Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha mostrou que os brasileiros estão mais tolerantes com o homossexualismo e menos tolerantes com o aborto do que em 1998, primeiro ano em que a pesquisa foi realizada, e que a família ainda é a instituição mais valorizada. As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

Para tentar entender como a família brasileira se constitui, o Datafolha investigou o perfil e comportamento dos casados, separados, viúvos e do grupo de solteiros que já viveu com alguém.

Entre o último levantamento do tipo, de 1998, e o de agora, muito pouco mudou em termos gerais. De lá para cá, o percentual de casados (49%) permaneceu o mesmo, assim como o de solteiros (37%). O total de separados apenas oscilou, de 8% para 9%, e o de viúvos ficou estático em 6%.

Dentro de cada um desses grupos, no entanto, ocorrem variações importantes quando os cortes são feitos levando em conta renda ou escolaridade. Entre os dois períodos, por exemplo, houve um salto de 15 pontos percentuais (de 76% para 91%) no total de casais com filhos que têm renda familiar só até 10 salários mínimos. Já os casais com filhos que ganham entre 10 e 20 mínimos encolheram de 15% para 6%.

Como o Datafolha considera “casadas” pessoas que vivem juntas, independentemente do modo como selaram essa união, também foram registradas mudanças substantivas na maneira de constituir a família.

Entre os que já se casaram, os números mostram que, entre 1998 e 2007, houve uma queda de 11 pontos percentuais (de 55% para 44%) no total dos que selaram a união tanto em cartório de registro civil quanto em igreja. Os dois principais motivos para o não-casamento no civil, segundo o Datafolha, são “falta de interesse do companheiro(a)” ( 16%) e “custos financeiros” (15%).

Drogas

A discussão intensa, nos últimos anos, sobre a descriminalização da maconha ainda não provocou mudanças significativas na opinião pública. A nova consulta apontou só uma pequena queda nas respostas “muito grave” à pergunta sobre o que o entrevistado pensaria de o filho ou a filha fumar maconha. No caso de filhos homens, caiu de 78% para 72%. No caso de filhas, oscilou de 80% para 78%. Fumar maconha ainda é considerado moralmente errado por 85% das pessoas, número só abaixo do que diz respeito a praticar o aborto (87%).

“A violência tem piorado, a criminalidade aumenta exponencialmente, e isso está sendo associado, correta ou incorretamente, ao tráfico de drogas e à acusação que se faz aos usuários de também serem responsáveis pela violência”, avalia o antropólogo Gilberto Velho, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Já tendo acompanhado por muito tempo pesquisas com usuários, ele diz ter ouvido muitos relatos de pessoas que deixaram as drogas “por causa do banditismo, assumindo que tinham algum tipo de responsabilidade”.

Velho argumenta que, ao contrário do que possam indicar os números, a maconha é muito difundida. As respostas, dadas no campo moral, ocultariam a prática, como diz Debora Diniz, da UnB. “A pessoa pode não ver problema nenhum em fumar maconha, mas é um ato ilícito”, afirma ela.

A opção “muito grave” fica num patamar mais alto quando o tema é cocaína, mas também sem alteração significativa: 83% dos entrevistados avaliaram assim o ato entre os filhos (contra 87% de 1998) e 86% se fossem filhas (contra 84%).

O índice mais alto de “muito grave” é no item “fazer parte de uma gangue violenta”. Pensando em filhos homens, 89% cravaram a resposta e, em mulheres, 90%. Em 24 de junho, num caso de repercussão nacional, jovens espancaram a doméstica Sirlei Dias Carvalho no Rio. No último dia 16, três adolescentes mataram um índio em Minas Gerais.

Sobre o filho ser corrupto, 80% das pessoas avaliaram a hipótese como muito grave –sobre as filhas, 83%. A pesquisa foi feita antes da absolvição de Renan Calheiros pelo Senado e as conseqüentes reações negativas, mas traduz insatisfação que vem de muitos anos e se acirrou com o mensalão. ´

Entre os que ganham mais de 20 salários mínimos mensais, cai para 50% os que consideram muito grave fumar maconha.

Galeras

O envolvimento dos adolescentes com as chamadas “galeras” –grupos que delimitam territórios, cobram pedágio de moradores de bairros pobres e disputam pontos do tráfico de drogas– é o temor da maioria das famílias que habitam a periferia de Manaus (AM).

Morador do bairro da Compensa 2, na zona oeste da cidade, Carlos Alberto da Silva, 45, afirma que mudou o horário de trabalho para ficar mais presente em casa e orientar os meninos sobre os cuidados com as galeras e o tráfico de drogas. Ele afirma que o envolvimento da família com a religião –eles são evangélicos– também ajuda nos diálogos. “Eu falo para eles que as galeras e o tráfico não são o caminho. Aqui [na localidade na qual moram] morre um por semana”, afirma. Na casa do casal, o lazer dos meninos é jogar bola, soltar pipa na laje e jogar videogame. Aos domingos todos se reúnem na igreja evangélica. “A família é muito importante, sim, mas cada filho tem que se conscientizar dos perigos da violência, senão eles vão [se envolver] de qualquer jeito”, afirma Carlos Alberto. ´

Aborto

De 1998 a 2007, a rejeição ao aborto cresceu dez pontos percentuais; estudiosos atribuem ao acirramento do debate e à popularização das ultra-sonografias

“Hoje, acho que cada caso é um caso, não é uma questão moral. É muito sério uma menina nova, sem estrutura, botar esse filho no mundo para sofrerem ela e a criança.” Tatiana Gomes, 27, psicóloga, que engravidou aos 19 e decidiu ter o filho

Se os números de 2007 mostram uma tolerância maior das famílias a possíveis relacionamentos inter-raciais e homossexuais por parte de seus filhos, os mesmos entrevistados descrevem um movimento inverso em questões comportamentais de outra natureza, sejam as regidas por implicações legais –consumo de drogas, pequenos furtos ou participação em gangues–, sejam as movidas por forte conteúdo religioso, como o aborto, tema cujos índices de aprovação/rejeição costumam subir e descer nas pesquisas, ao sabor dos acontecimentos do momento.

Nessa categoria, a interrupção da gravidez não desejada desponta com a variação mais significativa, com um salto de 61% para 71% na taxa de rejeição. Em outro desdobramento da pesquisa, sobre o que consideram moralmente certo ou errado, 87% condenaram a interrupção da gravidez. Para os mais liberais, isso pode soar como contradição. Não é, afirmam estudiosos do tema.

A antropóloga Debora Diniz, professora de bioética da UnB (Universidade de Brasília) e diretora da ONG Anis (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero), argumenta que, em pesquisas de opinião sobre assuntos de ordem moral, as respostas tendem para “um julgamento moral compartilhado, que não necessariamente representa práticas individuais”.

Ser racista ou homófobo é algo cada vez menos aceito socialmente. Já o aborto tem sido tema de debates acirrados, em especial, segundo Diniz, a partir de 2004, quando chegou ao Supremo Tribunal Federal uma ação para tornar legal a interrupção da gravidez em casos de fetos anencefálicos (sem cérebro) –o mérito da ação ainda não foi julgado.

“Nunca se falou tanto sobre aborto quanto nos últimos anos. Ele passou a ser uma bandeira de afirmação de que lado você está. No confronto, a posição compartilhada dos valores morais se reforça. Você quer se enquadrar no julgamento de uma boa mãe. Não podemos afirmar que são mudanças de prática, mas de narrativa”, diz ela.
A também antropóloga Maria Luiza Heilborn, coordenadora do Clam (Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos) e professora do Instituto de Medicina Social da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), aponta outro fator responsável pelo crescimento da rejeição: a ultra-sonografia. “Ao mostrarem uma imagem assemelhada à imagem humana, as novas tecnologias de visualização do feto fizeram uma mudança muito grande no imaginário social. Uma coisa que era oculta passou a ser visível”, afirma ela, que enxerga uma “ressacralização da vida pré-uterina” hoje.

Em pesquisas que vem realizando –como a Gravad (1999-2002), sobre gravidez na adolescência–, Heilborn constata que, após verem o feto, muitas mulheres deixam de cogitar o aborto. “Quando pensam em abortar, é porque elas não deram ao feto o status de pessoa. Após o exame, não estão esperando mais uma criança, mas a ‘Verônica’, o ‘Francisco’”, acha. Ela ressalta a diferença entre o índice de “moralmente errado” (87%), resposta mais genérica, e de “muito grave” (71%), quando a pergunta se refere à eventual filha do entrevistado. “As condições deixam de ser universais e passam a ser circunstanciadas.”

Margareth Arilha, coordenadora do Prosare (Programa de Apoio a Projetos em Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos), ligado ao Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), destaca também escolaridade e renda como fatores que alteram as opiniões sobre a prática do aborto. A resposta “moralmente errado” foi dada por 90% dos que têm ou cursam ensino fundamental e por 77% dos de ensino superior. Na renda familiar mensal, a diferença foi de 87% (até dez salários mínimos) a 69% (mais de 20).

“Ter acesso a um nível maior de informação é fundamental para problematizar esse assunto, que é muito delicado. Está impregnada no imaginário social a idéia de que é um gesto de desamor, egoísta, esquecendo-se de que a mulher que aborta é a mesma que tem filhos”, afirma ela, que considera o tema “o último dos moicanos na batalha de transformação das culturas”.

Confrontados com a pergunta de que atitude tomariam caso uma filha adolescente engravidasse, 82% responderam que forneceriam apoio para que ela tivesse o filho em qualquer situação. Mas quando a pergunta troca de gênero e se refere a um filho que engravidasse uma garota, o índice dos que apoiariam o nascimento em qualquer situação cai para 71%.

A mineira Paula Ballesteros enfrentou a primeira situação aos 18 anos, quando engravidou depois de dois meses de namoro. Sua mãe teve uma reação rara, declarada por menos de 1% dos pais ouvidos na pesquisa, e a aconselhou a abortar argumentando que ela era muito nova; o pai a deixou livre para escolher. Paula, hoje com 23, decidiu ter. “Eu sou adotada, e não podia pensar em tirar um filho”, conta.

Após a decisão, ela diz que a mãe a pressionou a casar, uma atitude professada por 15% dos pais entrevistados. O casamento ocorreu, mas ela já se separou. “Acho que todas as mulheres devem ter [os filhos]. Se não, vão estar tirando uma vida”, diz Paula, mãe de Rafaela e que sonha com mais três filhos. A carioca Tatiana Gomes, 27, também pensava assim há oito anos, quando engravidou de João Guilherme. Os pais não pressionaram, mas tias sugeriram o aborto, o que ela recusou.

“Hoje, acho que cada caso é um caso, não é uma questão moral. É muito sério uma menina nova, sem estrutura, botar esse filho no mundo para sofrerem ela e a criança”, reflete ela, psicóloga que se tornou cantora de funk (da dupla A Princesa e o Plebeu) e está acostumada a ver adolescentes carregando bebês em comunidades carentes. Tatiana tem outra filha de sua segunda união.

40% dos óbitos maternos provocados por aborto são mascarados como infecções, hemorragias ou por “causa mal definida”

O que diz O ministério

“A questão moral a ser discutida, neste caso, é como devemos enfrentar o fato de a morte materna por aborto –a quarta causa de mortalidade materna no Brasil– acontecer quase que exclusivamente entre as mulheres que pertencem a classes desfavorecidas. Descriminar o aborto não significa promovê-lo, mas sim perceber que a via penal não é a melhor forma de tratar deste que é um problema de saúde pública.”

A lei

Desde 1940, o aborto é crime no Brasil, com pena de um a três anos de prisão para a gestante; as exceções são casos de gravidez decorrente de estupro ou em que a mãe corre risco de morte.

O que pensa o ministro

Em março, pouco depois de assumir o Ministério da Saúde, José Gomes Temporão defendeu a realização de um plebiscito sobre a legalização do aborto. Muito atacada por setores contrários à legalização –como a Igreja Católica–, a proposta perdeu força, mas não a defesa do ministro de mudanças na legislação. Para ele, o aborto é um caso de saúde pública e, logo, tema de governo, idéia apoiada publicamente pelo presidente Lula. Em sabatina na Folha, em junho, Temporão afirmou que há um aborto para cada três bebês que nascem no país.

Instituições

Cerca de 69% dos brasileiros consideram a família como a instituição mais importante. Em 1998, a família aparecia empatada com os estudos (61%). O estudo foi considerado muito importante por 65% dos brasileiros em 2007.

Na seqüência vieram o trabalho (58%), a religião (45%), o lazer (32%), o casamento (31%) e o dinheiro (30%). Em 1998, o dinheiro (36%) era considerado mais importante que o casamento (31%).

“A família é uma instituição confiável que se contrapõe a tantas outras instituições brasileiras desvalorizadas, como o Estado, representado pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Por outro lado, essa valorização mostra que a nossa sociedade concentra os seus valores na família. Não é bom. Porque é o lado privado da ética e não o público”, afirma o psicanalista e professor do Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Jurandir Freire Costa.

Pesquisa sugere que casamento faz bem para a saúde

O casamento faz bem para a saúde do casal e dos filhos, segundo um levantamento sobre famílias feito pelo Departamento Nacional de Estatísticas do governo britânico divulgado nesta sexta-feira.

O levantamento concluiu que homens solteiros de até 35 anos têm risco de morte 50 % maior do que um homem casado, da mesma idade. No caso das mulheres, as casadas têm menos probabilidade de desenvolver doenças crônicas do que as solteiras.

Os dados mostram ainda que as crianças de pais casados que continuam a viver juntos, permanecem na escola, ou faculdade, por mais tempo –78% das meninas e 69% dos meninos, em famílias de pais casados, permanecem como estudantes em tempo integral aos 17 anos.

Neste quesito, os filhos de mães solteira vêm em segundo lugar, com 59% dos garotos e 69% das meninas continuando a estudar em tempo integral aos 17 anos.

O estudo, que analisa o período entre 1996 e 2006, mostra que o número de casais que coabitam mas não são casados aumentou em 65% no país, alcançando 2,3 milhões. O número de casais casados caiu 4% no mesmo período, para 12,1 milhões.

O levantamento ainda mostra que, para a saúde das crianças, a estabilidade é a melhor receita. Crianças que vivem com os pais naturais –casados ou não– têm muito menos chances de desenvolver doenças a longo prazo do que filhos de mães e pais solteiros.

O número de casais coabitando é muito mais alto entre os jovens. E, entre 2001 e 2003, 21% das mulheres entre 25 e 29 anos afirmaram já ter coabitado antes dos 25 anos de idade. Esta proporção cai para 1% entre as mais velhas.

Dados da Inglaterra e do País de Gales sugerem que se a tendência continuar, o número de pessoas com menos de 40 anos coabitando vai ultrapassar o número de casados, na mesma faixa etária, até 2014.

A família brasileira

· 3,8 é o número médio de pessoas por casa
· A quantidade média de filhos por família é 2,7
· 27% dos casais estão juntos há mais de dez e menos de 20 anos Os casados com filhos que têm renda de até dez salários mínimos são 91%
· Os brasileiros que não costumam conversar durante as refeições equivalem a 30%
· 35% dos brasileiros ganham até dois salários mínimos, e outros…
· 24% ganham entre dois e três salários mínimos
· Solteiros que já se casaram ou viveram com alguém como se fossem casados são 17%

Fonte: Folha de São Paulo