O aborto provocado foi o desfecho da primeira gravidez de 16,7% das mulheres de 18 a 24 anos, de acordo com levantamento feito com 4.634 jovens moradoras de Salvador, Rio e Porto Alegre.

Além disso, a pesquisa mostrou como condição social e acesso à educação estão relacionados com a opção por interromper a gestação: em jovens com renda familiar superior a R$ 180, o número de abortos é quatro vezes maior do que entre as de menor renda e grau de escolaridade.

Já uma relação sexual precoce não apareceu associada a um maior número de abortos: em Porto Alegre, as jovens iniciam a vida sexual mais cedo (entre 16 e 17 anos), mas fazem menos abortos do que as de Salvador, que adiam mais os relacionamentos (a média é 18 anos), mas usam menos contraceptivos.

Os dados fazem parte do estudo “Aborto provocado na juventude: desigualdades sociais no desfecho da primeira gravidez”, feito pela médica Maria de Souza Greice Menezes a partir dos dados coletados em 2004 pela pesquisa Gravidez na Adolescência (Gravad), uma parceria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Inédito até então, o material será divulgado em um livro que está sendo preparado pelos pesquisadores.

“Sempre que se fala em aborto levam-se em consideração dados do Sistema Único de Saúde (SUS) de mulheres que chegam com complicações em pronto-socorro e maternidades. Mas a pesquisa foi com a população geral e mostra que o aborto está presente em todas as faixas sociais. E que as jovens de maior renda, numericamente, engravidam menos precocemente, mas, quando engravidam, abortam mais”, explica Maria de Souza, pesquisadora do Programa de Estudos em Gênero e Saúde do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

É o caso da estudante universitária Janaina (nome fictício), de 24 anos, que aos 19 fez um aborto com o consentimento dos pais em uma clínica de um bairro nobre do Rio. “Tinha acabado de entrar na faculdade, estava cheia de planos, não era a hora para ter um filho”, conta.

Ela não esconde o sofrimento e a dificuldade da experiência, mas diz que não se arrepende. “Sofri muito e até hoje, quando penso nisso, sei que é uma marca que ficou na minha vida. Mas foi melhor do que ter um filho indesejado.”

Para a médica, um panorama desse tipo pode fornecer mais elementos para a discussão sobre o tema no País. “O debate sobre gravidez na adolescência é bastante hipócrita porque só discute pelo lado dos nascimentos e ignora as interrupções voluntárias. Então o estudo traz o debate sobre o aborto clandestino”, afirma a antropóloga Maria Luiza Heilborn, responsável pela pesquisa e coordenadora do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos da UERJ.

Diferenças

O levantamento mostra que jovens classificadas como de mobilidade escolar ascendente, uma categoria que inclui garotas com nível médio ou superior e mãe com ensino fundamental, fazem mais aborto (29,5%) do que as de mobilidade descendente (19,3%) – que têm apenas o ensino fundamental e suas mães concluíram o ensino médio ou superior.

Uma explicação, segundo Maria Luiza, é o fato de a gravidez para jovens de baixa renda ser uma maneira de dar sentido para suas vidas, que costumam não ter perspectivas para o futuro.

O primeiro grupo também faz mais o aborto utilizando Cytotec, abortivo de venda permitida apenas para hospitais. As de menor escolaridade foram as que mais procuraram clínicas clandestinas.

Outra questão foram as diferenças regionais. Enquanto entre as entrevistadas de Porto Alegre apenas 8% disseram ter optado pelo aborto, no Rio, 17% deram a mesma resposta. Em Salvador, o índice foi de 19% – diferenças associadas a fatores culturais e socioeconômicos.

“A precocidade não está ligada ao aborto. O que tem ligação são relações desprotegidas”, diz Maria de Souza.

Fonte: Estadão