo informações.

O governo da Eritréia não fez nenhuma acusação formal contra os pastores e sacerdotes que ainda estão sendo mantidos em Wongel Mermera, sendo que alguns deles foram presos há quase três anos. A maioria deles é mantida incomunicável, e as autoridades se recusam até a confirmar a localização desses prisioneiros.

Desde maio de 2002, a Eritréia fechou várias igrejas proibindo seus cidadãos de freqüentarem cultos fora das quatro religiões aprovadas pelo governo: a Igreja Ortodoxa da Eritréia (Igreja Ortodoxa Copta), Igreja Católica, a Igreja Evangélica Luterana e o islamismo.

Mais de 2 mil cidadãos eritreus em pelo menos 14 cidades estão presos em delegacias, campos militares e em prisões unicamente por suas crenças religiosas.

Embora a maioria seja cristãos protestantes, cada vez mais membros da Igreja Ortodoxa Copta, Testemunhas de Jeová e membros da comunidade muçulmana também estão sendo presos sem acusações feitas pelo regime autoritário do presidente Isaias Afwerki.

Reprimindo protestos

De acordo com uma fonte local, “reclamações e descontentamentos contínuos” começaram a surgir em janeiro de vários sacerdotes e adeptos da Igreja Ortodoxa Eritréia do país. Historicamente, 40% dos eritreus se consideram pertencentes à Igreja Ortodoxa Copta por nascimento.

Essa divergência declarada representou uma reação crescente ao ultimato feito pelo governo no dia 5 de dezembro de 2006, confiscando todo o dizimo da igreja e doações para as contas do banco do Estado a partir de 1º de janeiro.

No dia 17 de janeiro, 15 sacerdotes ortodoxos que discordavam do novo regulamento financeiro receberam cartas de avisos para “segurarem suas línguas” sobre esse assunto. Esses avisos vieram do escritório de Yeftehe Dimetros, um administrador escolhido pelo governo para comandar a Igreja Ortodoxa da Eritréia desde agosto de 2005.

Segundo a fonte, o medo de que o governo logo prenderá esses 15 sacerdotes aumenta.

Em 25 de Janeiro, um grupo de monges, sacerdotes e diáconos que discordam da Igreja Ortodoxa da Eritréia escreveram ao site da oposição ‘Asmarino Independent News’, relatando que o patriarca Abune Antonios foi forçado a tirar sua vestimenta patriarcal e sua insígnia por ordens do governo.

Segundo informações, Yeftehe enviou dois sacerdotes e três agentes de segurança de seu escritório administrativo no dia 20 de janeiro para confiscar as vestimentas do patriarca, duas correntinhas de São Marcos, um recipiente de óleo de crisma utilizado em batismo e outros itens cerimoniais.

O patriarca Abune Antonios tem sido mantido sob prisão domiciliar desde agosto de 2005, após ele se opor à prisão de três de seus sacerdotes.

Muçulmanos presos

Muçulmanos eritreus também demonstraram uma crescente resistência em janeiro contra a nomeação arbitrária do governo para a escolha do mufti. Como resposta aos protestos ocorridos na cidade de Keren, 55 muçulmanos foram detidos.

O pretexto oficial das prisões, segundo moradores muçulmanos, foi que as pessoas que foram presas estavam fugindo de suas obrigações militares ou estavam ajudando seus filhos a saírem do país para evitar o serviço militar.

Desde então, fontes da cidade de Keren confirmaram que pelo menos mais 35 muçulmanos desapareceram da cidade e presume-se que eles estão presos.

Em pouco mais de um ano, 69 muçulmanos foram presos em Wongel Mermera por serem contra o mufti nomeado pelo governo.

Uma dessas prisões inclui Taha Mohammed Noor, uma personalidade nacional importante que foi preso em novembro de 2005 por protestar contra a interferência do governo nas questões religiosas da comunidade eritréia de muçulmanos, que constituem quase a metade da população eritréia.

Fonte: Portas Abertas