Na Polônia, 28 mil padres foram advertidos pelas autoridades eclesiásticas de que podem ser multados se plagiarem seus sermões da internet. A pena pode chegar até mesmo a três anos de prisão.

A Igreja publicou um livro de auxílio para a redação de sermões, cujo objetivo é afastar os padres do hábito crescente de furtar as palavras de seus colegas do clero.

O padre Wieslaw Przyczyna, co-autor do livro Plagiar ou não Plagiar, disse à imprensa polonesa que o guia foi escrito numa tentativa de resolver um problema cada vez mais comum, com a popularização do hábito de tornar disponíveis os sermões paroquiais na rede mundial e o número cada vez maior de padres acessando a internet.

O padre Przyczyna, especialista em homilética (elaboração e pregação de sermões) da Academia Pontifícia de Teologia de Cracóvia, disse ainda que a finalidade do livro é mover os culpados ao arrependimento e à confissão.

“Infelizmente, é uma prática cada vez mais comum”, lamenta Przyczyna. “Quando um padre copia as palavras de outro padre e as apresenta como de sua própria autoria sem citar a fonte, age de forma antiética e contraria as regras da propriedade intelectual.”

A repercussão da publicação do guia indica que o problema também existe em outras partes do mundo, particularmente na Grã-Bretanha e nos EUA, onde a prática é apelidada de “plágio pastoral”. Nos Estados Unidos, Glenn Wagner, um ex-pastor evangélico, e Robert Hamm, ex-ministro da Igreja Unida de Cristo, renunciaram em 2004 depois de plagiarem sermões.

Especialistas na arte do discurso religioso ponderam que um sermão não costuma ser baseado em um pensamento original. Mesmo assim, um padre deveria tentar comunicar as idéias com suas próprias palavras para promover um diálogo mais fecundo com os fiéis.

O guia polonês de 150 páginas é vendido para os padres por um preço equivalente a cerca de R$ 20.

As autoridades da Igreja manifestaram a intenção de realizar inspeções sistemáticas para coibir a prática e pretendem contar com paroquianos atentos para comparar os textos online com aqueles da Biblioteka Kaznodziejska, revista mensal que publica sermões de diversos púlpitos da Polônia.

Os chefes da Igreja também estão discutindo a possibilidade de ensinar aos seminaristas conceitos de propriedade intelectual. Os principais suspeitos não são os padres mais velhos que, com freqüência, não acessam a internet, mas seus colegas mais novos.

Os jovens padres recorrem à internet quando não têm muita habilidade para falar em público. Especialmente no sábado à noite, quando entram em pânico por não terem nada para dizer na missa da manhã seguinte. “Administradores de sites de homilias na web notam um aumento considerável dos acessos nas noites de sábado”, afirma Przyczyna. “Isso separa o padre dos seus fiéis e cria um sério problema de comunicação. As pessoas percebem quando os padres estão simplesmente lendo um texto de outra pessoa.” Ele sublinha que os pregadores não devem falar para “pessoas virtuais”.

Mas Przyczyna já enfrenta uma reação à sua cruzada contra o plágio. Em entrevista à Catholic News Service, uma agência de notícias confessional, ele afirmou ter recebido reclamações por “perseguir os padres e expor suas fraquezas” ao apontar o problema.

Fonte: Estadão